Por José de Alencar (1872)
- É verdade, minha tia. Havemos de fazer uma sociedade para ficarmos ricos de repente. Conheço um americano que inventou uma máquina de chocar ovos...
- Já sei; para tirar os pintos sem galinha.
- Ora! Isto não vale nada. A minha máquina é coisa mais sublime; olhe, minha tia: mete-se um ovo, um ovo só. Três dias depois abre-se a porta da máquina, e enche-se a capoeira de galos, galinhas e frangos.
- Grandes?
- Pois então? Manda-se vender à cidade a primeira capoeira. Mas como as galinhas antes de saírem da máquina puseram lá os ovos, e estes já estão feitos galinhas, é um não acabar!
A velha ria-se às gargalhadas das pilhérias do sobrinho; e assim iam temperando o almoço com o sal da alegria e do prazer, que é sem dúvida o melhor adubo.
A ligação íntima e sincera que havia entre os dois moços era mais do que amizade, era uma afeição fraternal, que o casamento de Fábio e Luisinha devia mais tarde consagrar. Pela idade, como pela gravidade do caráter e superioridade de inteligência, Ricardo exercia sobre o amigo a doce autoridade de um irmão mais velho: a autoridade do exemplo e do conselho.
Estas relações tinham começado havia seis anos na cidade de São Paulo, onde habitava Ricardo com sua família. No ano em que o talentoso estudante ia concluir o seu curso e formar-se, Fábio, muito mais moço, matriculou-se na faculdade. Apesar dessa circunstância que os devera separar logo no princípio de seu conhecimento, a amizade estreitou-se entre os dois. O meigo sorriso de Luisinha foi naturalmente o fio dourado que teceu essa mútua afeição. Havia três meses que Fábio se tinha formado. Para ele o prazer que sempre desperta esse dia no coração do estudante, veio travado de saudades. Sua pobreza não lhe permitia realizar o voto mais querido de sua alma; tinha de separa-se de Luisinha, para recolher à corte, ao seio da família. Ia trabalhar na esperança de adquirir uma posição modesta, mas decente, para oferecer à companheira de sua existência. Os dois corações sofreram com a ausência, mas resignaramse.
Ricardo de seu lado reconhecera que em São Paulo não poderia, apesar de seu talento, obter os recursos indispensáveis para assegurar o futuro da numerosa família que pesava sobre ele, depois da morte de seu pai.
Aproveitando a ocasião, veio com Fábio para a corte tentar fortuna.
Estabeleceram-se ambos como advogados. Obtido o escritório, posto o nome na porta e feitos os anúncios, esperaram pelos clientes. Nos três meses decorridos conseguira Ricardo quatro causas gratuitas, que por grande obséquio lhe arranjara um procurador. Apenas lá de tempos a tempos, uma inquirição, ou algum requerimento, ia ajudando a compensar as despesas.
Os dois amigos suportavam sua pobreza nobremente. Às vezes Fábio, mais desabusado, sustentava umas idéias materialistas, como aquelas que exprimira durante o passeio; mas Ricardo, que não transigia em matéria de escrúpulo e honestidade, combatia tais aberrações do espírito de seu amigo, e destruía a influência nociva que o mal poderoso e laureado exerce sobre as almas cuja têmpera não é bastante forte para resistir-lhe.
A semana passava-se na expectativa ilusória dos clientes que não vinham, ou na meditação de um estudo obrigado e sem estímulos. No sábado, os dois amigos tomavam a gôndola de Andaraí, com o fim de aceitar de D. Joaquina uma hospitalidade oferecida com o maior gosto e satisfação. Para a excelente senhora, enterrada viva naquele retiro, a chegada de Fábio e seu companheiro era uma visita do mundo àquela solidão, donde não saía senão de ano em ano. O contato daquela mocidade a remoçava; ela escutava com admiração a palavra inspirada do talentoso advogado, ou ria das graças do sobrinho.
Ricardo possuía em São Paulo um cavalo, o “Galgo”, ao qual muito se afeiçoara. Mudando-se para o Rio de Janeiro não se animara a vendê-lo; trouxe-o consigo. Ignorava quanto é dispendioso na corte o trato de um animal. Sem dúvida seria obrigado a separar-se do “Galgo”, se Fábio não pedisse à tia para conservá-lo na sua rocinha da Tijuca.
Assim pouco se aproveitava o dono do seu cavalo; porém obtinha conservá-lo, esperando melhores tempos. Os dois amigos partilhavam igualmente os serviços do cavalo, e o “Galgo” parecia compreender essa comunidade, porque os considerava a ambos como senhores, embora respeitasse mais a Ricardo.
No sábado, quando subiam a serra, um por seu turno montava o “Galgo”, enquanto o outro ia a pé com a fresca, até que o cavalo tendo chegado à casa, vinha-lhe ao encontro para poupar-lhe um resto de caminho. Na segunda-feira pela manhã, voltando para a cidade, revezavam igualmente.
O domingo era repartido da mesma forma: um desfrutava o passeio da manhã, o outro o da tarde. Se pois o “Galgo” descansava durante os quatro dias da semana, nos outros fazia sofrível exercício.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.