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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Verificou sua primeira suspeita. O corredor passava por baixo do quartel e ao lado do calabouço. Cavando uns palmos à sua esquerda, deu com a muralha da cisterna, e sem mais demora começou a arrancar a argamassa com a ponta da faca e a tirar os tijolos. 

À meia-noite estava concluído o seu trabalho e feita a brecha. Mal tirara o último tijolo sentiu um sôpro nas faces e o contacto de uma mão forte, como a garra de uma onça. Anhamum ouvira o rumor, percebera a natureza do trabalho, e sem compreender a quem devia a salvação esperou-a. 

Arnaldo conduziu o selvagem fora da caverna sem trocar uma palavra, alí apontou-lhe a floresta, pronunciando uma palavra tupí:  

— Taigoara! 

O rapazinho não sabia a língua dos selvagens; mas retivera algumas palavras e uma delas era essa, que significa livre. 

O selvagem com um ente de seu colar de guerra sarjou a pele, fazendo uma marca simbólica por cima do peito esquerdo, e afastou-se proferindo uma palavra cujo sentido Arnaldo ignorava. 

— Coapara. 

Só depois veio a saber o rapaz que êsse vocábulo traduzia-se em português por camarada, mas queria dizer tanto como amigo dedicado. 

No dia seguinte, Flor apareceu triste, com pena do selvagem que supunha condenado a morrer. Arnaldo para desvanecer essa mágoa contou em segrêdo à menina que êle tinha livrado o chefe dos Jucás da prisão. 

Poucas horas depois descobriu-se a evasão que deixou tonto por muitos dias ao nosso amigo Moirão. Desde então deu êle por provado que Anhamum era de fato irmão do diabo; do que duvidara até alí por não lhe constar que Satanaz, o verdadeiro, fosse caboclo. 

Não se explicava a evasão do selvagem. O alçapão não fôra aberto; Aleixo Vargas dormira em cima; a cisterna estava intacta; somente notou-se que a argamassa de um lado estava fresca; mas atribui-se à umidade. 

O capitão-mór estava no auge da sua ira sempre formidável, e embora repelisse a idéia de atrever-se alguém a auxiliar a fuga do selvagem, protestava, se tal coisa houvesse acontecido, condenar o criminoso a ser enterrado vivo. 

No meio das indagações que fazia o potentado, apareceu D. Flor, que ouvindo falar do acontecimento, exclamou: 

— Eu sei quem foi! 

— Quem deu escapula ao gentio? perguntou o capitão-mór. 

— Sim, meu pai. Foi Arnaldo. 

O capitão-mór ouvindo êsse nome voltou-se com um senho terrível para o rapazinho também alí presente: 

— É verdade! disse o filho do Louredo tranquilamente. 

Flor não medira o alcance de suas palavras. Maravilhada com o heroísmo de seu camarada, cuidou que os outros o admiravam como ela, e quis restituir a glória da proeza a seu desconhecido autor. 

O capitão-mór desprendera o seu grosso e pesado riso. 

— Então foste tu, pirralho?… Ora já viram! 

— Não foi êle não, meu pai! acudiu Flor, que havia caído em si. Eu estava brincando! 

— Que não foi êle, bem o sei, e ainda bem, que essa graça lhe custaria a pele e os ossos. 

Fôra o prodigioso da emprêsa que salvara Arnaldo. Se para um homem forte já a consideravam desmarcada, como acreditar que a praticasse um menino? 

Arnaldo não dirigiu a Flor a menor exprobração. Foi a menina que, desvanecido o susto, aproximou-se dele prara dizer-lhe em segrêdo: 

— Você ia morrendo por minha causa, Arnaldo. 

O rapazinho fitou nela os olhos. 

— E por quem hei de eu morrer, Flor? 

A menina corou e esteve todo êsse dia preocupada. 

Por essa época morreu o Louredo. Tinha êle feito uma pequena ausência na fazenda; na volta deitou-se como de costume em sua rede, embrulhou-se nela e no dia seguinte acharamnomorto. 

Arnaldo sofreu profundamente com êste golpe. Todos os sentimentos dêsse menino tinham a pujança e energia de sua organização, o amor como o ódio, a ternura como a ira, eram nele paixões violentas, veradeiras irrupções d’alma. 

Pouco depois completou Flor quatorze anos; e desde então um impulso natural começou a separá-la da companhia e intimidade em que até alí vivera com Jaime e Arnaldo. O instinto feminino que desenvolvia-se com a adolescência, inspirava-lhe o recato. Já não se animava a passear só pelo mato com o primo ou o colaço, nem consentia que êles a suspendessem nos braços, como faziam outrora. 

Não pensava ela que houvesse algum mal nesses folguedos a que se entregava dantes com tanto prazer; mas agora causavam-lhe uma perturbação, que de certo modo ofendia a sua altivez nativa. Porisso esquivava-se às excursões e passeios, demorando-se mais ao lado de sua mãe, para fazer-lhe companhia. 

Alina, que tinha gênio mais romanesco, inventava aventuras caseiras, para substituir as travessuras campestres. 

Na novela ou auto da loura menina, Flor vinha a ser princesa ou rainha, cuja formosura enchia o mundo com sua fama, e cuja mão era pretendida por todos os príncipes cristãos. O mais belo, e também o mais bravo dêsses campeões, era o príncipe por excelência, representado na pessoa do sobrinho do capitão-mór. 

(continua...)

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