Por José de Alencar (1873)
A brisa fresca e cortante que vinha do largo impregnada das úmidas exalações das ondas batia-me em cheio no rosto. Banhava-me, como a veia de um rio. Aspirei as emanações salitrosas do oceano. A volúpia que eu sentia nesse respirar do ar livre, não sei se a gozarão outros colhendo beijos na boca vzrgem de sua noiva.
O vento!... Oh! ninguém sabe que delícias me trazem os seus acres perfumes! Que sedas e cambraias são as refegas dele para o corpo devorado da febre, quando o sangue escalda nas veias!
O vento!... É o túmulo que eu terei um dia. Quando morrer, ninguém se animará a tocar no meu corpo para dá-lo à terra. Hão de queimá-lo, porque não infeccione o ar. E as minhas cinzas então, soltas ao vento, voarão com ele sobre esse vasto e imenso oceano.
A maré começava a encher. As ondinhas debruçando-se umas pelas outras, todas frocadas de espumas, brincavam como um bando de cordeirinhos que retouça sobre a relva ao pôr do sol. Algumas espreguiçando-se pelas areias vinham lamber-me os pés e quase os tocavam.
Não sei que ilusão me alheara o es pinto. De as contemplar, de as admirar, a essas ondinhas travessas, foi-me parecendo que tinham alma, para sentir. E, de repente, ao ver que se chegavam para mim e me festejavam, enterneci-me e chorei.
Chorei, sim!... Tão órfão estou eu de afeições, que as procuro até na matéria inerte!... Tão acostumado ando a me fugirem, que já me surpreende ver um objeto ainda inanimado aproximar-se de mim, obedecendo à sua lei física.
Rompeu-me esse enleio d'alma uma voz doce e melodiosa. Soltava ela aos sopros da viração as frases singelas de uma canção.
Ergui a cabeça. A alguns passos se elevava uma pequena casa. Dela entrava pelo mar um terrado coberto de arvoredo. O vulto de uma menina, vestida de branco, se destacava na borda do jardim, onde quebravam as ondas.
Era dela a voz.
Pude distinguir ao luzir das estrelas os seus movimentos. Tinha as duas mãozinhas cruzadas sobre o peito; os olhos no céu. Rezava: eram cantos as suas rezas.
Não retive da letra mais do que esta invocação - Ave-Maria! Mas achei o verso tão simples e o ritmo tão suave, que me parece o tenho ainda no coração. Foram-se as palavras e os tons, só ficou o sentimento.
Assim, de uma flor que se desfolha, ficam no espaço ondas de perfume. Mal que terminou a sua melodiosa oração a menina voltou a casa, correndo e saltando por entre as moitas do jardim.
Também eu voltei. As ondas me expulsaram de seu leito.
22 DE MARÇO
Decorei finalmente as endeixas que tamanha impressão me fizeram, da primeira vez que as ouvi, pela sua singeleza
A menina canta-as todas as noites, ao nascer da estrela d'alva. É uma Ave-Maria graciosa e pura; inspirou-a o amor filial santificado pela religião.
Tornei a ouvi-la ontem, e hoje ainda ouço o eco a murmurejar-me dentro d'alma.
Quero escrevê-la.
Os homens ricos de prazeres e afeições, desfloram apenas as suas alegrias; quando o quisessem, não teriam tempo de estancar-lhes a última gota de essência.
Fazem como as crianças que babujam e provam de todos os frutos, e de nenhum se fartam.
Esses pródigos de sua alma não compreendem decerto a usura dos pobres e deserdados, como eu, quando Deus lhes depara no deserto da vida com um óbolo de prazer.
Avaro de sua migalha, que lhe é tesouro, não se cansa de a gozar; vive nela, sonha dela. Quer senti-la por todos os modos e a todos os instantes.
Assim fui eu com aqueles versos, que muitos acharão mesquinhos; mas, ou fosse pela voz harmoniosa que os dissera, ou pelo desvelo e saudade que respiravam, ou pela cadência suave do ritmo; me infundiram não sei que doce melancolia.
É outra Cousa que os felizes não compreendem. Como a melancolia é supremo júbilo para as almas imersas num continuado descrer e numa acerba tristeza.
Mas a canção... Não me saciei de a escutar, de a recordar, de a repetir às vagas que rumorejavam na praia. Quero senti-la pelos olhos. Já a ouvi tantas vezes, ainda não a vi.
Esquecer-me-ia?...
Não! - lembro-me...
Ave, Maria! Ave, estrela, Formosa estrela do mar!
Dá-me novas de meu pai, Que se foi a navegar.
Por esses mares dalém Vai seu brigue a bolinar.
- Leme á orça! Molha a vela!
E deixa o vento soprar.
A borrasca o não assusta:
Não se teme de afrontar;
Mas eu que temo por ela Vivo somente a rezar.
Fio de ti, minha estrela,
Que o protejas sem cessar. Faz que bem cedo ele possa A minha mie abraçar.
Dá-lhe tempo de bonança,
Mares de leite a surcar;
Vento á feição, quanto baste Para depressa chegar.
Ave, Maria! Ave, estrela, Formosa estrela do mar! Cheia de graça tu brilhas A quem te sabe adorar.
Onde aprendeu aquela menina esta oração?... Quem lha ensinou? Por que a diz ela todas as noites?
23 DE MARÇO
Cuidava que não podia haver maior isolamento do que o meu. Iludi-me. Agora é que o isolamento começa.
Luíza parte; seu marido deixa Pernambuco: vai-se a Lisboa.
E a causa sou dessa mudança. O que ainda me restava de família abandona a pátria, para quebrar os laços de sangue que nos prendem. E justo: é generoso também. Deixem-me, a mim só, o desprezo que inspiro. Não o quero partilhar. Basta eu para sofre-lo.
Oh! ainda me resta o orgulho da miséria. E uma dignidade como tantas outras, e um egoísmo, como os há poucos.
Minha irmã negou tudo. Deu-se a tratos para convencer-me que os interesses de seu marido eram a causa única dessa partida.
Pobre Luíza! Mentia.
(continua...)
ALENCAR, José de. A alma do Lázaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7545 . Acesso em: 8 jan. 2026.