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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Animada por um assomo de cólera, essa beleza eqüina desenhava na imaginação daqueles homens os contornos voluptuosos de alguma gentil morena da redondeza, quando sucedia irritála uma palavra ou gesto de seu namorado. Ao mesmo tempo despertavam no ânimo de cada um os brios do picador, embora o fero olhar que desferiam as grandes pupilas negras da égua, sofreasse os ímpetos dos mais destemidos. 

De momento a momento, aspirava o indômito animal uma golfada do vento agreste dos pampas. Escapava-lhe então do peito um nitrido plangente e merencório, que enternecia, como o soluço da selvagem mãe implorando o filho perdido. 

Passando o primeiro movimento de curiosidade, e feitos na linguagem pitoresca a campanha os elogios do lindo animal, aproximaram-se todos, fechando o círculo em torno do moirão. 

Nesse instante ergueu-se do alpendre, onde estivera deitado sobre o pelego, um gaúcho, que veio recostar-se ao parapeito. Ninguém ali o conhecia, a não ser o dono da pousada, com quem trocou algumas palavras. 

O desconhecido chegara durante a noite e vinha de longe, ao que parecia. Estava descansando da jornada, quando o borborinho das vozes, e as risadas que soltavam os andantes, o despertaram. Excitado da curiosidade, pôs-se a contemplar a cena do terreiro, que ele via perfeitamente daquela posição elevada. 

Fora longa e renhida a luta dos peões com o animal, antes que lhe deitassem a mão. Em se adiantando algum mais afoito, a égua juntava e de um salto espantoso se arremessava longe, disparando aos ares o coice terrível, e encrespando o pescoço para morder. 

Conheceram afinal que era impossível levar sua avante pelos meios ordinários. Foi então laçado o animal pela garupa em um dos corcovos, e jungido ou antes, enrolado ao moirão. Preso assim da cabeça e dos quadris, ficou tolhido de todo o movimento; mas um tremor convulso percorria-lhe o corpo, e a polpa da narina trepidava com as baforadas do hálito ardente, que se coalhavam na fria temperatura da manhã como frocos de fumaça. 

Em um ápice estava a égua arreada. Eram a cincha, o peitoral e as rédeas, feitos de couro cru, que lá chamam guasca, e depois de seco resiste ao aço. 

— Quem vai, gente? perguntou um da roda. 

Ninguém respondeu. 

— Esfriou-lhes a gana! Exclamou o chileno com riso motejador. 

— Eu cá estava à espera dos senhores para não dizerem que lhes tomava a mão, disse afinal o paraguaio. Visto ninguém querer, vamos nós bailar, rapariga. 

— Nada, o amigo que primeiro apostou, deve ter a dianteira. Não é, senhores? 

— Pois decerto. 

— Então, perguntou o paraguaio dirigindo-se ao chileno: o animal é de quem montar. Está dito? 

— E escrito. 

— Não há mais arrepender? 

— Palavra de um guasca. Arrebenta, mas não arrepende. 

— Bravo! exclamaram em roda. 

Para ter jeito de montar, afrouxou o paraguaio o laço que prendia os quartos do animal ao tronco; e ajustando as rédeas, pôs o pé na soleira do estribo. 

Imediatamente aos olhos dos campeiros atônitos passou uma coisa subitânea, confusa e estrepitosa; uma espécie de turbilhão para o qual só há um termo próprio.  Foi uma erupção. 

Abolara-se a égua, como a serpente quando se enrosca para arremessar o bote. Retraiu-se o flanco sobre os quadris agachados, enquanto a tábua do pescoço arqueou dobrando a cabeça ao peito intumescido. De súbito, esse corpo que se fizera bomba, estourou. Espedaçados, voaram os arreios pelos ares e o paraguaio, arremessado pelos cascos do animal, rolava no chão. 

— Irra! gritou o invernista. 

Viram os campeiros desenvolver-se daquele turbilhão de pó uma forma elegante e nervosa que relanceou por diante deles estupefatos. A égua desaparecera; mas ouvia-se ainda o estrépito cadente do rápido galope. 

 

VI 

A BAIA 

 

Calmo na aparência, mas abalado no ânimo, assistira o brasileiro à cena anterior, encostado à pilastra do alpendre. 

— Que eguazinha, hein, Manuel Canho? disse o dono da pousada aproximando-se. 

Respondeu o rio-grandense com um sorriso, levantando os ombros desdenhosamente.

— Não sabem levá-la. 

Chegava no entanto o chileno, muito contente de si, a galhofar com a roda dos companheiros, entre os quais vinha derreado e coberto de poeira o gabola do paraguaio. Manuel caminhou direito a D. Romero. 

— Tenho dez moedas nesta guaiaca, disse ele erguendo a aba do ponche, quer o senhor recebê-las pela égua? 

— Por dinheiro algum a vendo; mas se tanto a cobiça o amigo, por que não a leva de graça? Basta montá-la, retorquiu o chileno com ironia. 

— Então sustenta a aposta? 

— Está entendido. 

— Mande tocar o animal, Perez, disse o brasileiro voltando-se para o dono da locanda. 

(continua...)

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