Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Mas não era unicamente possessão dela pelo amor, que se operara em Seixas; era também a assimilação do caráter. 

Como todas as almas que se regeneram, a de Seixas exercia sobre si mesma uma disciplina rigorosa. Tinha severidades que em outras circunstâncias haviam de parecer ridículas. A desculpa, o inofensivo pretexto tomavam para ele proporções de mentira. A amabilidade constante e geral era a hipocrisia; os indiferentes não tinham direito senão à polidez, e não podiam usurpar os privilégios da amizade. 

Algumas vezes, Aurélia de parte o ouvira conversando acerca de outros reprovar essa existência de negaças e galanteios, em que ele consumira os primeiros anos da mocidade. Em qualquer ocasião revelara-se o seu modo grave e austero de considerar agora a sociedade, e de resolver as questões práticas da vida. 

Como uma cera branda, o homem de coração e de honra se formara aos toques da mão de Aurélia. Se o artista que cinzela o mármore enche-se de entusiasmos ao ver a sua concepção, que surge-lhe do buril, imagine-se quais seriam os júbilos da moá, sentindo plasmar-se de sua alma, a estátua de seu ideal, a encarnação de seu amor. 

Assim, apesar da esquivança que sucedera ao baile, o drama dessa paixão encaminhava-se a um desenlace feliz, quando um incidente veio complicá-lo, perturbando seu desenvolvimento e precipitando o desfecho. 

Já tinha se desvanecido a impressão da cena violenta, voltava aos poucos a calma intimidade. 

Fernando saíra para a repartição. Ao chegar à cidade avistou-se com um negociante seu antigo conhecido. 

- Estimo muito encontrá-lo. Tenho uma boa notícia que lhe dar. Aquele privilégio afinal desencantou-se. 

- Qual privilégio? Perguntou Seixas surpreso. 

- Ora! Já esqueceu? Não faz mais caso dessas ninharias? O nosso privilégio de minas de cobre... 

- Ah! Já sei! Atalhou o moço um tanto perturbado. 

- Pois o Fróis sempre conseguiu vendê-lo em Londres. Deram uma bagatela; cinqüenta mil cruzeiros. Em todo o caso é melhor do que nada, porque o tal cobre das minas, meu caro, eu já não esperava nem um tacho. Veio-me a notícia pelo último paquete; fazia tenção de procurá-lo todos os dias, e faltou-me o tempo. Felizmente encontrei-o. 

Desculpe. 

- Não há de que, sr. Barbosa. 

- Deduzidas as despesas que se fizeram, toca-nos a cada um coisa de quinze mil cruzeiros e pouco. Quando quiser receber sua parte, é mandar-me a cautela que lhe passei.

- A cautela? 

- Aposto que a vendeu? 

- Não; devo tê-la em casa. 

- Pois à vista dela... Passar bem. 

Despediu-se o Barbosa, e Seixas continuou seu caminho, mas distraído e perplexo. A notícia dada pelo negociante sugeria-lhe várias e encontradas reflexões. 

Aquele privilégio era um póstumo da antiga existência, que findara-se com o seu casamento. Começara a desenvolver-se a febre das empresas; um espertalhão teve a idéia da exploração de umas minas de cobre em São Paulo; e para obter a concessão lembrou-se de associar à especulação um negociante que fornecesse fundos, e um empregado que abrisse os canais administrativos. 

Seixas achava-se em relações com o Fróis, e veio a ser o empregado escolhido. A seu pdeido o requerimento subiu ao ministro, como um balão, cheio de gás de pomposas informações. O despacho não se demorou. O oficil de gabinete o alcançara fumando um charuto com seu ministro, e dando-lhe os mais amplos esclarecimentos, não sobre a projetada empresa, mas sobre uma bela mulher, por quem a excelência se apaixonara. 

Concedido o privilégio, tratou o Fróis de negociá-lo, muito esperançoso de obter pelo menos uns trezentos mil cruzeiros. Mas essas esperanças mofaram, e os três associados chegaram a acreditar que suas minas de cobre em papel não valiam menos de que o tacho velho, pelo qual os carcamanos sempre dão uma meia pataca. 

Seixas não pensou mais nisso, e desde então ficou na ignorância das tentativas do 

Fróis e de seus cálculos de probabilidadem até receber nesse momento a notícia da venda do privilégio, que lhe trazia de repente e inesperadamente um lucro de quinze mil cruzeiros. 

O primeiro e o mais vivo movimento que em Seixas produziu a notícia foi de alegria pelo ganho dessa quantia que tinha para ele um preço incalculável. Assaltou-o porém, certo desgosto, pela origem daquele dinheiro. A intervenção de um empregado público nestes negócios, se outrora lhe parecera lícita, já não era apreciada por ele com a mesma tolerância. 

Quaisquer porém que fossem seus escrúpulos, ele carecia desse dinheiro, e julgava-se com direito de empregá-lo em serviço de tamanho alcance, como era aquele a que o destinava, salva mais tarde a restituição da quantia por um meio indireto, para descargo desses escrúpulos de consciência. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8485868788...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →