Por José de Alencar (1861)
Clarinha — Não se lhe pode ocultar cousa alguma.
Henrique — Pois eu faço-lhe a vontade, mas com uma condição.
Clarinha — Conforme for ela.
Henrique — Há de pedir a Bela, que lhe ensine como a mulher deve amar seu marido, desculpar-lhe todas as faltas...
Isabel — Eu dispenso o meu elogio, Henrique.
Clarinha — Acrescente: porque ele lhe faz todas as vontades.
Henrique — Oh! ela merece tudo.
Clarinha — Muito obrigada. Eu não mereço nada.
Isabel — Deixem-se disso.
Henrique — Então está decidido. Ficamos oito dias.
Isabel — Nem os deixo ir antes.
Clarinha — E quando for levo-te comigo: já vou te avisando!
Isabel — Se Augusto quiser.
Henrique — Até já.
Clarinha — Onde vai?
Henrique — Vou dar um passeio, enquanto meu tio não chega.
CENA X
Isabel e Clarinha
Clarinha — Viste?
Isabel — Vi, Clarinha! Vi que Henrique não é feliz. E não foi isto o que me prometeste.
Clarinha — Que posso eu fazer, Bela? Fomos felizes nos primeiros meses. Tu sabes como ele me amava, quando nos casamos.
Isabel — Sei e não fazes idéia do alívio que eu sentia durante a moléstia de Augusto vendo nascer esse amor.
Clarinha — Não pensavas decerto que havia de acabar tão cedo? Henrique já não me ama, Bela.
Isabel — Porque não queres.
Clarinha — Sou eu que não quero?
Isabel — Uma mulher bonita e inteligente como tu, Clarinha, que não teve a desgraça de perder a estima de seu marido, só o não obriga a amá-la, quando não quer.
Clarinha — Gosto de te ouvir falar!... Henrique não pára em casa: anda sempre em caçadas, ou passeios. Volta fatigado e aborrecido; tudo lhe enjoa; tudo o contraria.
Isabel — E tu em vez de agradá-lo, e satisfazer-lhe todos os caprichos, ficas arrufada, não é?
Clarinha — Quem pode suportar isto, Bela?
Isabel — Foi por esta razão, que eu te perguntei se amavas teu marido.
Clarinha — Quem o sabe melhor do que tu?
Isabel — Não me compreendeste. Não te perguntei se amavas Henrique; porém, se amavas teu marido. Parece-te uma extravagância, não é assim?
Clarinha — Deveras não te entendo.
Isabel — Como amamos nós o homem que escolhemos e com quem nos casamos? Como moças que não conhecem o mundo, e apenas sabem da vida os sonhos doirados. É um bonito romance que fazemos, todo cheio de emoções, de sorrisos, e de flores. Foi assim que eu amei Augusto e que tu amaste Henrique.
Clarinha — E ainda não mudei.
Isabel — Estás bem certa disso?... O casamento mata esse primeiro amor que dura alguns meses, o primeiro ano quando muito. Desaparece a ilusão: o marido não é mais um herói de um bonito romance, torna-se um homem como qualquer outro, e às vezes mais ridículo, porque o vemos de perto. Então sente-se n'alma um vácuo imenso que é preciso encher.
Clarinha — Porém tu me justificas.
Isabel — Ouve. Nesse momento é preciso toda a coragem senão o tédio e a monotonia de uma vida já sem esperanças nos invade. A imaginação procura no mundo o que não acha na família! E sabes o que se encontra?... Pelo menos o martírio de uma vida inteira.
Clarinha — E tu sentiste isso, Bela?
Isabel — Eu?... Oh! não o digas a ninguém! Senti os desenganos das minhas mais doces esperanças, senti morto o meu primeiro amor, e tive medo que uma afeição estranha se insinuasse em meu coração. Via fugir a pouco e pouco esse amor de que tinha vivido tanto tempo e ao qual dedicara toda a minha existência. Achava-me tão só no mundo, longe da família que eu tinha deixado, e mais longe da nova família que eu ainda não sabia compreender. Era um deserto, em que minha alma vagava sem abrigo. Oh! nunca sofras, tu, Clarinha, o que eu sofri!... Mas Deus salvou-me. Amei meu marido.
Clarinha — Como?
Isabel — Amando minha filha. Refugiei-me nessa afeição. Aí encontrei de novo o homem que eu tinha amado: associei-me a essa vida que outrora me parecia tão seca e tão egoísta: acompanhei-o de longe, e vi quanta generosidade e quanta delicadeza encobre a sua reserva. A minha solidão foi-se povoando: o governo da casa, os cuidados domésticos, o desejo de tornar doce e cômoda a existência daquele que se dedicava à felicidade da família, deram-me as emoções mais agradáveis e mais puras que tenho sentido. Queres que te confie uma cousa? O meu maior prazer é ler os discursos de Augusto. Não te rias!
Clarinha (rindo) — Hás de entendê-los perfeitamente!
Isabel — Não os entendo, não! Mas no modo de dizer, na maneira digna por que ele ataca um adversário, no generoso entusiasmo com que defende uma idéia, na firmeza e sinceridade de sua palavra, aprendo a conhecer a nobreza de seu caráter; e descubro muitas vezes uma qualidade que ainda não se me tinha revelado. Olha, Clarinha: é um erro nosso, muito comum. Admiramos os estranhos pela consideração de que eles gozam na sociedade; e entretanto uma mulher, em vez de acompanhar o marido em seus trabalhos, em suas empresas, em suas glórias, quer achá-lo tal qual ela o sonhou, na obscuridade e no repouso da vida doméstica!
Clarinha — Assim tu tens hoje por teu
marido uma verdadeira paixão.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.