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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

— Assim, rapariga. 

Aproximava-se a Maria dos Prazeres, choteando no machinho: 
— Sempre escapaste, menina? 
— Então, mamãe. 
— Jesus! Vi-te em pedacinhos, debaixo dos pés da endemoninhada da besta. Sou capaz de jurar que está espiritada. 
— Mamãe teve muito susto? 
— Ainda tu falas! Estou sem pinga de sangue. 
Entretanto o Canho, tendo enrolado o laço, tocou na aba do chapéu e saltou sobre o Juca.
— Até mais ver, senhores! 
— Também nós vamos, disse Lucas Fernandes. Anda, Catita. 
A rapariga arregaçando a saia de montar, e apoiando a ponta do pé no bocal do estribo, pulou na garupa do cavalo em que montava o pai. 
— O senhor que rumo segue? perguntou o miliciano. 
— Parei aqui para descansar, respondeu o Canho, iludindo a pergunta. 
— E o mais é que precisamos fazer o mesmo. Não achas, Vidoca? 
— Que dúvida, Sr. Lucas. Eu estou que não posso comigo; então com este susto, estão me tremendo as carnes, como se tivesse frio de maleita. 
Contrariado por esta companhia que lhe viera tão fora de propósito, e cogitando algum meio para descartar-se dela, o Canho dirigia-se para restinga de mato onde estivera deitado. Era o único lugar, que por ali havia, próprio para descanso, não só pela boa sombra, como pela proximidade d’água. 
Examinando com atenção disfarçada o gaúcho, Fernandes desconfiava que sob aquela reserva taciturna havia algum mistério, que ele procurava com afinco perscrutar. 
Naqueles tempos de agitação, que precederam a guerra civil, a suspeita do miliciano era natural. A conspiração lavrara surdamente por toda a província; e receava-se de um momento para outro a explosão. 
Depois de alguns instantes de observação, Lucas reatou a conversa. 
— Nós cá vamos para Piratinim visitar a madrinha de Catita, minha irmã Fortunata, que nunca viu a afilhada, depois que se fez moça. Se o senhor também segue este caminho, iremos juntos. 
— Não sei ainda que rumo tomarei. Tem seus conformes. 
— Está bom. Vejo que não quer que se saiba. 
Neste ponto, pela estrada que lhes atravessava em gente, na distância de duas braças, passou um cavalo ruço pedrês, baralhando em rápida guinilha. Ia montado por um peão com poncho de baeta encarnada e levava de garupa uma rapariga de seus vinte anos. Com o vento, a saia de chita da rapariga levantava, mostrando as pernas bem torneadas e descalças. 
Catita reconheceu a Missé, e disse-lhe adeus: 
— Também vamos chegando para a festa, exclamou a rir o peão, e não era outro senão Chico Baeta. 
Sabendo que a revolução ia rebentar em Piratinim, o rapaz deitou a roupa na carona, a namorada na garupa, e transportou-se com tudo quanto possuía para sua nova residência. 
Tinham os viajantes chegado ao capoão onde Félix e Maria dos Prazeres tratavam de arranjar, sobre a grama, a refeição que tiravam dos alforjes. 
 
