Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
BRÁULIO – Eu, por exemplo. Sejamos francos: v. s. tem tudo a ganhar e eu muito a arriscar. É certo que já recebi seiscentos mil réis, e que outro tanto me está garantido e sem dúvida receberei logo que se realizar a hipótese.
FÁBIO – Foi o que ajustamos, e nem eu fiz questão da quantia...
BRÁULIO – É verdade: tenho, porém, calculado que Dionísia vale mais.
Dionísia é a minha sereia.
FÁBIO – E voltará ao seu mar, quando ela o quiser.
BRÁULIO – Sr. Fábio; jogo franco e cartas sobre a mesa: eu vou sofrer na reputação da casa... haverá baixa no barato; além disso, o coração da gente é de carne... hei de por força sentir saudades; e, enfim, quem me assegura que Dionísia não se tomará de paixão pelo novo amante?... em caso de dúvida não arrisco por tão pouco a fazenda.
FÁBIO – Como?... e a sua palavra?...
BRÁULIO – Mais um conto de réis e negócio feito. É evidente que preciso de justas compensações.
FÁBIO – É evidente que na hora suprema o senhor põe-me uma faca aos peitos: isto é escandalosamente imoral!.
BRÁULIO – Convenho: não me diz nada de novo; ambos nós porém rolamos juntos na imoralidade, razão maior para jogo limpo e cartas sobre a mesa.
FÁBIO – É uma extorsão!.
BRÁULIO – Meu senhor, não se comem trutas a bragas enxutas; além disso, eu não o obrigo a dar-me o dinheiro que peço; pelo contrário, estou pronto a restituir a quantia que já recebi e rompemos a negociação.
FÁBIO – Mas a sua palavra?... a sua palavra?...
BRÁULIO – Ora, sr. Fábio! pois um homem que se presta a entrar em negócio desta ordem pode ter escrúpulo de faltar ao ajustado?...
FÁBIO – Que franqueza repugnante!
BRÁULIO – Perdão... neste assunto nenhum de nós injuriaria o outro sem injuriar-se... e note bem: eu quero lucrar sem intenção de fazer mal, e V. S. paga para atingir a fins sinistros...
FÁBIO – Sr. Bráulio!... (Aplausos dentro.)
BRÁULIO – Faz-lhe conta o que propus? é resolver até amanhã.
VOZES (Dentro.) – À cena! à cena!...
FÁBIO – Repito... é uma extorsão... e há de arrepender-se da sua má
fé...(Aplausos dentro.)
CENA III
FÁBIO, BRÁULIO e CINCINATO
BRÁULIO – Que é isto?... Vem o teatro abaixo?... (Aplausos.)
CINCINATO – Não vem abaixo, porque é Provisório, se fosse permanente já tinha caído: o Brasil é o Império das inconseqüências; prova: a permanência do Provisório na Praça da Aclamação.
BRÁULIO – Mas que trunfo é esse?
CINCINATO – Apoteose das pernas postiças de duas dançarinas do Alcazar; é de direito: o can-can saiu extraordinariamente da Rua da Vala para aristocratizar-se no campo, e o respeitável quebra as mãos, aplaudindo os pontapés atirados à lua por dois cometas velocípedes do sexo feminino que vão rir pelos calcanhares de tanto entusiasmo por pernas que não são delas.
BRÁULIO – E o senhor fugiu à apoteose?
CINCINATO – Arrepios de inocência e confusões de pudor... as duas ninfas começavam a acalcanhar-me o coração e tive medo de apaixonar-me pelos seus dedos mindinhos.
BRÁULIO – Medo de se apaixonar pelos dedos?
CINCINATO – Sim; mas o medo não era realmente dos dedos... era das unhas.
BRÁULIO – Pois eu vou pedir mais completa informação da apoteose... até logo.
FÁBIO (Baixo a Bráulio.) – Amanhã à hora aprazada receberá o conto de réis.
(Assentimento de Bráulio.)
CINCINATO (Pelo outro lado.) – Cada qual tem os seus segredos... (A Bráulio.) tio Bráulio! lembranças à prima. ( Vão -se Bráulio e Fábio.)
CENA IV
CINCINATO, CLARIMUNDO e HELENA
CINCINATO – Oh! oh!... sr. Clarimundo!...
CLARIMUNDO (Abrindo os braços.) (Abraço apertado.) Cincinato!...
CINCINATO – Perdão, minha senhora! (Aperta a mão a Helena.) Mas o sr.
Clarimundo aqui...
CLARIMUNDO – Meu Cincinato! perpétuo Quebra-louça! sempre o mesmo alegrão!... (Abraça-o outra vez.)
CINCINATO – E sempre quebrando louça, até que a morte me quebre este boião vazio que trago em cima do pescoço e que por costume chamam cabeça, sr.
Clarimundo...
CLARIMUNDO – Haverá três horas que cheguei, e apenas desembarcado, corri imediatamente à tua casa.
CINCINATO – E não me achou... é claro! como sou encontrado em toda parte, era preciso que houvesse um ponto de exceção, onde ninguém me encontrasse: escolhi a minha casa para lugar de ausência; é cômodo e econômico por causa dos amigos: mas o senhor volta remoçado... vendendo saúde.
CLARIMUNDO – E, já o sabes, com a bolsa vazia depois de a ter tido abarrotada! não importa... nunca desanimei; torno ao seio da pátria com esperança de ainda ser feliz; poderei sê-lo?... ardia por falar-te... (Dominando-se mal.) sobre... sobre aquele meu negócio... aqui é impossível... eu o vejo... mas... uma palavra só... chego a tempo?...
CINCINATO – Antes tarde que nunca... todavia... a fazenda está muito avariada.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.