Por Franklin Távora (1878)
- Se desta não morrer, hei de vingar-me ainda de João da Cunha. O que ele devia a Antonio Coelho há de pagar a mim, quando tivermos de ajustar as nossas contas. Estão muito anchos com o sucesso, esses infames mazombos. Já pensam que os mascates se acabaram de uma vez. Estão enganados. Hei de ver ainda João da Cunha e Cosme Bezerra correrem as ruas de Goiana, amarrados com cordas pelas minhas mãos, como se fossem negros fugidos.
Estas palavras foram proféticas. Mas não antecipemos acontecimentos que tem lugar próprio na continuação desta historia.
Diz-se que Zefinha faleceu a cabo de algumas semanas, depois do lastimoso fim de Antonio Coelho, e da prisão do pai e dos irmãos. Atribuem seu falecimento à profunda impressão que produziram nela tão estranhos e cruéis golpes.
Porque não havia de ser assim?
Era uma excelente alma a rapariga.
XXIX
Lourenço tinha tirado para o engenho à desfilada, e antes de chegar ai nuvens de fumo já lhe tinham indicado o que ele suspeitava, pelo que fora vendo ao sair da vila. Em seu trajeto do Cajueiro para esta, os bandoleiros de Pedro de Lima tinham posto fogo nos canaviais, e casas fechadas ou desamparadas, que ardiam agora como se a terra por ali, na combustão primitiva, lhes houvesse comunicado o incêndio.
- Não há que duvidar - disse o rapaz. Andaram por aqui os ladrões. Estiveram no engenho, e quem sabe o que por lá fizeram?
Como tinham cortado quase por dentro do mato os bandoleiros, pode o rapaz chegar ao Cajueiro sem com eles se encontrar; e cedo testemunhou com seus próprios olhos, dando de face com a casa de Vitorino, o estrago, o desbarato, as ruínas, que ai deixara a horda sem freio.
Das portas algumas tinham sido arrancadas, outras postas por terra. Só as janelas estavam nos seus lugares. Lourenço não pode fugir de entrar, não obstante sua pressa em chegar à casa grande. O estado interior da habitação do almocreve não era mais animador do que o seu estado exterior. Tamboretes, caixas de madeira, giraus de varas, potes, estavam despedaçados e destruídos. Lia-se ali só perversidade, porque nesses moveis e vasilhas ninguém suspeitava a existência de objetos que pudessem tentar a cobiça, e explicar até certo ponto a sua violação ou arrombamento. E para onde teriam fugido as mulheres? inquiriu de se para se o matuto. Ao montar de novo, o espirito cheio de pesar e incertezas, lançou Lourenço as vistas casualmente ao chiqueiro, onde Joaquina tinha o cevado, que devia dar uma fartadela à família no dia de S.Thomé. A sangueira, que cobria o chão desde o chiqueiro até a meia-agua de palha, a cuja sombra as mulheres lavavam a sua roupa, fazia certo que o cevado passara pela execução capital antes do dia aprazado, e que se tinham aproveitado dele, não a família, que devia encher de alegrias, mas os salteadores e assassinos. O banco de lavar roupa, coberto de sangue, e aos pés dele uns restos de palha queimada indicavam que ali mesmo se praticara o cruento sacrifício.
Triste e colérico ao mesmo tempo, Lourenço prosseguiu o caminho.
Adiante apareceu-lhe a casa de Manoel das Dores, matuto muito pegado com Victorino, de quem se dizia contra-parente. Este sujeito era solteirão do lugar. Vivia muito metido consigo mesmo, e só uma vez ou outra surgia sem ser esperado em casa dos vizinhos.
Ainda de longe o rapaz reconheceu que por ali passara também o devastador soão. As portas, às escancaras, deixavam à mostra a destruição efetuada dentro. Não havia ficado ai pedra sobre pedra. Pela estreita sala viam-se espalhadas esteiras e roupas velhas. O chão fora revolvido à ponta de espada ou de ferro-de-cova. Praticando assim, os salteadores deixavam manifesta a sua intenção. Tinham procurado dar com o mealheiro em que se dizia guardava o velho a pratinha que podia ajuntar.
- Oh meu Deus! Não vejo ninguém. Onde se meteu esse povo? Nem morador nem negro do engenho! Parece que todos fugiram para o mato com medo dos ladrões.
Estas palavras escaparam dos lábios de Lourenço como uma dor que não cabia no coração.
Adiante da casa do velhote, era a de Sabino, em cuja companhia morava Saturnino. Do lado de fora, ao pé da porta da frente, via-se um volume imóvel, no meio de uma poça de sangue, por cima do qual esvoaçava um enxame de moscas. Era o cão de Sabino, que por ser fiel defensor da morada de seu senhor, e ter feito fortes e repetidas investidas sobre os assaltantes, para impedir que entrassem, recebera uma bala, que o deixou por terra, com a cabeça aberta e a língua a nadar sobre sanguinolento escumeiro.
Começou a impressionar-se Lourenço com esta solidão, este deserto cruel em que só se lhe deparavam indícios de atrocidades e carnificinas, de fraqueza e terror.
Tinha já descoberto o oitão da casa grande e ia passar para ela por entre a capela e o pomar, quando um vulto se lhe apresenta do lado dos canaviais. Afirmando a vista, reconheceu Marianinha.
Correu para ela tomado de súbita alegria. As antigas reservas e aborrecimentos não lhe lembraram nesse momento. A presença da moça fora como um raio de luz que atravessara as densas sombras que enchiam o espirito do rapaz.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.