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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Tornando a si desta longa interrogação do passado, a donzela aterrou-se ante uma idéia que surgiu-lhe de chofre. Essa afeição que tinha a Arnaldo seria mais do que a simples amizade de uma irmã de criação por seu companheiro de infância? 

Não. Ela, a filha do capitão-mór Cmapelo, não podiaa ver em um vaqueiro outra coisa senão um agregado da fazenda, ao qual dispensava um quinhão da estima protetora, que repartia com seus bons servidores, como a Justa, a Filipa e outros. 

Daí em diante cumpria-lhe manter a distância que a separava do seu colaço, para que êste não a esquecesse outra vez, e de um modo tão grosseiro. Sentiu que havia de custar-lhe bastante envolver Arnaldo, a quem sempre distinguira com sua afabilidade, no mesmo trato frio e imperativo que usava com a gente da fazenda. Mas assim era preciso, e assim havia de ser. 

Nunca a sua proteção faltaria a Arnaldo. Todos os sacrifícios ela os faria, sendo necessário, para poupar-lhe um desgôsto, e auxiliá-lo nos trabalhos da vida. O que vedava-lhe o seu decôro, era a confiança e familiaridade, em que até alí havia consentido com tamanha imprudência. 

A resolução da donzela e o esfôrço que lhe tinha custado, refletiam-se em sua fisionomia severa e altiva, quando ao toque de ave-maria, ela saíu ao terreiro e foi beijar a mão dos pais. 

Arnaldo a seguira com os olhos cheios d’alma. A donzela ao voltar-se o avistara; mas desviou dele a vista, sem a menor perturbação ou sobressalto, com uma indiferença plácida e fria, que traspassou o coração do sertanejo. 

Adivinhou que Flor acabava de separar-se dele para sempre. 

Depois de Trindades, D. Genoveva chamou a filha e levou-a à presença do capitão-mór, que esperava sentado no canapé. 

— D. Flor, minha filha, a senhora chegou à idade de tomar estado; e nossa obrigação, era procurar-lhe um marido, digno por suas prendas de merecer aquela a quem mais prezamos no mundo. Lembrámo-nos de seu primo Leandro Barbalho, do Ouricurí, filho do falecido Cosme Barbalho, homem de prol, a quem o filho não desmentiu nas obras: 

— Aceito; meu pai; basta ser de sua escolha, para que eu o tenha no melhor conceito. 

Campelo comunicou à filha que nesse mesmo dia despachara um portador com carta ao Leandro Barbalho, o qual breve estaria na Oiticica, e agradando a D. Flor, como era de esperar, se trataria logo das bodas. 

O que não disse o capitão-mór fo o motivo de tamanha pressa. Não lhe saía da lembrança o dito de Fragoso; e receoso de que pela intercessão de algum santo, ou por artes ocultas, conseguisse o despeitado mancebo abrandar-lhe o ânimo, pensou que o melhor esconjuro contra êsse malefício era casar quanto antes a filha. 

D. Flor, que outrora assustava-se com a idéia do casamento, aceitou-a nessa ocasião com um modo pressuroso que não lhe era habitual. Porventura entrevia ela na sua aliança conjugal, um apôio para a resolução que tomara, e da qual ainda receava desviar-se? 

À noite, pouco antes do toque de recolher, chegaram à Oiticica dois viajantes: uma dama que trajava de luto, ajoelhou-se aos pés do potentado. 

— Sou uma desventurada, que vem pedir ao sr. capitão-mór Campelo, como pai dos pobres e a Providência dêstes sertões, agasalho e proteção contra seus perseguidores. 

— Agasalho terá, que a ninguém se nega na oiticica; proteção, a darei se a merecer; mas primeiro diga para o que a pede, mulher! 

— É tarde, e eu não quero pagar com incômodo da família a hospitalidade que vossa senhoria me concede. Se o sr. capitão-mór dá licença, eu deixarei para amanhã relatar-lhe minhas desgraças. 

— Amanhã a ouviremos. 

D. Genoveva já tinha dado ordem para preparar-se um aposento, no qual foi ela própria, com Flor, instalar a dama, que lhes captara as simpatias, não só por sua desventura, como por seu modo, ao mesmo tempo digno e modesto. 

Quando a desconhecida ergueu o crepe que a velava de dó, sua beleza deslumbrante produziu nas duas damas um movimento de ingênua admiração. Não se recordavam de ter visto semblante tão formoso. Flor era aos olhos da mãe o tipo da graça e da gentileza; mas não tinha a fascinação que derramavam os olhos negros e aveludados da desconhecida. 

Soube então D. Genoveva que sua hóspede chamava-se Águeda, e era viúva. Como, porém, com a lembrança recente de seu infortúnio desatasse em pranto, a fazendeira depois de a consolar, retirou-se para não perturbar-lhe o repouso de que devia carecer. 

No outro dia, logo pela manhã, veio Águeda à presença do capitão-mór, trazida por D. Genoveva, a qual a animava com a esperança de obter a proteção que viera solicitar do dono da Oiticica. 

— Diga o seu agravo, mulher, e conte que lhe faremos justiça, determinou o capitão-mór com a gravidade de um desembargador daquele tempo, que os de hoje são mais gaiteiros. 

(continua...)

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