Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
AUGUSTO – Oh, minha senhora! vossa excelência me transporta com esta distinção.
CENA X
BRAZ, CLEMÊNCIA e LEOPOLDO
BRAZ – A madrinha cometeu dois estelionatos; um contra mim, roubando-me o seu braço, outro contra dª. Clemência, roubando-lhe o dr. Augusto.
CLEMÊNCIA – Está vendo que não posso queixar-me; minha tia somente me poupou a um embaraço de cortesia; o sr. Leopoldo vai ter a bondade de mostrar-me o viveiro de plantas de mr. Graziaux.
LEOPOLDO – Abençoada seja a minha fortuna! ( Vão-se os dois)
BRAZ – Também eu abençôo a minha fortuna, que me traz dali o meu amigo Polidoro.
CENA XI
BRAZ e POLIDORO
POLIDORO – “Ela vai-se! e com ela vai minha alma!” amigo... (Saúda) que contraste!
BRAZ – Entre ela que vai-se e eu que fiquei?
POLIDORO – Não; eu me explico: tenho na vida duas paixões, a do amor platônico e a do lasquenet; no lasquenet, quando paro mais forte, é sempre nas damas; no passeio, no baile, cortejo por devoção a todas as senhoras.
BRAZ – Mas dª. Clemência...
POLIDORO – A essa amo, adoro; porém não me interrompa; nunca pensei que houvesse dama que me fizesse recuar de medo, e hoje... aqui mesmo... ind’á pouco...
misericórdia! sabe quem é a velha que vai pelo braço do sr. Augusto?.
BRAZ – É dama de ouros.
POLIDORO – Como dama de ouros?
BRAZ – Irmã de Casimiro, minha preclara madrinha, feliz celibatária, a quem um tio legou há quatro meses a insignificante fortuna de quinhentos contos de réis.
POLIDORO – Olá!... então dª. Clemência, como sobrinha, está em perspectiva de riqueza? bem o merece: é tão bela!
BRAZ – Qual! a velha é um verdadeiro tipo de avareza, complicada com a mania do casamento. Apesar de afilhado, acho-a medonha; mas meio milhão é dinheiro e já me apresentei candidato.
POLIDORO – E casa-se com ela?
BRAZ – Quem me dera! a velha imagina impedimentos por ser minha madrinha, e, tomando-me por agente e procurador de seus cabedais, rejeita-me como noivo. Há dois meses que me ferve o sangue por isso!
POLIDORO – É uma dama de página muito feia e verso muito bonito!
quinhentos contos de réis... ah! eu já possuí cerca de cem, e em três anos perdi-os todos com as damas do baralho, e de fora do baralho; mas então eu não sabia os segredos do lasquenet! ah, meu Braz! com meio milhão e bons parceiros, em um ano pode-se ganhar nem sei quantos milhões! a sua madrinha, não digo que seja horrível... digo... na verdade, aqui para nós, não é bonita; é, porém, sublime.
BRAZ – E... “Ela vai-se: e com ela vai minha alma!”
POLIDORO – Mas o senhor, que é o procurador, o fac-totum da... velha, tem as mãos sobre os quinhentos contos de réis...
BRAZ – Martírio de Tântalo! se eu não fosse afilhado! oh! antes não me tivessem batizado.
POLIDORO – E todavia o senhor não joga; não compreende as emoções do lasquenet!
BRAZ – E que vem isto ao caso?
POLIDORO – É o caso de cem sortes a dobrar! eu amo doidamente a encantadora dª. Clemência... mas...
BRAZ – É coisa sabida: conta-se com o casamento...
POLIDORO – Sr. Braz... a que horas pode ser procurado amanhã para negócio importante?... os amigos devem entender-se.
BRAZ – No meu escritório até às três horas da tarde.
POLIDORO – Quinhentos contos de réis... deveras?
BRAZ – Palavra de honra: quinhentos contos de réis e mais alguns quebrados que não chegam a um.
POLIDORO – Que idade tem a respeitável senhora?
BRAZ – Está quase a completar os sessenta e três.
POLIDORO – Não é absolutamente velha; pareceu-me que roçava pelos cinqüenta; sem a touca e sem os óculos há de ganhar muito...
BRAZ – A mim se me afigura um anjo ainda mesmo de touca e óculos.
POLIDORO – Anjo de salvação é... sr. Braz, amanhã ao meio-dia em ponto irei ao seu encontro.
BRAZ – Chiton.
CENA XII
BRAZ, POLIDORO, CASIMIRO e PORFÍRIO
CASIMIRO (A Porfírio) – Vês? também aqui não está; seguiu a Acrobata, positivamente é um rapaz de costumes pervertidos...
PORFÍRIO (A Casimiro) – Deixa-o aproveitar o seu tempo.
CASIMIRO (A Porfírio) – Mas por que diabo há de logo aproveitá-lo com a Acrobata?
BRAZ – Vejo que te aborrece o passeio: vens com fisionomia de logrado, a quem furtaram o relógio.
CASIMIRO – É isso pouco mais ou menos, mas onde estão as senhoras?... o tempo está se enfarruscando de repente.
BRAZ – Aí chega a primeira.
CENA XIII
BRAZ, POLIDORO, CASIMIRO, PORFÍRIO, CLEMÊNCIA e LEOPOLDO
(Escurece rapidamente: começa a retirar-se a gente que concorrera ao Passeio)
CLEMÊNCIA – A titia? que é dela?...
BRAZ – Ainda não voltou; o dr. Augusto lhe está explicando as reformas do
Fialho.
CASIMIRO – E o tempo vai a pior: temos aguaceiro certo.
CLEMÊNCIA – O povo começa a retirar-se: ainda bem que o nosso carro está à porta do jardim.
BRAZ – Eis a madrinha...e como vem alegre...
CENA XIV
BRAZ, POLIDORO, CASIMIRO, PORFÍRIO, CLEMÊNCIA, LEOPOLDO,
VIOLANTE e AUGUSTO
VIOLANTE (Chegando-se a Clemência e cheirando o ramalhete de violetas) – Como é suave o perfume das violetas! gostas dele Clemência?
BRAZ (A Clemência) – Que ingratidão! derrota número primeira.
CLEMÊNCIA (A Braz contrariada) – Como? não ouvi: ah! sim... mas a chuva...
(Rompe a chover; Leopoldo, Augusto e Polidoro abrem os guarda-chuvas e correm a Violante)
LEOPOLDO – Minha senhora!
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.