Por José de Alencar (1873)
Por outro lado, desde que perseguissem o estudante com severo castigo não era provável que lhe acudissem de românia como protetores, os poderosos inimigos do Instituto? E nas mãos desses, não se tornaria o rapaz perigoso instrumento, de cuja obra ali tinham uma tosca amostra? Estas ponderações, fê-las o Padre Francisco Madeira, o professo que mais voz tinha no capítulo, pelo grande fundo de saber, como pelo tento no manejo das temporalidades. Movido por voto de tanto peso, e também pela voga em que andava o rapazola entre o poviléu, adotou o Padre Antônio Forte, reitor do colégio, o alvitre, e com melhor êxito; pois ninguém aventou a cousa que passou desapercebida.
Ficou o Ivo como queria, vivendo à mangalaça pelas ruas de São Sebastião, e nos arrabaldes, que a pouco e pouco se foram transformando em bairros, e estão agora dentro da cidade.
Tinha naquele tempo a capital um pintor de casas, que se não era o único, passava pelo melhor. A ele, ao Sr. Belmiro Crespo, cabe a honra dos boscagens e frescos que talvez ainda se encontram por aí nalgum teto de sobrado ou retábulo de igreja.
Era artífice de consciência; moía as suas tintas como não faria um moleiro ao trigo; concertava-as na palheta com o brio de uma doceira a anaçar gemas de ovos; e de tento na mão, traçava na madeira, na cal ou no pano, as suas figuras, com escrúpulo de copista e paciência de chim.
O Sr. Belmiro Crespo pintava por molde; e nesse gênero era insigne. Mas fora daí não havia meio de tirar dele, nem sequer uma casa; o abecê da paisagem. Era incapaz de copiar da natureza, ainda com o auxílio do espelho.
O nosso Ivo sentia desde muito uma atração bem natural para a tenda do pintor, e furtava horas ao recreio para as gastar ali, de pé na porta, a ver as grinaldas e passarinhos que o Belmiro transportava dos recortes de papelão para os seus painéis de lona.
Agora, livre do pátio, podia fazer sua assistência na tenda do oficial, e ali com efeito passava o melhor de seu tempo, a ajudar os vários misteres da pintura, no que se foi tornando perito.
O Belmiro, que a princípio o tratava como um pé-rapado, começou a acamaradar-se, logo que lhe descobriu os préstimos; e por fim tão prendado ficou do diacho do rapaz, que o trazia nas palminhas; e muito se rosnou pela vizinhança acerca de um pacto que o pintor havia feito com o diabo, para este lhe servir de aprendiz em paga da alma que lhe vendeu.
Estes cochichos e dizeres vinham de uns segredos que os dois tinham entre si, e das cachas que usavam passando horas e horas trancados, sem dúvida a fazer bruxaria e outras maldades.
Ao mesmo tempo, aparecia grande novidade em São Sebastião. A cansada grinalda e os pássaros com que o Belmiro invariavelmente ornava as paredes e tetos das casas, foram substituídos por festões e flores graciosas, e trechos de boscagens que pareciam copiados das florestas da Carioca e Tijuca.
Dizia o Belmiro, que tardando-lhe os moldes encomendados para Lisboa, cerca de ano, e estando os antigos já muito vistos, ele se propusera a fazer novos, e pedia indulgência para os seus humildes esboços, filhos só da boa-vontade.
VII
O CAIPORA QUE FOI A CAUSA DE TODA A
EMBRULHADA DA EXCOMUNHÃO
Certa manhã, andava o Ivo a pautear com o nariz ao vento pelas margens da Lagoa das Marrecas, espantando os irerês e colhendo flores para as copiar à têmpera, lá na tenda do Belmiro.
Cobria a Lagoa das Marrecas a rechã, onde corre hoje a rua do mesmo nome, até as fraldas dos três Outeiros do Desterro, do Carmo e do Castelo, entre os quais se derramava como acolchoado de um divã, cujo recosto formassem as verdes encostas das colinas.
O caminho da cidade cortava pela frente da Ermida, pequena capela da invocação de N. S. da Ajuda, construída no lugar onde faz esquina agora a Rua da Guarda Velha, que não passava então de um carreiro. Serpejando pela falda do Outeiro do Carmo, na direção que ainda hoje tem a Rua dos Barbonos, seguia pela frente do Hospício dos Barbadinhos, e pouco adiante bifurcava-se.
Uma das voltas, cortando pelas abas do Monte do Desterro, era o caminho chamado de MataCavalos, por onde se saía da cidade para o interior. Contornando a quinta das Mangueiras, situada em um espigão do morro, a outra volta subia para a Carioca, encontrando à esquerda com uma vereda que descia para a banda do Outeiro da Glória.
Estava o Ivo na encruzilhada, quando ouviu uns apitos como de sabiá que salta de ramo em ramo, e antes que pudesse imaginar donde saíam, apareceu-lhe em frente uma menina que vinha pelo caminho da Carioca asoquilipe, ora sobre um, ora sobre outro pé, com os cabelos ao vento, e a saia rocegada por causa do orvalho.
Tinha a travessa menina um rostinho de alfenim, com sobrancelhas de til, e lábios de pincel, como não era capaz de tirá-los sobre o marfim, em laivos de nácar, o mais delicado pintor. Embutia-se aquela figura angélica numa como redoma que lhe formavam as ondas bastas dos cabelos cendrados a borbulharem em cachos dos bordos de uma pequena coifa de seda escarlate.
Esbarrando com o Ivo, soltou a menina um grito de susto, e fazendo sem querer uma pirueta que meteria inveja a um dançarino famoso, desandou a correr pelo caminho em que vinha. — Que foi, Marta? perguntou uma voz de mulher.
— Senhora mãe, um caipora!
— Ave, Maria! Minha mãe de Deus!...
— Ai, que susto! murmurava a menina estremecendo ainda como uma rola.
— Como há de ser, Sr. Sebastião Freire? Eu aí não passo, nem que me arrastem. Então na encruzilhada!...
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.