Por Franklin Távora (1878)
Eles tinham chegado ao pé de uma das arvores que da margem estendiam sua grande copa sobre o rio. Perto desta arvore levantava-se um armazém, feito de tábuas, onde se fazia o embarque dos açúcares, e o desembarque dos gêneros importados pelas barcaças, quando a maré estava cheia e elas podiam ficar ao nível da estiva do armazém, do lado que entrava pelo rio sobre solidas estacas. Nesse momento a maré cheia dava ao rio a sua natural plenitude, e a Borboleta, livrando-se sobre as águas banzeiras que acusavam a aproximação da preamar, estava em comunicação com o tosco trapiche por meio de uma prancha que para ele partia do embono de bombordo. Coelho, sem perder mais um instante, arrastou d. Damiana contra a vontade dela para dentro do armazém, e, todo preocupações e temores pela sua salvação, indicou-lhe a Borboleta, que aparecia no fim da estiva. - Correi, senhora, entrai na barcaça, mandai atirar dentro da água a prancha, e ordenai, em meu nome, que sigam incontinenti rio abaixo. Nada temais, que eles daqui não hão de passar. Contê-los-hei.
Disse, e retrocedeu acesso em brio, mas pálido como um cadáver. Seu olhas fuzilava. Os músculos, obedecendo às impressões nervosas, experimentavam súbitos estremecimentos. A terra parecia fugir-lhe sob os pés, ao mesmo tempo pesados e céleres. - Meus amigos – gritou ele, alguns passos distante do trapiche, dirigindo-se ao magote que vinha para seu lado, até onde quereis levar o vosso desforço? A lição satisfaz. A nobreza está vencida em Goiana. tratemos agora de ir vencê-la no seu reduto principal – em Olinda. Não percamos tempo.
- Então, do bando que corria com as armas nuas reluzindo ao sol, um grito partiu, e não foi preciso mais, ouvindo-o, para que o chefe dos mascates compreendesse que se enganara e que seus dias, esses, sim, estavam contados. Ainda falas, mascate infame?!
Seguiu-se uma cena, só própria de canibais, mas que os excessos das paixões humanas estão reproduzindo todos os dias, ainda nos centros da mais adiantada civilização. Vários soldados da tropa que chegara, e que se haviam reunido aos fidalgos e a Francisco, ao saberem que eles vinham em demanda do negociante, de catanas desembainhadas se atiram sobre ele e covardemente o degolam.
Ao darem de face com este repugnante espetáculo, os fidalgos estacam horrorizados. Só um deles, a cabo de um momento de confusão, que se diria antes remorso, pode proferir estas palavras:
- E minha mulher? Onde está ela? Onde está a senhora d. Damiana?
Na Borboleta – lembrou Luiz Vidal. Corramos. Mas eis que perto deles soa um grito, que não só traz a tranqüilidade, mas descomunal prazer ao espirito de todos.
- Aqui estou, minha gente. E vós salvo, Sr. João da Cunha! Foi Nossa-Senhora-do-rosario quem vos salvou. Os fidalgos apertaram em seus braços a senhora-de-engenho, a cujo encontro fora Francisco o primeiro que correra.
- Em poucas horas tudo estará acabado e pacificado – exclamou o sargento-mór. Os mascates serão vencidos, os populares hão de ter uma rude lição.
- E até os frades também hão de ter a sua, para não serem tão audazes e metidos nas coisas do mundo – acrescentou Luiz Vidal. E Antonio Coelho? interrogou d. Damiana, que ainda ignorava o trágico fim do negociante. Deste estamos livres. Hei-lo ali morto, degolado – respondeu o sargento-mór, apontando para o cadáver que a poucos passos se mostrava rodeado pela mó de soldados, agora ocupados em apanhar o ouro, que, na ocasião de cair, se lhe entornara das algibeiras.
- Morto! Morto! Fostes cruéis, senhores! Exclamou como alucinada a senhora-de-engenho. Quem praticou tamanho latrocínio? Oh meu Deus! Que horror!
- Não foi nenhum de nós – responderam Francisco e Filipe ao mesmo tempo.
Não foi nenhum de nós, repetiu o sargento-mór, fitando na mulher seu olhar inflamado e a modo de pasmo. Mas eu o mataria, se fosse eu o primeiro a encontra-lo. Era um espirito danado.
- Engana-vos. Era uma alma generosa, um bom coração; era um mártir – respondeu d. Damiana em lagrimas. Ele ia a salvar-vos, Sr. João da Cunha, supondo em perigo a vossa vida. Oh! meu Deus, por que razão as grandes criaturas não se hão de entender melhor e formar uma companhia só na terra? Mas fujamos daqui. Não posso ter os olhos nesta desgraça que me esmaga.
E a senhora-de-engenho foi a primeira que deu o exemplo da retirada.
Era tempo de se ausentarem todos desse ponto deserto, porque Luiz Soares, batido fortemente pelo ajudantede-tenente Gil Ribeiro, pelo ajudante Felipe Bandeira e pelo capitão Antonio Rabelo, demandava esse lado para escapulir-se com sua gente. Conseguiu-o, com mais quinhentos, entre Paraibanos e portugueses. Enfim, segundo anunciara o sargento-mór, algumas horas depois Goiana estava pacificada.
Mas era contristador o aspecto que apresentava, como facilmente se imagina. O saque tinha deixado nas casas vestígios profundos de sua passagem fecunda em ruínas e desastres. O sangue manchava a terra, berço de tantos heróis ilustres e afamados. No Pátio-do-Carmo, de mistura com vários cadáveres pertencentes aos invasores, viam-se alguns das forças legais, e muitos da escravatura de João da Cunha.
Jeronimo Paes, os filhos, Belchior, e outros proeminentes vultos do partido vencido tinham sido presos, e daí a três dias seguiam para Olinda, no meio da tropa vitoriosa de Gil Ribeiro. Paes mal podia consigo. Recebera durante a luta nove tiros, e inumeráveis cutiladas na cabeça.
Conta-se que, por ocasião de lhe darem na prisão a noticia da morte de Coelho, dissera ele o seguinte, formais palavras:
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.