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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

CARLOTINHA - Mas olha!... Não!

PEDRO (tomando) - Hi!... Sr. Alfredo vai comer esta violeta de beijo só, quando souber que esteve no seio de nhanhã!

CARLOTINHA - Dá-me! Não quero!


CENA VI

CARLOTINHA, EDUARDO


CARLOTINHA - Meu Deus! Ah! Mano!

EDUARDO - Já soube tudo, uma malignidade de Pedro. É a conseqüência de abrigarmos em nosso seio esses reptis venenosos, que quando menos esperamos nos mordem no coração! Mas, enfim, ainda se pode reparar. Escreveste a Henriqueta?

CARLOTINHA - Sim; a resposta não deve tardar!

EDUARDO - Tu és um anjo, Carlotinha!

CARLOTINHA - Como se engana, mano!

EDUARDO - Que queres dizer?

CARLOTINHA - Nada! Eu devia lhe contar! Mas...

EDUARDO - Tens alguma coisa a dizer-me? Por que não falas?

CARLOTINHA - Tenho medo!

EDUARDO - De teu irmão! Não tens razão!

CARLOTINHA - Mesmo por ser meu irmão, não gostará...

EDUARDO - Mais um motivo. Um irmão, Carlotinha, é para sua irmã menos do que uma mãe, porém mais do que um pai; tem menos ternura do que uma, e inspira menos respeito do que o outro. Quando Deus o colocou na família a par dessas almas puras e inocentes como a tua, deu-lhe uma missão bem delicada; ordenou-lhe que moderasse para sua irmã a excessiva austeridade de seu pai e a ternura muitas vezes exagerada de sua mãe; ele é homem e moço, conhece o mundo, porém também compreende o coração de uma menina, que é sempre um mito para os velhos já esquecidos de sua mocidade. Portanto, a quem melhor podes contar um segredo do que a mim?

CARLOTINHA - É verdade, suas palavras me decidem. Você é meu irmão, e o chefe da nossa família, desde que perdemos nosso pai. Devo dizer-lhe tudo; tem o direito de repreender-me!

EDUARDO - Cometeste alguma falta?

CARLOTINHA - Creio que sim. Uma falta bem grave!

EDUARDO - Minha irmã... Acaso terás esquecido!...

CARLOTINHA - Oh! Se toma esse ar severo, não terei ânimo de dizer-lhe!

EDUARDO (com esforço) - Estou calmo, mana, não vês? Fala!

CARLOTINHA - Sim ! Sim! É que me custa a dizer!... Não faz idéia!

EDUARDO - Vamos! Coragem!

CARLOTINHA - Conhece um moço, que às vezes lhe vem procurar... chama-se Alfredo!...

EDUARDO - Que tem!...

CARLOTINHA - Pois esse moço... ama-me, e...

EDUARDO - E que fizeste?

CARLOTINHA (atirando-se ao peito de EDUARDO) - Mandei-lhe uma flor!... Mas uma só!

EDUARDO - Ah! Assim é esta a falta que cometeste? A primeira e a única!

CARLOTINHA - Não!... Devo dizer-lhe tudo! Li esta carta. Tome, ela queima-me o seio.

EDUARDO (lendo) - Quem te entregou?

CARLOTINHA - Pedro deitou no meu bolso sem que o percebesse.

EDUARDO - Oh! Eu adivinhava! E respondeste?

CARLOTINHA - Pois a violeta foi a resposta! Não queria dar. Mas lembrei-me que assim como Henriqueta lhe amava, também eu podia amá-lo!...

EDUARDO - Tens razão, minha irmã. Cometeste uma falta, mas te arrependeste a tempo. Não te envergonhes disto; és moça e inexperiente, a culpa foi minha, e minha só.

CARLOTINHA - Sua, mano! Como?

EDUARDO - Eu te digo: acabas de dar-me uma prova do teu discernimento; o que vou dizer-te será uma lição. Os moços, ainda os mais tímidos como eu, minha irmã, sentem quando entram na vida uma necessidade de gozar desses amores que duram alguns dias e que passam deixando o desgosto n'alma! Eu fui fascinado pela mesma miragem; depois quis esquecer Henriqueta e procurei nos olhares e nos sorrisos das mulheres um bálsamo para o que eu sofria. Ilusão! O amor vivia, e nas minhas extravagâncias o que eu esquecia é que tinha uma irmã inocente confiada à minha guarda. Imprudente eu abrigava no seio de minha família, no meu lar doméstico, a testemunha e o mensageiro de minhas loucuras: alimentava o verme que podia crestar a flor de tua alma. Sim, minha irmã! Tu cometeste uma falta; eu cometi um crime!

CARLOTINHA - Não se acuse, mano; é severo demais para uma coisa que ordinariamente fazem os moços na sua idade!

EDUARDO - Porque não refletem!... Se eles conhecessem o fel que encobrem essas rosas do prazer deixá-las-iam murchar, sem sentir-lhes o perfume! Há certos objetos tão sagrados que não se devem manchar nem mesmo com a sombra de um mau exemplo! A reputação de uma moça é um deles. O homem que tem uma família está obrigado a respeitar em todas as mulheres a inocência de sua irmã, a honra de sua esposa e a virtude de sua mãe. Ninguém deve dar direito a que suas ações justifiquem uma suspeita ou uma calúnia.

CARLOTINHA - Está bom, não vá agora ficar triste e pensativo por isso. Já lhe disse tudo, já lhe dei a carta; prometo-lhe não pensar mais nele. Duvida de mim?

EDUARDO - Não. Agradeço a tua confiança e acredita que saberei usar dela. Já volto.

CARLOTINHA - Que vai fazer?

EDUARDO - Escrever uma carta; ou antes, responder à que recebeste.

CARLOTINHA - Como, Eduardo!

EDUARDO - Logo saberás.

CARLOTINHA - Mas não se zangue com ele; sim?

EDUARDO - Tranqüiliza-te; ele te interessa, é um título para que eu o respeite.


CENA VII

CARLOTINHA, HENRIQUETA


HENRIQUETA (fora) - Carlotinha!...

CARLOTINHA - Henriqueta! - Ah! Eu te esperava! 

HENRIQUETA - E tinhas razão... Mas antes de tudo... É verdade?... O que me escreveste?

(continua...)

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