 
IV 
CONHECIDOS 
 
Catita, sempre tão pronta para ajudar a mãe quando era preciso, agora sentada à parte sobre a relva, fitava longos olhos no gaúcho, ocupado em arrear o alazão, para se pôr a caminho quanto antes. 
No olhar da rapariga brilhavam diversos sentimentos, como em um raio de luz cintilam várias cores do prisma. 
Admirava-se Catita da indiferença de Manuel. Ela sabia que era bonita; e quando não fosse tanto como lhe diziam constantemente, não se julgava indigna de merecer um olhar, ao menos de curiosidade. Esse homem que tinha corrido em socorro seu, parecia nem já se lembrar que ela existia e ali estava perto dele. 
Contudo não perdera a esperança de atrair a atenção do gaúcho, e por isso lhe estava deitando aqueles olhares dengosos, capazes de enfeitiçar um morto. Lá tinha um certo pressentimento que o rapaz, voltando-se para ela, não partiria assim com aquele desapego. 
Mas não era só a faceirice que tinha a rapariga enlevada na contemplação do gaúcho. Essa fisionomia sombria, mas enérgica, a impressionara. Ela adivinhava, sob aquela aparência concentrada e fria, o fogo intenso da paixão, sopitado, como a chama do betume que lastra por baixo d’água. 
Ao mesmo tempo esse perfil saliente, de traços acentuados, acordava no fundo de sua memória vagas e indecisas reminiscências, que deviam estar ali desde muito tempo adormecidas. Não sabia a moça se já tinha visto este semblante, ou algum com ele parecido. 
Um momento, a vista do gaúcho encontrou o olhar fito da rapariga, e desviou-se com desgosto, como se a tivesse ferido alguma luz muito viva. 
Nesse movimento descobriu imóvel, em frente dele, Lucas Fernandes que traçou rapidamente com a mão direita um sinal cabalístico. Manuel sem mostrar surpresa nem dar grande importância ao acidente, reproduziu o sinal. 
Aproximou-se então o miliciano com vivacidade, e travando da mão ao gaúcho, deu-lhe o toque simbólico, soprando ao ouvido uma palavra misteriosa. 
Com esse reconhecimento, que revelava a existência de um vínculo secreto entre ambos, o Lucas Fernandes pouco adiantou na confiança de Manuel, que se manteve na mesma reserva. 
Embora dedicado e com entusiasmo ao serviço de uma causa, nem por isso a pouca estima que a raça humana inspirava em geral ao gaúcho, se tinha amortecido. Ao contrário, mais em contato com ela, sua alma sentia-se por assim dizer esfrolada ao atrito das paixões torpes e ignóbeis que truaneavam diante dele. 
Para Manuel a causa a que se dedicara era um homem, e nada mais. A afeição que recusava à sua espécie se concentrara ultimamente em um indivíduo. Bento Gonçalves se tornara para ele um símbolo, uma veneração. Tinha pelo velho guerreiro admiração profunda; e enchia-o de orgulho a idéia de estar ligado a ele por um laço espiritual. 
Não sabia Manuel o que intentava o coronel; e nunca se preocupara com isso. Para quê? Sua missão era acompanhar, servir, defender o seu homem, e morrer quando fosse preciso para salvá-lo ou para vingá-lo. por isso, apenas Bento Gonçalves fora demitido do comando da fronteira de Jaguarão e do 4º corpo de cavalaria, o gaúcho, pressentindo que ele tinha necessidade nesse momento de rodear-se de seus amigos mais leais, partiu logo para Camacã, onde se retirara o coronel. 
Bem se vê que importância ligava o Canho  à sociedade secreta em que o tinham filiado. No seu modo de ver não passava de um meio de se enganarem os homens uns aos outros. Para servir o coronel ele não queria nem companheiro, nem ajudante: gostava mais de fazer as coisas só.  
Como a refeição estivesse pronta, Maria dos Prazeres chamou o marido; e Félix aproximou-se impedindo as perguntas que Lucas ia dirigir ao Canho. 
— Vamos ao churrasco? disse o miliciano. 
— Nada; já estou pronto, e não tenho tempo a perder. 
— Precisamos falar, retorquiu o furriel com intenção. 
— Será para outra vez. 
Fazendo um cumprimento de través, montou o gaúcho o alazão, que escarvava a terra para devorá-la. Nesse momento, da tropilha que esperava a curta distância, avançou o Morzelo, que veio meneando a cauda farejar o furriel. 
De mau humor pela reserva e partida do Canho, o miliciano não reparou no cavalo; mas este começou a dar sinais manifestos de súbita alegria, soltando um ornejo que bem parecia um riso de prazer. Esta circunstância impressionou logo a Manuel; ele sabia que seus cavalos tinham o mesmo gênio arisco e desconfiado do dono; pelo que pareceu-lhe estranha aquela repentina afabilidade do Morzelo. 
— O senhor conheceu meu pai? perguntou de chofre o gaúcho a Lucas. 
— Seu pai?… repetiu o miliciano. 
Os dois olharam-se; só então se tinham lembrado, que nenhum sabia o nome do outro, apesar de estarem juntos e conversando havia meia hora.  
— João Canho, de Ponche-Verde! 
— Era seu pai? Ora, se o conheci, meu amigo velho de outros tempos, quando no continente havia homens, que hoje parecem mais bonecos de cheiro que outra coisa, sobretudo os tais lá de Porto Alegre. João Canho? Sabe de que idade nos conhecemos?… Espere!… 1798… eu tinha 12 anos e ele 14. Andamos juntos na escola em Rio Pardo. 
— Mas então o senhor é o furriel? 
— Isso mesmo. Depois, ele seguiu lá seu rumo até que nos encontramos no tempo de Artigas. Os dois Bentos, bem sabe, andavam sempre juntos; eu servia às ordens de um, ele era camarada do outro. 
— Estivaram em Taquarembó? 
— Em Taquarembó, em São Borja, em Catalã, onde filamos o Verdum. Naquele tempo não se fazia tantas partes, como hoje, para brigar. A gente passava o trabuco a tiracolo, encilhava o pingo, e era só farejar para sentir onde cheirava o chumasco. Agora para se fazer uma rusgazinha de nada, são tantas as histórias que já aborrecem. 
— Mas cá o Morzelo, ele também o conhecia, que está aí a fazer-lhe tantas festas? 
— Ah! é verdade! exclamou o furriel atentando para o animal. Não tinha reparado; é o cavalo do Canho? Pois não me havia de conhecer! Fui eu que o salvei, e deu-me que fazer! Uma doença dos diabos. 
— Lembro-me. Quando o pai foi a Montevidéu? Por sinal que ele voltou no cavalo do senhor. 
— Se o Morzelo não podia nem se mexer. Então você conheceu o Lucas, hein, meu velho? disse o furriel amimando o pescoço do cavalo. 
Manuel era outro. Uma expressão de alegria expansiva se tinha derramado por seu rosto, antes carrancudo. Sem sentir, apeara-se para melhor prestar atenção às palavras do furriel, e se embebera completamente nas reminiscências que lhe falavam de seu pai. 
— Então não quer mesmo? perguntou o miliciano, designando com um gesto o lugar onde estava a mulher convidando-o para comer. 
— Jante o senhor, que eu espero. 
Sentaram-se os cinco viajantes na grama, ao redor de alguns pratos com churrasco, bolachas, bananas e laranjas. 
O Lucas tanto comia, como falava; e Manuel escutava com prazer a evocação de fatos que ele tantas vezes, em criança, ouvira dos lábios paternos. 
De quando em quando porém, sentia o gaúcho um constrangimento, encontrando os olhos negros de Catita fitos em seu rosto com uma insistência que ele não compreendia. Esse olhar curioso e ao mesmo tempo provocador, fazia-lhe o efeito de uma farpa no flanco de um touro.
— Come, Catita. Estás aí pasmada! 
— Não é para menos, acudiu Félix. O susto que ela teve! Escapou de pinchar-se do barranco abaixo. 
— Maria Santíssima! exclamou Vidoca. 
— Lá isso, não, atalhou o Canho; na sanga não caía. 
— Se já estava quase na beira! 
— Mas eu tinha meu laço. 
Os outros riram. Catita indignou-se: 
— Então o senhor queria laçar-me? 
— Pois que dúvida!… 
— Se fosse capaz, eu… 
A rapariga articulava estas palavras pálida e com um tom de ameaça, mas não pôde concluir; a voz finara-se no lábio balbuciante. Ergueu-se despeitada, vendo o ar desdenhoso com que Manuel pela primeira vez a encarava. 
 
