Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Qual foi a primeira ardilosa que fez a descoberta de tão rico tesouro não se sabe e isso pouco importa: o certo é que conhecido o milagre do padre as moças o tomaram em devoção.

Mas a candidata a casamento e o padre firmavam a rir e brincar, contrato que aliás era cumprido sem falha.

A candidata abria seu coração ao Padre Homem da Costa, dizia-lhe o nome do seu namorado, e, expondo-lhe as dificuldades que se opunham ao seu casamento, pedia intervenção protetora.

O Padre Homem da Costa respondia rindo e como a gracejar:

- Bem, bem: mas eu quero uma garopa de forno no dia do ajuste do noivado e convite para o banquete do casamento.

Não havia nada mais barato!

E o padre a entender-se com os pais do namorado e depois com os pais da candidata era tão persuasivo e hábil que acabava sempre por ganhar a garopa de forno, e ir ao banquete do casamento.

E era sempre feliz nos empenhos tomados; porque, quando a pretensão lhe parecia inconveniente ou desajuizada, não hesitava em desenganar a candidata.

É claríssimo que se multiplicavam as candidatas a casamento e os contratos de aparência zombeteira e de realidade gastrônoma.

As confidências e as expansões das candidatas eram pouco mais ou menos semelhantes, edições mais ou menos corretas e emendadas do mesmo romance de amor.

Nos contratos gastrônomos havia alguma variedade, mas sem importância para as candidatas: em vez de garopa de forno, vinha neste peru recheado -; naquele um prato de chouriço, etc.; mas em regra predominavam em primeiro lugar a garopa de forno e em segundo o peru recheado.

Em pouco tempo o Padre Homem da Costa promoveu e abençoou ou fez abençoar mais casamentos do que o prelado do Rio de Janeiro, e os vigários das freguesias da cidade.

E as noivas e casadas agradecidas e as novas candidatas em devoção, querendo honrar o milagroso casamenteiro, começaram a chamar a rua onde ele morava, que era a de Aleixo Manoel, Rua do Padre Homem da Costa.

Não houve nem Câmara Municipal, nem clero, nobreza e povo que pudessem resistir àquela proclamação do belo sexo.

A Rua de Aleixo Manoel passou a denominar-se - Rua do Padre Homem da Costa.

E o velho padre continuou a adotar e proteger candidatas a casamentos, até que no fim de alguns anos, em uma noite, morreu de apoplexia fulminante, depois de uma ceia em que devorara metade de uma garopa de forno, uma fritura de camarões e ostras, e um pratarraz de chouriço.

Não se pôde levantar da mesa, e expirou sem agonia, sentado, risonho e provavelmente a pensar no almoço do dia seguinte.

Se esta tradição pudesse correr com fundamentos de veracidade, o Padre Homem da Costa, pondo-se de lado a sua paixão gastrônoma, que não foi nociva senão a ele, deveria ser aplaudido pela sua influência benigna, moralizadora e social, e bem merecera a honra de passar seu nome à rua onde morava e onde enfim morreu.

Ah! se hoje em dia florescesse algum padre como aquele Homem da Costa, certamente o preço das garopas e dos perus seria já fabuloso na Praça do Mercado; porque o número das devotas do padre casamenteiro chegaria pelo menos a igualar ao dos candidatos a empregos públicos: mas também seria menor o número daquelas mártires, a quem chamam solteironas.

Mas enfim a Rua de Aleixo Manoel passou a chamar-se do Padre Homem da Costa, nome que conservou por cento e vinte anos, tendo trocado a casaca e a cabeleira do cirurgião pela batina e pelo solidéu do padre, e faz vontade de rir imaginar beata e clerical durante um século e anos esta Rua do Ouvidor filósofa sensualista, e até rua um pouco ou muito endemoninhada pela multiplicação das tentações.

Em meados do século XVIII a Rua do Padre Homem da Costa estendeu-se um pouco mais para o lado do continente, avançando até a rua que se chamou da Vala; deveras, porém, que não devia aplaudir-se desse prolongamento.

Construída a fonte ou chafariz da Carioca no lugar; depois largo e hoje Praça da Carioca, nome que tomou do das vertentes ótimas que recebeu canalizadas, sobravam tanto as águas que, para dar-lhes esgoto, abriu-se grande vala com leito e paredes de pedra desde a Carioca (chafariz) até o mar no sítio chamado Prainha.

(Entre parênteses: carioca quer dizer em língua tupi - casa do homem: - donde proveio semelhante denominação?... quem era o homem da casa?... pretendiam os selvagens tamoios que aquelas águas como as da fabulosa Cabalina tinham a virtude de inspirar estro poético: donde provinha essa falsa crença?... o homem da casa teria sido algum pajé poeta, algum tamoio solitário, homem notável pelo talento poético que os índios julgassem devido às águas que corriam perto da sua - oca -?... deixo aos meus ilustrados amigos os Srs. Drs. Brigadeiro Couto de Magalhães e Batista, os juizes mais competentes que conheço na matéria, o empenho de resolver este problema, e fecho o parênteses).

A vala foi de considerável utilidade, porquanto serviu para dar vazão àquelas águas que caíam sobrepujantes da fonte e dos tanques de pedra, e também às das chuvas então muito freqüentes e algumas torrenciais, que tornavam como rios as ruas, e inundavam as casas da cidade.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →