Por José de Alencar (1873)
Esta visita fez-me mal. Sou injusto. Luíza me ama; não teme o contágio, ou se o teme, seu amor por mim é mais forte. Quis abraçar-me!... Fui eu que a repeli!... a ela, o único ente que não me foge!
Amo-o eu mais do que a ti, mãe, para ter essa coragem?...
Não! É que tu me pertencias, como eu a ti. É que nos tínhamos dado um ao outro, naturalmente, sem esforço, sem sacrifício. É que eu vivia nos teus braços, como tinha vivido nas tuas entranhas, ligado pelo mesmo elo, o teu amor.
Luíza veio para comunicar-me a sua resolução, dela e de seu marido. Não quer a parte que lhe cabe da nossa pequena herança; deixa-me tudo, porque necessito mais, e não posso trabalhar.
Recusei e não lhe agradeci.
Como rala essa compaixão! Tem-me por um homem inútil, incapaz de ganhar o sustento para o corpo. Por fim ela pensa bem. Quem aceitará a obra tocada por minhas mãos, e impregnada do meu suor?
12 DE MARÇO
Passei toda a manhã a ensinar a Maria as orações que aprendi em teu colo. Não as compreende, nem sabe repeti-las comigo! Que sono profundo dorme essa alma! Nada a perturba. O corpo ali move-se pelo instinto, ou talvez pelo hábito...
Contudo é uma criatura humana. Ouve... E eu sinto um prazer inconcebível em falar a alguém!...
16 DE MARÇO
Esses dias tenho levado a escrever o meu livro.
Dei-lhe um título bem mesquinho para os outros, que não lhe sabem a significação; mas bem gentil e, sobretudo, bem verdadeiro para mim.
Chamei-o: Livro das Histórias que me Contou Minha Mãe.
Tenho delas acabada a primeira. É a história de D. Maria de Sousa. Também ela foi mãe e sofreu por seus filhos; também ela foi grande pelo heroísmo, e forte pela constância.
Mas como tu que vinte anos acompanhaste a tortura incessante daquele que geraste para tua pena, sem nunca soltar uma queixa; como tu, não quero que tenha existido ou possa existir outra mãe.
Pesa-me que não estejas aqui ouvindo-me para ler-te o meu livro! Acho-o melhor do que nunca esperei de mim. Acho-o bonito. Tem alguma cousa daquela singeleza dos teus contos.
Mas que estou eu dizendo?... Tu me ouves! Tu leste no meu espírito, muito antes que as palavras se formassem, e que a pena as lançasse no papel!
17 DE MARÇO
Estive a refletir num projeto. É talvez uma loucura. E o que são todos os projetos do homem, miserável criatura, de quem zomba o tempo e a fortuna?
Lembrei-me de dar à estampa o meu livro.
Talvez naqueles que o lessem, excitasse eu alguma simpatia. Não me conhecendo nem sabendo o meu nome, a repugnância que inspiro não mataria o interesse pelo autor obscuro e ignorado.
Tenho tanta sede de afeição, depois que a tua me deixou vazio o coração!... Sentir-me querido, ainda, mesmo de longe, e envolto no mistério, seria uma suprema ventura!
Demais, quem sabe?... Salvaria deste martírio estéril e desta vida inútil alguma cousa.
Um nome, que fosse!
O nome é segunda vida. É a vida do futuro.
Não lhe chamam glória?...
18 DE MARÇO
Maria voltou da feira sem as compras do dia.
Perguntei-lhe a causa.
Achou palavras para me dizer. Os regatões recusam receber o dinheiro que passou por minhas mãos!
Meu Deus!... Dai-me força para sofrer com resignação! Preciso dela! Sinto a razão vacilar. Por vezes já mordi nos lábios a blasfêmia que ia escapar-me.
Têm nojo do meu dinheiro! Se o tivesse roubado, o aceitariam: mas toquei-o, e o rei, que o manda correr, não protege um lázaro.
Felizmente Maria teve fome.
O instinto serviu-lhe de inteligência. Engenhou meio de comprar o necessário. Deu ao andador da Irmandade do Sacramento uma moeda de esmola.
O troco, os regatões não duvidaram recebê-lo.
19 DE MARÇO
Sai hoje pela primeira vez.
A noticia de minha enfermidade divulgou-se de um modo espantoso. Quando passava, apontavam-me de longe. Murmuravam meu nome. Paravam para olhar-me. Admiravam-se talvez de ver-me ainda feições humanas.
Realmente um lázaro não é mais um homem. Foi concebido pela mulher, mas a praga o abortou. No terror que infunde é fera; no asco que excita e verme.
Oh! não... Há um fio que ainda me prende a humanidade. É a compaixão brutal e escarninha do mundo. Mata-se a fera; esmaga-se o verme. Mas não me tiram a mim esse tênue sopro que anima um resquício de vida.
Seria um assassinato! Seria um crime! E há nada mais infame do que um crime inútil?...
Quando me lembro que tantos homens gastam sua existência numa luta incessante para haver uma sombra, que chamam fama, rio-me deles e de mim.
(continua...)
ALENCAR, José de. A alma do Lázaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7545 . Acesso em: 8 jan. 2026.