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#Comédias#Literatura Brasileira

Antonica da Silva

Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)

PAULA – Mas ao contrário jura que é homem, e confesso que no ato da prisão iludiu-me perfeitamente: só no caminho comecei a desconfiar.

PINA – E quando se fardou?

PAULA – Sem a menor cerimônia mandou sair o sargento Pestana da arrecadação, fechou-nos a porta na cara, e daí a dez minutos apareceu que era um brinco: o fardamento que serviu ao cadetinho Melindre ajustou-lhe ao pintar.

PINA – O velho Peres é negociante respeitado e rico e se este soldadinho não é homem.

PAULA – Não é; se me dessem licença, casava-me com ele fardado como está; é mulher, e linda!

PINA – Então anda nisto segredo de família, e por ora é indispensável todo o cuidado. (Toque de cornetas) Eis aí! instrução de recrutas; começam as dificuldades!...

PAULA – Descanse, capitão: passei ao sargento Pestana suas recomendações secretas. O soldadinho está separado dos outros recrutas.

PINA – E que os soldados não suspeitem...

PAULA – O Pestana responde por tudo...

PINA – Alferes... duas horas de folga... veja se encontra o Peres... assim como por acaso...

PAULA – Entendo (Faz continência e sai).

PINA – Não devo testemunhar falhas quase certas de disciplina (Indo-se) Logo hoje me caberia ficar de estado maior!... (Entra no estado maior).


Cena II

Inês, vestida de soldado, e o sargento Pestana saem pelo portão. Pestana adiante.


PESTANA – Assim! um... dois... um... dois... agora direita volver! (Inês para) eu lhe ensino. Dois tempos: à voz direita leva-se o côncavo do pé direito a tocar no do esquerdo; á voz volver levantam-se as pontas dos pés e...

INÊS —Já sei... já sei... já sei...

PESTANA – Pois lá vai!... direita... (Inês executa) volver!... (Inês levanta as pontas dos pés e assim fica) Não é isso; última forma.

INÊS – Pois o senhor não disse que à voz – volver eu levantasse as pontas dos pés?...

PESTANA – Mas não girou sobre os calcanhares...

INÊS – Ora! eu sei volver-me para a direita e para a esquerda sem essas lições de dança: olhe (Volta-se para um e outro lado).

PESTANA (À parte) – Pior vai o caso! (Alto) Recruta, à voz de sentido as mãos passam rapidamente ao lado das coxas e o calcanhar direito vai juntar-se ao esquerdo. Veja: é assim... (Executa: Inês ri) não ria; atenda à voz: – Sentido... (Inês põe as mãos na cintura, dobra um pouco o corpo e olha atenta) Mãos nas coxas! calcanhares juntos!

INÊS – Qual!... a ocupar-me em pôr as mãos nas coxas, e em conservar os calcanhares juntos eu não posso estar com o sentido em coisa nenhuma.

PESTANA (À parte) – Antes de três dias responde a conselho de guerra (Alto) Vejo que é preciso recomeçar a instrução das voltas a pé firme. Atenda...

INÊS – Senhor sargento: não perca o seu tempo, eu, conservando os pés firmes, nunca darei volta alguma...

PESTANA – Há de aprender. Atenda à voz: firme!...

INÊS (Afastando-se e à parte) – Estou quase arrependida!... tenho vergonha e medo!... não posso mais fingir...

PESTANA (À parte) – Não escapa ao conselho de guerra, e acaba sendo arcabusado. (A Inês.) Recruta!...

INÊS – Sargento, deixe de importunar-me; digo-lhe que por hoje está acabada a instrução: não estou para isto.

PESTANA (À parte) – Ai, disciplina militar!... mas vou salvá-la, (Alto) Atenda à voz: – Descansar!... retira-se diretamente o pé direito, caindo o peso do corpo...

INÊS – Que asneira! isso em vez de dar descanso, aumenta a fadiga, Sargento, o verdadeiro é assim: (Arremedando) Descansar!... (Senta-se no chão) eis como se descansa.

PESTANA (À parte) – Depois de envelhecer sem nódea no serviço ver-me obrigado a fechar os olhos a tanta insubordinação.

INÊS (À parte) – Se eu tivesse a certeza de que Benjamim já estava salvo, declarava que sou mulher!... sofro muito... aqui tudo me aterra!...

PESTANA – Em pé!... ainda tenho que ensinar-lhe.

INÊS – Sargento, a sua instrução de recrutas contém uma multidão de tolices.

PESTANA – Não sabe o que diz: tem de preparar-se para entrar amanhã no manejo da arma, e depois de amanhã no exercício de fogo!...

INÊS – Pois vá esperando!... havia de ser engraçado eu no manejo da arma, e no exercício de fogo!... que proezas faria..

PESTANA (À parte) – E com que voz diz tanto desaforo!... parece uma flauta... ai! ai! ai!.. aqui há coisa!.

INÊS (À parte) – Ah, Benjamim... quanta loucura por ti (Alto) Sargento! é verdade:

como se chama?

PESTANA – Pestana: nome já glorioso no regimento de Moura.

INÊS (Fingindo rir) – Pestana, que nome ridículo! crisme-se; mas não caia em ficar sobrancelha; tome pelo menos o nome de sargento bigode.

PESTANA (À parte) – Eu aturo esta insolência só em respeito ao capitão Pina; mas capitão, capitão! começo a desconfiar.

INÊS (Notando um rasgão na manga esquerda da farda) – Sargento, dê-me uma agulha com linha...

PESTANA (À parte) – Ordena que parece o coronel do regimento (Tira da patrona agulha e linha) E dou-lha: quero ver como costura (Custa a enfiar a agulha).

INÊS (Tomando-lhe a agulha e a linha) – Ah!... levaria uma hora a enfiar... (Enfia e conserta o rasgão da farda; canta costurando)


Remendeira, remendeira...

Ponto aqui, ponto acolá

(continua...)

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