Por José de Alencar (1864)
—Que lembrança! —Depois... Quem sabe?... Talvez me resolva a dançar. Se me pedirem muito!...
Emília sorria dizendo essas palavras, e eu senti a luz de seus olhos ferir-me a vista.
Meus espíritos alvoroçados serenaram como por eneanto. Reconheci-me o homem que fui e sou; frio e sempre calmo, durante o sono profundo e longo do coração, o qual até agora felizmente só teve uma, mas bem cruel vigília.
Compreendi tudo; compreendi o olhar, o sorriso e o diálogo.
Emília me provocava diretamente para lhe pedir aquela terceira contradança reservada; queria me ver suplicante a seus pés, e vil, apesar da primeira humilhação. Então, quando sua vaidade estivesse saciada, me insultaria de novo do alto de seu orgulho, flagelando-me as faces com um daqueles seus olhares de soberano desprezo.
Minto: eu não tinha compreendido nada. Ainda hoje, depois de tudo quanto sofri, sei eu compreender semelhante mulher? Desde que entrevi a perfídia da provocação, cobrei a calma. Também tive o meu sorriso desdenhoso e o meu gesto de indiferença.
Pedi a D. Matilde justamente a terceira contradança, e ela ma concedeu, apesar de já a ter prometido: —Farei uma troca! disse-me. Dançarei a quinta com Dr. Chaves.
Minha intenção foi convencer logo a Emília que ela se iludia.
Desejava que não pairasse no seu espirito a mínima esperança de que eu me deixasse imolar ao seu orgulho. Ela bem me entendeu.
Seu dente mimoso, mordendo o lábio, anunciou-me a sua cólera e a minha punição. Esta não tardou muito.
Tinha-me eu retirado do salão, e estivera conversando numa das salas próximas. Dando a música sinal de que o baile ia começar, lembrei-me que Julinha me prometera na véspera a primeira quadrilha e fui-me aproximando.
Creio que viste o antigo Cassino, de feia arquitetura e pobre decoração, porém mais festejado que o moderno, apesar de sua riqueza. Hás de te lembrar das colunas que ali havia. Eu me apoiara a uma delas, esperando que se formassem as quadrilhas.
A fímbria de um vestido roçou por mim. Emília passava pelo braço de uma de suas amigas; passava altiva, desdenhosa, meneando com gestos soberanos a linda cabeça coroada pelas tranças bastas do ondeado cabelo. Fiquei imóvel entre ela e a coluna, acompanhando com a vista, sem querer, o garboso desenvolvimento daquele passo de sílfide.
De repente ela descaiu o corpo no movimento que fazem as senhoras quando sentem presa a cauda do vestido. Com essa inclinação as ondas da escumilha me envolveram os pés. Ouvi o rechino de lençarias que se rasgassem com violência. Empalideci!... Os folhos do elegante vestido, composto com tanto esmero, rojavam espedaçados pelo chão.
Emília retraiu o passo, e abateu uns olhos frios para o estrago do trajo mimoso, que tantos elogios e maior inveja exeitara. Depois esbeltou-se para dardejar-me sobranceira outro olhar, mais frio ainda que me traspassou.
—Nem de propósito!...
Ah! Paulo, se tu ouviras a voz com que me foram ditas estas palavras! O ferro boto não penetra, serrando as carnes, com dor mais intensa, do que deixavam essas palavras rasgando-me os seios d'alma! Ainda me adiantei exclamando:
—É uma injustiça, minha senhora!...
Por toda resposta, ela curvou-se para colher as orlas espedaçadas do vestido; arrancando uns fragmentos que arrastavam ainda, atirou-os de si; eles vieram cair a meus pés, e eu apanhei-os estupidamente. Duvidei de mim um momento. Teria eu insensivelmente pisado a fímbria da saia? Mas como, se ficara imóvel, e nem sequer me voltara? Junto de mim não estava outra pessoa; era pois ela própria quem, para não roçar-me passando, rasgara sem querer o seu vestido, e se aproveitara do incidente para mortificarme.
Podia eu imaginar que ela tivesse por acinte a mim sacrificado deliberadamente sua elegância e os triunfos que lhe prometia o baile, cousas que só ao entusiasmo da primeira paixão sacrificam raras mulheres, as heroínas do amor? Tocava a contradança: dei o braço a Julinha. Como já me aborrecia esse baile antes de começar! Não via Emília; procurava-a nas quadrilhas já formadas, quando ela surgiu diante de nós, envolta em sua ampla mantilha cor de cinza, que lhe ocultava todo o corpo p cingia com uma das pontas o colo e parte da cabeça. Estendeu a mão à prima:
—Adeus! —Que é isso, Mila? —Vou-me embora. Não vê? —Ainda o baile nem começou! —Acha você que estou muito decente? disse abrindo a manta e mostrando a escumilha esgarçada sobre o forro de cetim.
—Que foi isto? Quem lhe pôs nesse estado? —Quem?... Um pé!...
Já viste alguma vez, Paulo, amesquinhar assim um homem e esmagá-lo com uma palavra? Emília atribuía a mim o que lhe acontecera; e não achava para designar-me, nem o meu nome, nem mesmo a minha qualidade de criatura humana. Era uma cousa, uma parte desprezível do corpo, um pé! Não sei o que na minha indignação ia responder-lhe, se ela me desse tempo, e não se afastasse rápida.
—,Mas isto conserta-se! disse Julinha seguindo-a. Venha cá! —Não vale a pena. Adeus.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.