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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- E onde estão os outros filhos de Deus? Onde está meu pai? Onde está minha mãe? Onde estou eu? Deus é Deus em toda a parte, e quando tira um arrimo ao necessitado, já tem posto outro diante dos olhos dele.

Ouvindo estas palavras, Marianinha sentiu descer-lhe ao intimo do coração um como bálsamo reparador e divino. Ergueu os olhos ao rapaz. estavam inundados de um clarão suave. Havia ali talvez um agradecimento que lhe dirigia pela doce esperança que, depois de tantas contrariedades, penas e agonias, muitas delas ocasionadas por ele próprio, ressurgia agora, posto que banhada em prantos, no solo crestado, que de repente se tornava fresco e fecundo ao calor dessa bendita consolação.

Nesse momento ouviram bater a porteira do engenho, e logo após o estrepito das pisadas de um animal que corria à toda a brida. Lourenço lança-se à porta da igreja, a fim de ver quem era o cavaleiro, e dá com olhos em Marcelina.

O conforto no coração de Joaquina e de Marianinha aumentou com a chegada da cabocla, e especialmente depois que souberam que Francisco estava na vila, e que os mascates naquele momento deviam ter já perdido a mão. Lourenço quis voltar imediatamente a Goiana, mas Marcelina não consentiu que o fizesse, dizendo-lhe que em pouco tempo Francisco se acharia com eles.

De feito, não se meteram duas horas que o matuto se reuniu à família, trazendo a importante nova da vitoria. Para Marianinha a vitoria maior foi a que o matuto exprimiu nestas palavras:

Não chores, Marianinha. Perdeste teu pai, mas ali tens teu marido. E indicou Lourenço que, com os olhos pregados na imagem do Crucificado, se mostrava nesse momento diante do altar, inteiramente alheio ao que se falava a seu lado.

Eis em que estava absorvido o rapaz.

Quando viera de Goiana horas antes, encontrara caído, entre a casa de Victorino e a de Manoel das Dores, um bandoleiro de Pedro de Lima à sombra de uma arvore. O malfeitor tinha passado a noite em claro, e na adega do senhorde-engenho fora do que mais entraram pelo vinho generoso, o qual, dando-lhe na fraqueza, o impossibilitou para preencher o seu oficio naquele dia. Em uma das mãos tinha ainda um saco, de que marejava sangue.

Lourenço saltou do cavalo abaixo, tirou o saco das mãos do dono que estava ressonando, e abriu-o para ver o que continha. Era a cabeça do cevado de Joaquina, com que o salteador tencionava aumentar o almoço que por eles devia estar esperando, segundo calculava, em casa de Coelho ou de Paes.

Teve então o rapaz a idéia de tomar uma vingança original. Com cordas do seu cavalo suspendeu por baixo dos braços o bandido ao alto da arvore. Ligou um pé ao outro, para que não tivesse meios de passar as pernas no tronco, e desprender os braços, que atou pelos pulsos na altura da cabeça da vitima, porém afastados. Enfim o todo figurava uma crucificação.

Planejava Lourenço queimar vivo o infeliz. Além de ser de seu natural mau, acabava de ver os males trazidos pela horda de que o malfeitor fazia parte, à inofensiva propriedade de pessoas de seu conhecimento e estima. Apanhara-o mesmo com o roubo na mão, praticado na casa a que mais se sentia preso por gratos elos dentre todas as casas das vizinhanças. Enfim, vinha da vila trazendo o coração repleto de fel e chama pelo que ai faziam desde a noite anterior os companheiros do malfeitor. Por tudo isso não hesitou em levar a efeito a abominável inspiração do seu ódio e da sua maldade. Quem o visse então, o acharia outro do que era. A brandura de coração, obra de Marcelina, tinha cedido o lugar, que não era ainda exclusiva propriedade sua, à paixão animal, que o acompanhava do berço. A educação pode muito, quando ajudada de muitas lições e exemplos e ao cabo de tempo bastante, converter, pelo processo que em fisiologia é ainda um mistério, o espinho original em rosa filha do artificio, da delicadeza e da perseverança.

Como tinha pressa, Lourenço deixara ai bem segura a sua presa, calculando sujeitá-la ao repugnante suplicio depois de vencidos os inimigos.

Agora, porém, casualmente erguendo as vistas ao crucificado, lembrara-lhe a crucificação, de que um momento o tinham feito esquecer-se os últimos acontecimentos.

Francisco aproximou-se do rapaz, bateu-lhe no ombro e perguntou-lhe a causa do seu enleio.

- Vosmecê não viu suspenso na gameleira do caminho o cabra que matou o porco de sinhá Joaquina? tornou ele.

- Vi, sim. Sabes quem era? Leonardo, sobrinho de Gonçalo Ferreira. Quem foi que lhe fez aquela crueldade?

Coitado! Por um pouquinho não morreu.

- Pois eu estava agora mesmo pensando em ir acabar de matar aquele ladrão, aquele assassino.

- Quem? Tu, Lourenço?

- Eu mesmo, sim senhor.

- Não digas isto. Estás já um homem e deves pensar melhor. Até onde quererás levar o teu mal natural? Mas então eu não devia ter feito o que fiz? o ladrão não botou portas abaixo, não pôs fogo nos canaviais e nas casas dos outros, não tirou o que não era seu?

- Fez tudo isso, mas tu não és juiz, não és Deus para julgar os homens.

(continua...)

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