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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Celina, eu sou feliz!... imensamente feliz!... tinha ela já três vezes exclamado depois que se sentara no sofá ao lado de sua sobrinha.

– Mas por quê?... o que há então minha tia?

Ficou Mariana pensando alguns instantes, depois abraçou, e repetidas vezes beijou a “Bela Órfã”, e disse:

– Olha... por isto; porque muitas vezes nós precisamos abrir o nosso coração a alguém que juntamente conosco chore nossos pesares, e frua nossos prazeres, é que te eu tenho dito mil vezes que nós nos devemos amar como duas amigas, ou melhor ainda, como duas irmãs que se amem muito. Para que estes nomes de tia e sobrinha?... chama-me Mariana, como eu te chamo Celina.

– Senhora...

– Sim... fiquemos nisto, continuou Mariana beijando de novo Celina; eu nunca mais te hei de responder quando me chamares como até agora – minha tia. – És muito mais moça do que eu, mas também podes olhar-me, não sou nenhuma velha, e somos ambas bonitas.

– Pois sim; eu prometo.

– E agora o que é que queres saber?...

– Por que se julga minha tia tão feliz.

– Não respondo.

– Ah!... perdão!...

– Pois pergunta de novo, disse a viúva rindo-se.

– Por que te crês tão feliz, Mariana?...

– Escuta: para responder-te daqui a um instante, eu preciso perguntar-te uma coisa: juras falar-me de coração?...

– Sem dúvida.

– Pois bem, Celina, sabes o que é amar... amar um homem que não é nosso pai, nem nosso irmão?...

A “Bela Órfã” corou até a raiz dos cabelos, e sua perturbação aumentou-se quando viu que Mariana se estava rindo de vê-la assim.

– Oh! não te perturbes, não cores tanto. Lembra-te que estamos sós, e que somos como duas irmãs que se amam muito. Responde francamente: amas já alguém?...

– Não, Mariana.

– Falas verdade, Celina?...

– Falo verdade, respondeu a moça com os olhos no chão.

– Mas com dezesseis anos, tão bonita e tão viva que és, tu já deves ter pensado nesse sentimento de fogo, que mais cedo ou mais tarde sempre experimentamos; fazes já idéia do que seja amar um homem?...

– Não sei... talvez... tenho lido.

– E então?...

– Mas eu tinha perguntado por que te julgavas feliz, Mariana!

– É porque amo, Celina.

– Eu o supunha.

– Tu o supunhas?... e a quem acreditavas que eu amava?...

Celina hesitou.

– Fala, disse Mariana.

– O sr. Salustiano.

Mariana fez um movimento de horror.

– Oh!... nunca! exclamou.

– Como!... pois não é?

– Eu o detesto... eu o aborreço, como se aborrece um malvado.

– É possível?

– Pobre menina!... tu ainda não sabes o que é o mundo. Vês-me rir para esse homem, vês como ambos conversamos e mutuamente nos festejamos, e como com outras pessoas, pensas que o amo e sou por ele amada. Pois bem: eu detesto esse homem, e ele sabe que eu o detesto.

Uma nuvem de imensa tristeza passou pelo rosto de Mariana há pouco expandido pelo prazer. Ela ficou muda e pensativa, até que Celina arrependida do que tinha dito, tomou-lhe uma das mãos entre as suas, e falou-lhe docemente:

– Está bem, Mariana, esqueçamos esse vaidoso mancebo, de quem também não gosto, e falemos sobre aquele que te é caro.

– Oh! sim! falemos!... exclamou, como despertando de um sonho, a bela viúva, em cujo semblante radiou de novo o prazer.

– Eu o conheço?...

– Creio que não.

– Muito moço, não é assim?...

– Trinta e dois anos.

– Bonito?...

– Oh! pelo menos eu o julgo tal.

– És amada?...

– Era, disse Mariana soltando um suspiro.

– Desde quando?...

– Há seis anos.

Celina tornou-se pela segunda vez muito corada, e sem poder ocultar um movimento de desgosto, disse:

– Eras casada nesse tempo, Mariana.

– É verdade, respondeu a viúva. Escuta o que eu precisava dizer a uma amiga, , ara que ela ficasse conhecendo meu coração, e depois falasse muitas vezes comigo sobre o meu amor.

Celina fitou os olhos em Mariana, que começou logo a falar.

– A história da minha vida, Celina, se assemelha à de um número imenso de moças. Não te cansarei, pois, alongando-a. Aos quatorze anos já o meu espelho me tinha dito que era bela, e desde que o soube, sonhei, como todas nós sonhamos aos quatorze anos, sonhei como tu sonhas aos dezesseis, com um mancebo formoso e interessante, que o céu por força deveria ter formado de propósito para mim; que seria meu esposo, que me amaria com ardor indizível em meu primeiro dia de noivado, e que daí a cem anos, ele e eu, moços sempre, ele sempre com seus vinte anos, e eu sempre com meus quatorze anos, belos e felizes nos amaríamos com o mesmo ardor indizível do primeiro dia de noivado. Fui amada, requestada, e às vezes feliz. Recebi cem proposições de casamento. De seu lado meu pai rejeitou cinqüenta, que eram feitas por mancebos gentis, namorados, bailistas; e que, segundo dizia meu pai, sabiam tudo, tudo, menos trabalhar. Por minha parte rejeitei as outras cinqüenta que me eram dirigidas por nobres e ricos senhores de cabelos grisalhos e elegantes carruagens, que, em minha opinião, mereciam tudo, tudo, menos o meu amor. Enfim cheguei aos meus vinte e quatro anos... oh Celina! eu tive medo, quando um dia me lembrei que tinha já vinte e quatro anos e estava ainda solteira!...

Celina notando no tom sério com que Mariana pronunciou aquelas últimas palavras, não pôde deixar de sorrir-se.

(continua...)

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