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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Você por aqui, Marianinha?! Estou cansado de ver solidão, estragos e sangue. Onde está sua gente? Não ouço nenhum rumor, nem vejo ninguém na casa grande. Que quer dizer isto?

- A primeira resposta da moça foram as lagrimas. Depois, em rápidas palavras, ela contou toda a desgraça, ou antes a serie de desgraças de que o engenho fora teatro momentos antes.

- Ouvindo a fúnebre narração, Lourenço não soube o que dizer por alguns instantes. Ficou a modo de privado, do uso da razão. O pesar, a cólera, o desejo de vingar-se o tiveram entre o idiotismo e a loucura. O estado melindroso de suas faculdades aumentou ainda mais, quando ele soube que no engenho não havia ninguém com quem contar para ir em socorro dos que estavam precisando dele na vila. Alguns corpos sem vida era só o que restava das forças que tinham ficado para defesa da casa grande. Os negros que no combate não tinham caído mortos ou feridos, esses haviam fugido para o mato, determinados a não voltarem segunda vez para a escravidão.

- Para contar o acontecido, Marianinha parara ao pé da ingazeira centenaria que se levantava de um dos lados do caminho, e que com outras formava uma como galeria por cima do braço de rio que cortava por dentro do cercado. Foi ai, na sombra e no retiro, que davam mais solenidade ás suas palavras, mais gravidade a seus prantos, que ela desfiou o rosário dos episódios de que tinha conhecimento. Quando chegou ao da morte de Victorino, a pobre rapariga entrou a chorar como louca.

- - Vamos para fora, Marianinha, disse Lourenço, vencendo a custo sua comoção. Quero ver sua mãe. Vamos, sim, disse a moça. Eu tinha vindo em busca de Saturnino para ajudar minha mãe... - Ajudá-la a que...?

Você vai já saber, Lourenço – respondeu a moça, deixando-se banhar cada vez mais em suas aflitas lagrimas. Do lado de fora da galeria, à luz livre da manhã, luz graciosa e tépida que parecia um sorriso de noiva, luz que patenteava os mínimos acidentes da natureza, pode Lourenço ver melhor Marianinha.

Trazia ela os cabelos revoltos, avermelhados os olhos de muito chorar, crestada a macia pelúcia das faces, que não obstante mais acesas se mostravam de natural rubor. Mas esses olhos, posto que chorosos, tristes e afligidos, eram ainda tão matadores, tão ternos, que parecia concentrarem em se toda a suavíssima beleza, esparzida pelas várzeas, pelos vales distantes, na luz que caia do céu como chuva de ouro, nas flutuações da folhagem, na frescura das vastas sombras, atiradas como leitos de paz e tranqüilidade no meio da solidão rica de esplendores e cantos.

Entraram na capela pela portinha da sacristia.

Ao penetrar na estreita e sombria nave, o espetáculo que a Lourenço se mostrou, foi o seguinte:

No meio da igreja, ao lado de um monte de terra fresca, jazia um cadáver; era o de Victorino. Entre esse cadáver e o monte, uma mulher tirava do chão onde estava abrindo uma cova, pás de terra, que atirava sobre a que havia fora. Era Joaquina.

Lourenço quase a não conheceu, tão demudado estava o resto da infeliz. A dor envelhecera-a em poucas horas. A dor tem mais violência e rapidez na sua obra do que o próprio tempo.

- Joaquina só se deixava ver da cintura para cima. A outra parte do corpo estava metida na cova. Os cabelos, em sua maior parte embranquecidos pelas necessidades usuais da vida do pobre, e agora pelo sopro da adversidade que lhe enrelegara os últimos alentos, caindo sobre as faces murchadas e macilentas, davam-lhe uma feição que gerava vexame em quem a via.

- Sem dizer uma palavra sequer, Lourenço que aprendera de Marcelina a Ter para os cadáveres pias demonstrações, ajoelhou-se aos pés do corpo de Victorino, rezou em silencio sua oração, e, erguendo-se, aproximou-se de Joaquina, tomou-lhe a pá das mãos e pôs em lugar dela a prosseguir o ultimo trabalho que o morto exigia dos vivos na terra. A mãe e a filha, mudas e taciturnas, acompanharam com suas lagrimas as que o rapaz verteu, abrindo o leito final do seu vizinho, amigo de seu pai e quase seu parente, a quem votava estima e prestava respeito.

- Chegou enfim o momento de ser entregue à sepultura o corpo do finado. O pranto das mulheres redobrou. Marianinha fazia exclamações de cortar o coração. Joaquina carpia-se inconsolável, envolvendo com o nome do marido o da filha mais velha que lhe fora arrebatada momentos antes da perda do primeiro. A mão tremula, o braço hesitante, começou Lourenço a impelir para dentro da cova, depois de se haver sumido nela para sempre o seu mudo habitador, com a pá que lhe pesava como barra de ferro, a terra acumulada nas bordas. A tristeza era profunda, solene o momento, indescritível o espetáculo. Que será de mim sem meu marido? exclamou Joaquina soluçando.

Que será de mim sem meu pai? acrescentou Marianinha, desfazendo-se em lagrimas e suspiros. Lourenço tinha posto na cova a ultima pá de terra.

Sua mão descaíra sobre o cabo do instrumento.

Por impulso irresistível de espirito, ele voltou-se para as mulheres, ouvindo aquelas palavras, e disse-lhes:

(continua...)

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