Por José de Alencar (1872)
- Se você tivesse querido, Inhá, disse timidamente Miguel, poderíamos ser tão felizes!...
- E você não é, Miguel? perguntou Berta fitando nele um olhar melancólico.
- Sou! respondeu o moço com um suspiro.
Houve um novo e longo silêncio. Foi Miguel quem outra vez rompeu:
- Meu sonho era viver aqui nesta casa onde nasci, com minha mãe e você, Inhá. Por muito tempo sorriu-me esta doce esperança; mas você não quis!
- Não diga isto, Miguel! exclamou Berta com a voz afogada em lágrimas.
- Quem me separa destes lugares e talvez para sempre?
Curvou Berta a cabeça e balbuciou:
- Lembre-se de Linda!
- Lembro-me daquela que foi companheira de minha infância, com quem folguei os primeiros anos da vida, e cuidei que havia de repartir minha pobreza e humildade. Quantas vezes supliquei a Deus que nos conservasse unidos sempre, e esquecidos aqui neste canto do mundo. Mas ela tomou para si unicamente a existência tranqüila e feliz que eu pedia para ambas, e aparta-me de si para longe!
- Miguel!...
Olhares ansiosos seguiam Berta, que afastava-se lentamente de Miguel na direção das Palmas.
Jão, vergado sobre o cabo da enxada e agitado por veemente comoção, parecia despedirse de si, para se precipitar aos pés da menina. Brás, cavado o semblante por violentas contorções, arrancava os cabelos da grenha ruiva, e mordia o beiço para não gritar. Zana estendia os braços hirtos, e no afã de alcançar Berta e aperta-la ao seio, rojava-se pela grama.
Miguel falava com fervor, e a fronte gentil da menina pendia com lânguida e meiga inflexão, como nenúfar que se debruça à beira do regato e não tarda a ser levada pela corrente que o enamora.
Afinal o moço enlaçou com o braço a cintura da menina, e a atraiu sem que ela lhe opusesse a mínima resistência. Pousando a cabeça trêmula no ombro de seu companheiro de infância, deixou-se Berta levar, embalada por um sonho fagueiro.
Cortou os ares um grito de angústia. Brás caíra ao chão como fulminado, e estrebuchava em uma violenta convulsão, soltando uivos estridentes.
Berta desprendeu-se dos braços do moço:
- Não, Miguel. Lá todos são felizes! Meu lugar é aqui, onde todos sofrem.
E rompendo o doce enlevo que a prendia um momento antes, soluçou:
- Adeus!...
Correu então para o mísero idiota e sentando-se na grama para deita-lo ao colo, ocupouse em afaga-lo.
Quando moderou o acesso e que ele pode ouvi-la, falou-lhe com profunda comoção:
- Eu sou Til!... Til só!...
Compreendeu Brás a significação destas palavras, e adivinhou quanta sublime abnegação exprimiam elas?
Nesse instante Miguel voltou-se além, na extrema do caminho onde ia sumir-se, e a brisa trouxe um eco de sua voz:
- Adeus, Inhá!...
Os lábios de Berta murmuraram frouxamente:
- Para sempre!
Jão de pé em face dela esmagava com os punhos as bagas que lhe saltavam dos olhos; enquanto o peito lhe estertorava com o pranto que tentava sufocar.
Berta pousou nele o seu brando olhar e disse-lhe com um sorriso:
- Vai trabalhar, Jão!...
Entrou em casa para consolar nhá Tudinha; e instantes depois se restabeleceu a cena plácida e melancólica do começo da tarde.
Quando o sol escondeu-se além, na cúpula da floresta, Berta ergueu-se ao doce lume do crepúsculo, e com os olhos engolfados na primeira estrela, rezou a ave-maria, que repetiam, ajoelhados a seus pés, o idiota, a louca e o facínora remido.
Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde não penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça.
Era a flor da caridade, alma sóror.
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.