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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Receava-se do ressentimento que a menina devia conservar contra êle por causa do desbarato a que reduzira a festa e o altar do casamento. Assim andava por longe, espiando às ocultas a formosura de sua santa, e matando as saudades que tinha curtido naqueles últimos dias. 

A primeira vez que ousou chegar-se para os companheiros, Flor atirou-lhe desdenhosamente estas palavras: 

— Bicho do mato! 

— Onde andou você todo êste tempo, Arnaldo? perguntou Alina queixosa. 

— Ainda você pergunta? Esteve com os seus companheiros, dele, os caitetú. Isto não sabe viver entre gente. 

Arnaldo não respondeu. O que Flor dizia era a verdade; êle nascera para habitar no seio das florestas; era sertanejo da gema. 

Jaime pouco mais demorou-se na fazenda. O capitão-mór aproveitou a partida de um parente seu do Aracatí para enviá-lo a Lisboa, onde o esperava o avô. 

De novo espalhou-se o terror pelos campos de Quixeramobim. Anhamum, o feroz chefe dos Jucás, voltara à frente de quinhentos arcos, e desta vez para assaltar a Oiticica e tirar a desforra. 

Logo divulgou-se a notícia, o capitão-mór preparou-se para receber os selvagens, os quais não se fizeram esperar. Uma noite chegaram êles à margem do Sitiá e anunciaram-se pela sua formidável podema de guerra. No dia seguinte as casas da fazenda estavam cercadas. 

Por muitos dias não fizeram os selvagens a menor demonstração hostil; sentia-se que êles estavam perto, mas não se mostravam a descoberto. Esperavam ocasião azada para investir, ou queriam obrigar os sitiados a uma sortida. 

Nisto deu-se por falta de duas pessoas na fazenda: Arnaldo e Aleixo Vargas. A crença geral foi que tinham ambos caído nas mãos dos Jucás e já todos lamentavam a sua perda. Flor derramou lágrimas sentidas e copiosas por seu colaço e a pedido dela o capitão-mór ordenou uma sortida com o fim de livrar os dois prisioneiros, se ainda o fossem, e já não estivessem mortos. Eis o que havia acontecido. 

Arnaldo espiava o acampamento selvagem, à espreita de uma ocasião para encontrar-se com Anhamum. O rapaz tinha seu plano. Nisto Moirão levado pela curiosidade, afastou-se da casa mais do que devia, e foi empolgado pelos índios, que o levaram à ocara. 

Viu Arnaldo que o Moirão estava perdido, e arrastado por um impulso de seu coração generoso, cuidou em salvá-lo. Os Jucás entretidos com o prisioneiro, não sentiram que eram seguidos às ocultas. Assim conseguiu chegar o vaqueirinho à ocara, onde logo acudiu Anhamum, avisado pelos brados de seus guerreiros. 

Saltou-lhe Arnaldo em face, e apontando para o peito esquerdo do chefe, repetiu a palavra que êste pronunciara seis meses antes, na noite de sua evasão. 

— Coapara! 

Anhamum dirigiu ao rapaz um floreio de seu arco, saudação devida a um guerreiro ilustre; e depois uniu-se a êle, costa com costa, para significar-lhe a união em que estavam, o que era o mais estreito abraço da amizade. 

Seguiu-se depois o diálogo da hospitalidade. 

— Tu vieste? 

— Vim. 

— Sê benvindo ao campo de Anhamum, a quem salvaste. 

A êsse tempo já os índios tinham despido o Moirão e distribuído as várias peças do seu vestuário que foram imediatamente reduzidas a tiras para servirem de faixas e cintas guerreiras. 

Arnaldo exigiu de Anhamum duas coisas: primeiro, que êle não levantaria seu arco nunca mais contra os donos da Oiticica; segundo, a entrega do Aleixo Vargas. Anhamum preferia que o seu camarada lhe pedisse uma orelha, um ôlho, ou metade de seu sangue; mas não podia recusar nada ao seu salvador. 

Nesse mesmo dia o chefe dos Jucás levantou a taba e Arnaldo voltou à Oiticica conduzindo o vargas. O que êle não levou foi a roupa dêste, e o nosso amigo Moirão para fazer uma entrada decente teve de embrulhar-se em fôlhas de banana, o que deu-lhe ares de uma enorme moqueca. 

Depois dêstes acontecimentos, Arnaldo por mais de uma vez foi à taba dos Jucás, levantada à margem do rio a que êles deram o nome; e sua amizade com Anhamum estreitara-se ainda mais, com os mimos de armas que lhe fizera. 

O chefe dos Jucás dera-lhe um aseta de seu arco, em penhor de aliança. 

— Quando careceres do braço de Anhamum, envia-lhe esta seta, que êle correrá a defender-te. 

De dia em dia as relações entre os dois colaços foram afrouxando, à medida que Flor tornava-se moça. A juventude que prendia mais a donzela à sala, por outro lado arrojava mais o sertanejo para o deserto. 

Flor só o via de longe em longe; tratava-o, porém, com um modo afetuoso e muitas vezes, quando a ausência prolongava-se, ela o recebia com alguma demonstração mais expansiva, como sucedeu na sua volta do Recife. 

Eram estas as recordações que a donzela ainda repassava na memória, recostada à janela, no momento em que arnaldo a avistou. Depois vieram as reminiscências dos últimos tempos até aquela tarde, em que o sertanejo excedera-se a ponto de forçá-la quase a um ato violento. 

(continua...)

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