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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Tomada esta resolução, sobreveio-lhe um receio acerca da cautela passada pelo negociante como capitalista da empresa. Não recordava-se de ter visto o papel desde muito tempo, talvez três anos. Onde andaria? Na queima que fizera em vésperas de casar-se, teria sido poupada essa inutilidade? 

Grande importância devia Seixas ligar a esse negócio, pois estando já a trabalhar na repartição, interrompeu sua rigosora assiduidade. Meteu-se em um tílburi, e correu à casa, esperando achar-se de volta em uma hora. 

 

VII 

 

Deviam ser onze horas, quando o tílburi chegou a Laranjeiras. 

Seixas embora não pensasse em ocultar-se, desejava para não despertar a curiosidade, que em casa se não apercebessem de sua volta. Mandou parar o tílburi a alguma distância, e subiu sem rumor a escada particular que levava a seus aposentos. 

A porta do gabinete estava fechada interiormente, e ele esquecera essa manhã de levar a chave. Foi obrigado portanto a dar a volta pela saleta. Àquela hora Aurélia e D. 

Firmina costumavam estar no interior; passaria sem que o vissem. 

Estranhou achar a porta da saleta cerrada, embora não fechada com o trinco; supôs que não estando presa ao rodapé pelo ferrolho, o vento a tivesse encostado. 

Empurrou-a devagar e entrou, para estacar na soleira pálido e estupefato. 

No sofá colocado ao longo da parede, que lhe ficava à esquerda, viu Aurélia sentada, e conversando de um modo animado e instante com Eduardo Abreu que ocupava a cadeira próxima, e tinha a cabeça baixa. 

Erguendo os olhos sem animar-se a fitá-los na moça, deu o mancebo com o vulto transtornado de Seixas em pé na porta, a encará-lo; e levantou-se por um impulso irresistível. 

Foi então que Aurélia avistou o marido, cuja presença imprevista e semblante demudado a perturbaram, mas rápido, quase imperceptivelmente. Com a segurança que tinha de si, prontamente recobrou-se. 

- Pode entrar, Fernando! disse ela a sorrir. 

- Não quero perturbá-los, respondeu Seixas desprendendo a custo a voz dos lábios secos. 

- O negócio é urgente, tornou ela, mas pode bem suportar a demora de alguns minutos. Sente-se, sr. Abreu! 

Seixas dera alguns passos automaticamente pela sala adentro. 

- Não foi hoje à repartição? perguntou Aurélia para disfarçar a confusão dos dois, o marido e o hóspede. 

- Voltei à procura de um papel que me esqueceu. Com licença! 

Seixas aproveitara o primeiro ensejo para fugir desse lugar, onde temia representar alguma cena ridícula ou medonha. Fazendo um cumprimento a esmo, retirou-se apressado na direção de seus aposentos. 

Se até ali tinha necessidade de dinheiro, agora mais do que nunca. Foi direto à sua secretária; abriu a gaveta onde guardava os seus papéis antigos; espalhou-os pelo tapete de mistura com outros objetos, e encontrando afinal a cautela que procurava, saiu precipitadamente pela escada particular. 

Parou na porta para deixar passar o Abreu que descia; quando o viu de longe, meteuse no tílburi e voltou à cidade. 

Aurélia logo que o marido retirou-se, estendeu  a mão a Abreu dizendo-lhe: 

- Não tem o direito de recusar, e espero que não me prive desta satisfação. Adeus, seja feliz. 

O mancebo apertou comovido a mão gentil que lhe era oferecida com tanta sinceridade e balbuciando expressões de reconhecimento, despediu-se. 

Apenas ele desapareceu na escada, Aurélia dirigiu-se ao gabinete do marido. Bateu à porta, e chamou-o; não recebendo resposta, entrou. A primeira coisa que viu foi a gaveta da secretária escancarada, e a ruma de papéis atirada sobre o pavimento. 

A moça certificou-se que Seixas não estava em casa; adivinhou que saíra pela escada particular  cuja porta fechara levando a chave. 

Lançando um olhar aos papéis esparsos e resistindo à ânsia de conhecer aquelas relíquias de um passado, que não lhe pertencia, encaminhava-se à porta para sair. Eis que descobriu entre os maços de cartas, um trabalho de tapeçaria. 

Apanhou-o para examinar, com simples curiosidade artística. Era uma fita de marcar folha de livro. Tinha bordados a fio de ouro, de um lado a palavra amor; do outro lado em semicírculo o nome Rodrigues de Seixas; no centro do qual estava um monograma composto de um F e um A entrelaçados. 

Esta prenda de Adelaide Amaral, e a alusão ao próprio casamento feita na comunidade do apelido, não diziam novidade a Aurélia. Ela sabia coisas talvez mais pungentes para seu amor; porém o tempo já as tinha expungido da memória. Eram a cicatriz que essa lembrança crua veio reabrir e ulcerar. 

Todo aquele passado doloroso, de que mal começava a desprender-se, surgiu de novo ante ela, como um espetro implacável. Curtiu novamente em uma hora imóvel todas as aflições e angústias, que havia sofrido durante dois anos. Esta fita escarlate queimava-lhe os olhos e os dedos como uma lâmina em brasa, e ela não tinha forças para retirar a vista e a mão das letras de ouro e púrpura, que entrelaçavam com o nome de seu marido, o nome de outra mulher. 

(continua...)

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