Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
E dizendo isto cruzou, como fizera Venâncio, as mãos atrás das costas, e se pôs a passear por sua vez; e o marido, que estava completamente por terra, foi quem teve então de acompanhála, dizendo-lhe com toda a humildade:
— Vem cá, mulher impaciente; não sabes que eu sou um empregado sem exercício, que o meu ordenado e todos os nossos rendimentos não chegam a dois contos de réis, e que por conseqüência não tenho dinheiro para dar saraus?... — Pois tivesse: há de haver sarau.
— Não sabes que, sem necessidade e só por tua vontade, aluguei uma quinta, de cujo aluguel já devo seis meses...
— Pois não a alugasse: há de haver sarau.
— Ignoras que, para comprar tetéias francesas e vestidos para ti e tua filha, fiquei no fim deste ano empenhado em um conto de réis?... — Pois não ficasse: há de haver sarau.
— Ignoras que hoje mesmo se venceu a letra de oitocentos mil-réis, que por teu respeito assinei, e que, portanto, quem não tem, como eu, dinheiro para pagar o que deve, também não tem dinheiro para funções inúteis?...
— Pois tivesse: há de haver sarau.
— Então estas razões não valem nada?...
— Não quero saber delas.
— Devo eu querer saber. E, portanto, o dia do batizado passará como outro qualquer, só com a única diferença de bebermos mais um copo...
Tomásia não pôde mais conter o seu furor; voltou-se de repente, e esbarrou-se cara a cara com Venâncio.
— Um copo de um dardo que te atravesse!... bradou ela batendo com o pé.
— Oh, senhora! exclamou Venâncio pondo a mão no nariz a ver se corria sangue, oh, senhora! veja lá como me trata! olhe que ia escapando de esborrachar-me o nariz.
Com aquele desgraçado encontro, Venâncio, que amava o seu nariz sobre todas as coisas, tornou-se exasperado.
— Quero o sarau! bradou Tomásia.
— Não pode ser! um milhão de razões... enfim, não há dinheiro! — Pois cubra o déficit com um crédito suplementar!...
— Vou fazer bancarrota... já não tenho crédito na praça.
— Há de haver sarau por força! gritou Tomásia com toda a força de seus pulmões.
— Não há de!... não quero!...
— Quero eu!... há de!...
— Não há de!... bradou Venâncio, que, ainda furioso, se lembrava da narigada.
— Veremos... vou fazer os convites...
— E eu saio logo a desavisar os convidados...
— Oh, brejeiro!... há de haver sarau!...
— Não há de!... digo-lho eu!...
— Patife!... maroto!...
— Patife!... maroto a mim!... que tenho saído juiz de paz em todas as eleições?... É muito... isso não se pode sofrer!...
— Eu te ensinarei!... lambazão insolente!...
— É ela!... tartaruga!... velha!... feia!...
Venâncio nunca se havia atrevido a tanto: as dores que sentia no nariz produziram aquela explosão de furor; mas ao nome de velha Tomásia foi às nuvens... era o maior insulto que se lhe podia fazer: tornou-se louca, enraivecida; e, levantando a mão, avançou contra o marido.
— Quem é velha?... quem é tartaruga, e feia, grandissíssimo brejeiro?...
— Senhora, disse Venâncio recuando!... olhe que eu perco-lhe o respeito!...
Mas Tomásia saltou sobre ele, agarrou com a mão esquerda na gola da niza, e com a outra começou a malhar-lhe as costas.
— Então quem é velha?... quem é tartaruga, e feia?... há de haver sarau ou não?...
— Prudência, senhora, olhe que eu...
— Não quero saber de prudências, continuou a boa da mulher; há de haver sarau ou não?...
As costas do pobre marido soavam, como um zabumba, fazendo horríveis caretas, ele exclamou:
— Oh, Sr.ª Tomásia, olhe que eu dou-lhe uma dentada!...
Mas a Sr.ª Tomásia, a quem já doíam as mãos de tanto socar as costas do infeliz Venâncio, mudou-lhe os tormentos, e a fortes puxões do resto dos cabelos que havia em sua calva cabeça, continuou gritando:
— Há de haver sarau ou não?
Neste momento bateram palmas na escada. Venâncio respirou com a esperança de escapar das garras de sua mulher, e disse em voz baixa:
— Largue-me, senhora, estão batendo, deixe ver quem é.
Mas Tomásia não estava disposta a abandonar assim a sua vítima, antes continuou no mesmo gênero de martírio, clamando bem alto para ser ouvida:
— Deixe bater... hei de enganá-lo primeiro... ou responda, há de haver sarau ou não?... As palmas soaram de novo; mas desta vez acenderam elas não a esperança no coração, mas a vergonha no rosto de Venâncio.
— Largue-me, senhora, murmurou ele.
— Há de haver sarau ou não?... gritou ela.
As palmas foram pela terceira vez ouvidas.
— Está bom, disse Venâncio, quero ser prudente... haverá... haverá sarau... e o que quiser. — Eis aí o que se chama um bom marido, exclamou Tomásia largando-o, e rindo-se: vou fazer as cartas de convite: oh, Micaela! vê quem bate.
E sem mais olhar para Venâncio, saiu da sala.
A escrava foi abrir a porta da escada, e o mísero marido aproveitou esse momento para concertar-se.
Quando Venâncio sentiu que a visita acabava de subir a escada, lembrou-se do ditado antigo, e com terrível ironia feita a si próprio; mas para esconder um pouco a sua vergonha, pronunciou com voz bem inteligível:
— Às vezes não há remédio, senão a gente sair fora do sério!... E entrou na sala o Sr. Brás-mimoso.
III
Brás-mimoso
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.