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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Nem Guida, nem Ricardo são tipos, mas caracteres formados pelas nossas condições sociais, idiossincrasias, como outras que aí estão se reproduzindo ao infinito, sob a influência de um concurso qualquer de circunstâncias. A diferença entre um tipo e um caráter não careço de a determinar, pois não a ignora o ilustrado crítico. O tipo é moral; o caráter é psicológico. Este só contraste basta: dá-nos ela outra importante aferição. O tipo forma-se exteriormente pelo molde social; o caráter é uma criação espontânea, que se produz internamente pelas modalidades da consciência. 

O marinheiro, o soldado, o estudante, o advogado, etc., são tipos de maior ou menor relevo. O avaro, o egoísta, o ambicioso, são caracteres que variam como as folhas de uma árvore e os logaritmos de uma mesma forma natural. Fazendo aplicação destes prolegômenos da crítica a nossas personagens, não será difícil discernir o que pertence ao caráter e o que ao tipo, em cada uma delas. 

Em Guida a altivez do gênio, a elegância fidalga, os caprichos dissipadores, a isenção da alma, tudo isto é do caráter, no qual sente-se a leve impressão da educação inglesa. O que há de típico nessa figura é a forma de que se revestem suas travessuras, a garrulice brasileira desse lábio malicioso, o impulso de caridade que se expande traquinando, o modo por que apesar da riqueza vive sem luta no meio de uma sociedade que lhe não convém. 

Em Ricardo o caráter revela-se nos escrúpulos de probidade e no pudor da pobreza, que os afasta dos círculos onde arrota-se ouro, não por orgulho ou inveja, mas pelo recato da dignidade. 

O homem que não jantou, curte sua fome em casa e não vai espiar a mesa farta dos ricos, sob pena de ser um mendigo de casaca. A vida é um banquete, onde nem todos são convivas, como disse com lúgubre ironia o infeliz Gilbert; porém muitos ficam à porta. 

Ricardo pensava por esta forma; se bem, se mal, é o que a crítica filosófica devia decidir, mas absteve-se. A profissão de advogado, única esperança de decente ganha-pão para ele que não tinha proteções, nem se encaminhara a outras profissões igualmente independentes, como o comércio e a indústria; as recordações de S. Paulo e as amizades e os amores ali tecidos com as noitadas do tempo de estudante; o tom da amizade escolástica e fraternal que o liga a Fábio; o seu modo de viver; eis o que há de típico em Ricardo, e não o viu o ilustre crítico por estar sob o domínio de uma prevenção. 

Havemos de chegar a ela, a seu tempo. 

 

Sênio 

 

11 de setembro de 1872. 

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