Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Corina É portanto uma desgraça ser tesouro precioso. Pereg. Deixa transpirar uma queixa bem fundada: o seu viver assim é triste, já o disse a meu pai; ele porém julga um dever não expô-la às seduções e aos laços de infames exploradores da inocência e da confiança cega das donzelas ricas.

Corina Reconheço a bondade e os cuidados do meu tutor; nem me lastimo... distraio-me tanto neste meu enclausuramento... nunca estou só... tenho o piano, o estojo do desenho... a lã e a seda com que bordo. Sou tão feliz... (vai tocar)

Pereg.

Não: a influência desses vis exploradores é fatal, porque é um perigo para a moça rica, e desanima o amor leal e honesto que teme ser confundido com as fingidas e interesseiras afeições: não pensa como eu?...

Corina Desculpe-me: ocupada com a música, fui incivil ao ponto de não ouvir o que me dizia. Não tocarei mais. (deixa o piano e vai sentar-se à mesa)

Peregr.

Eu maldizia àqueles que simulam amor, adorando só a riqueza, e maldigo pelo que sinto: maldigo porque me tenho condenado a fechar até hoje no coração o mais puro amor pelo receio de uma suspeita que ofenderia a delicadeza dos meus sentimentos.

Corina Ah! agora ouvi mas ainda arriscando-me a parecer-lhe néscia... confesso que não entendo. (desenha)

Pereg.

Quer que eu fale bem claro?... Eu amo e me contenho à força: a donzela que amo é rica e mil ambiciosos a desejam sem ao menos tê-la visto, a querem por esposa sem a conhecerem... e eu que a vejo todos os dias... que aprecio o valor da sua virtude... que me sinto cativo dos seus encantos... ver que me julgo capaz de faze-la feliz... ainda não ousei, e, apenas agora, deixo escapar a primeira e incompleta confissão do amor mais ardente e santo!

Corina Quem é que diz... ora... o desenho é como o piano... eu estava distraída... não ouvi: perdoe-me.

Pereg.

D. Corina... eu lho peço... esqueça o piano e o desenho... não me confunda com distrações que se me afiguram desprezos cruéis...

Corina (levantando-se) Oh, não!... Eu não desprezo pessoa alguma, ainda menos o filho do meu tutor; mas em verdade não sei o que me dizia...

Pereg.

Agora pois não toca, nem desenha: ouvir-me-á, eu a espero: estamos sós... o momento é oportuno... receba a declaração sincera do segredo mais terno...

Corina Espere: o senhor disse que o momento é oportuno, porque estamos sós; portanto se seu pai e sua madrasta estivessem presentes, não diria o que pretende...

Pereg.

Oh! É a confissão de um sentimento irresistível cheio de celeste fogo, que só à senhora devo revelar!

Corina É pena; mas seu pai me proibiu confidências desta natureza: decididamente só na presença dele e de sua madrasta é que poderei ouvi-lo.

Pereg.

Ah! D. Corina!... quer dizer que me autoriza...

Corina Não... autorizar não; eu não posso autorizar o que não compreendo... toquei piano e desenhei enquanto o sr. falava... e não entendi coisa alguma...

Pereg.

Mas depois não tocou, nem desenhou, e eu falei com tanta clareza, que somente não rasguei o véu do respeito.

Corina Então é que eu sou tão tola que nem compreendo as coisas mais claras e simples...

Pereg.

Oh, pois que se finge ignorar, não deve negar-se a ouvir a explicação mais completa...

Corina A sós, como estamos? Deus me livre: seu pai mo proibiu...

Pereg.

D. Corina!...

Corina Ah! Sinto os passos da tia Suzana: na presença dela sim, o senhor pode explicar-me tudo...

Pereg.

Não... agora não... tenho pressa... peço-lhe até por favor, que não refira a tia Suzana o que eu lhe dizia... (saindo)

Corina

Ainda que eu quisesse, não poderia fazê-lo: pode crer que não entendi nada. (seguindo-o dois passos. Vai a Pereg.)

Cena 8ª

Corina e Suzana

Suzana Que foi que não entendeste, menina?

Corina O que sou obrigada a ouvir e a entender todos os dias.

Suzana Então finges e simulas; mas no fingimento há malícia: a candura é que é agradável ao Senhor. (senta-se)

Corina Guardo a franqueza só para a confiança: vivo nesta casa há um ano e ainda não fui fingida com a tia Suzana.

Suzana Creio-te Corina; mas na tua idade que é a das expansões!...

Corina Expansões?... Tive-as, enquanto meu pai viveu; aos dez anos porém, pobre órfã, presa no colégio, o que logo me ensinaram, foi a desconfiar de todos: falavam-me de minha riqueza e de mil perigos que me cercaram: por ordem de meu tutor acompanhava-me sempre uma espionagem suspeitosa e ainda mais nociva por ser mais de ostentação do que de vigilante cuidado: fizeram-me adivinhar o mal e ter medo do mundo...

Suzana Não exageras?...

Corina Afetaram disputar-me o ar, a liberdade, os vôos de menina nas horas de recreio: menina, fui passarinho com as asas cortadas, vendo o espaço e sem poder voar, pareciam vigiar-me de dia e de noite com apreensões sinistras: tudo isso me aterrorizava, mas também me fazia crer que me achava defendida e livre de qualquer traição: todavia um dos meus professores teve tempo para tentar seduzir-me, e uma das alunas do colégio atormentar-me com o amor de um seu irmão que se propunha a raptar-me.

Suzana Que horror!... Coitadinha...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →