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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Um homem que espera pela luz, espera pela vida. Eu ainda duvidava do poder mágico do armênio; não quis apagar minha dúbia esperança na mesma hora, na mesma noite em que ela nascera.

Despedi-me do Reis e sai com o bom velho, que ainda se prestou a acompanhar-me.

Quando entrei em minha casa, davam os sinos o sinal de três horas da madrugada.

Pouco falta para romper a aurora e brilhar o sol.

Em breve experimentarei se vejo, como e quanto vejo.

Agora vou fazer por dormir, se puder dormir.



FIM DA INTRODUÇÃO À PRIMEIRA PARTE

VISÃO DO MAL



I

Não me foi possível dormir. Fiquei velando ansioso a esperar pelo dia, como o preso que espera ouvir soar a hora, em que lhe assegurarão a liberdade.

Procurei abreviar o tempo, ocupando o meu espírito naturalmente lembraram-me os conselhos que me dera o armênio.

Refleti.

O mágico me recomendara que me abstivesse de fixar a minha luneta sobre o mesmo objeto por mais de três minutos; porque além de três minutos ela me daria a visão do mal, em que a salamandra cevaria a vingança da sua escravidão encantada.

Deverei eu obedecer neste ponto o conselho do armênio?... compreendo que pobre de espírito como sou, arrisco-me a errar gravemente, querendo deliberar por meu próprio entendimento, e por isso até hoje o mano Américo, que é sábio e justo, sempre tem pensado por mim.

Todavia está me parecendo que ver o mal que se contém em um homem, em uma mulher ou em qualquer objeto pode antes ser útil do que nocivo, porque em todo o caso me servirá para fugir do mal.

Eu não entendo bem o que o armênio chama visão do mal; se porém é simplesmente o que significam as duas palavras, chego a presumir, que a visão do bem há de por força ser mais suave; mas a visão do mal necessariamente mais proveitosa ao homem que faz na terra a viagem difícil e perigosa da vida.

Ora, o que o armênio me proibiu, foi a fixidade da minha luneta por mais de treze minutos, foi a visão do futuro, sob pena de quebrar-se a luneta em minhas mãos, e a semelhante calamidade nunca por certo me hei de expor; ele porém não me proibiu, apenas me aconselhou que me abstivesse da visão do mal.

Assim, pois, o que mais acertado e prudente devo supor, é, se a luneta mágica não for malvada zombaria ou presente da loucura, experimentar uma vez a visão do mal; porque em todo caso conservo c direito e arbítrio de limitar-me daí em diante à simples visão da superfície e das aparências, como diz o mágico.

Foi isto o que refleti, e o que pela primeira vez resolvi por mim sem consultar o mano Américo.

E de novo nesta noite maravilhosa veio-me a lembrança de Eva e reconheci a minha procedência legitima da primeira pecadora; mas em vez de achar na procedência e no primeiro pecado lição contra a desobediência, achei somente desculpa da minha curiosidade talvez temerária.



II

A frescura das auras matinais anunciou-me que se aproximava a aurora.

A janela do meu quarto se abre para o jardim e olha para o oriente; lancei-me para a janela abençoada e com a minha luneta na mão deixei-me ficar em pé, imóvel, contando nalma os instantes que iam passando vagarosos.

Eu respirava as exalações deleitosas das flores do jardim, e sentia nos meus cabelos e no meu rosto a doce impressão dos sopros da madrugada.

De súbito perguntei a mim mesmo em quem ou em que faria o ensaio, a experiência do encanto da minha luneta.

Embora eu tivesse acabado de recorrer à magia, o meu coração estava sempre e todo voltado para o céu.

Lembrou-me logo ver uma flor, que e símbolo de pureza; mas rejeitei esta idéia; porque a flor é apenas ornamento da terra.

Preferi ver a aurora que também é flor; mas é rosa do céu.

A aurora! eu nunca tinha visto a aurora! ouvira ler vinte, cem descrições da formosa precursora do sol, e chorara vinte, cem vezes por não poder admirar a diva matutina que recebe diário culto dos turíbulos das flores e da música dos passarinhos.

f: a aurora, é a rosa do céu que, antes de tudo mais, quero ver... se puder ver; e a aurora que é pura, que é o sorrir do sol mandado de longe à terra, é a aurora que eu contemplarei por mais de três, por dez minutos sem temer a visão do mal: porque no seio e através da aurora só poderei ver o sol, que é majestade pela luz, vida pelo calor, providencia pela regulação do movimento dos planetas.



III

E estremeci, ouvindo o canto dos passarinhos no jardim, e o ruído e a festa da natureza, saudando o despontar da aurora.

Era tempo; mas demorei-me ainda, aspirando mais luz, mais brilhante alvorecer no horizonte; o meu coração palpitava com força, a minha alma estava nadando em mar de esperanças e de temores: enfim minha mão se ergueu convulsa... fixei a luneta...

Oh! felicidade!... oh, supremo gozo!... eu vi!... eu adorei a aurora!

Ah! contemplei esse quadro ao mesmo tempo gracioso e magnífico de rosas de fogo suave, esse rubor da virgem do oriente acendido pelo beijo de fogo brando que o sol na face lhe imprime!

Como é bela, esplêndida, fresca, sublime a aurora! não se descreve: é como o primeiro despertar de noiva formosa no leito nupcial, mistura de glória e pejo, de pudicícia e de flamas que fazem corar... é o indizível... o céu abrindo-se à terra.

(continua...)

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