 
V  
REBULIÇO 
 
Fatos de suma gravidade se passavam por aquele tempo. 
O partido republicano, de quem Neto era a alma, senão a cabeça, tinha visto com intenso desgosto a hesitação de Bento Gonçalves em proclamar a revolução. Acreditando que justamente irritado com a demissão, o coronel romperia abertamente contra a presidência, esperavam os radicais se apoderarem do movimento para mais tarde em ocasião oportuna o dirigirem a seus fins; o que realizou-se com efeito em 1836, depois da prisão de Bento Gonçalves, vencido no combate do Fanfa. 
Conhecendo, porém, que da próxima regência de Feijó confiava o coronel obter reparação dos agravos que sofrera e garantias para o seu partido, os republicanos temeram perder a disposição favorável dos espíritos, criada pela demissão do homem de mais influência da campanha, e resolveram precipitar o acontecimento. 
O dia 7 de setembro, aniversário da independência, foi marcado para a revolução, que devia romper ao mesmo tempo na capital e outros pontos da província. Não podendo, nem lhes convindo, dispensar um chefe tão prestigioso como Bento Gonçalves, era sob a invocação de seu nome, que tudo se fazia. 
Neto estava em Piratinim, onde procurava reunir ocultamente alguma força com que marchasse sobre a capital e Rio Grande, sendo preciso. Sita em uma eminência, cercada por bibocas e serras cobertas de mato, essa vila oferecia condições favoráveis à defesa no caso de ataque. Por essa razão, e também por sua posição topográfica, foi ela escolhida para centro do movimento. 
Para aí pois tinham convergido os mais ardentes partidistas da revolução, aqueles que desejavam tomar nela uma parte ativa, e ter a glória de pelejar os primeiros combates em pró da libertação da província. Entre estes, um dos mais prontos fora o Lucas Fernandes, que, a pretexto de visitar a irmã, se transportara com a família para o foco da revolução. 
Chegando à vila na noite do dia em que os deixamos descansando para concluir a jornada, o Lucas não consentiu que Manuel procurasse outro rancho, senão a casa de sua irmã. Não só devia ele essa atenção ao filho de seu velho amigo, como sorria-lhe a idéia de ter por companheiro das novas lutas, o herdeiro do nome e da coragem de seu antigo camarada João Canho. 
Aceitou Manuel pousada por aquela noite, contando partir pela madrugada. Embora o coronel lhe permitisse descansar na estância de Bento Manuel, o que não fizera, podendo portanto demorar-se em Piratinim; contudo desejava o mais depressa possível tranqüilizar o espírito de seu padrinho a respeito do desempenho da comissão. 
O Lucas, porém, não o deixou partir só; sabia que o gaúcho ia a Camacã, e aproveitou o ensejo para ver e aproximar-se do coronel. O antigo miliciano acudira ao apelo de Neto; mas combater sob as ordens imediatas de Bento Gonçalves era uma honra, que ele compraria a custo dos maiores sacrifícios. 
Lá se foram portanto os dois à estância de São João, onde acharam o coronel ocupado em trabalhos rurais. Teve Lucas uma primeira surpresa; pensava ele ver ali já pronto um pequeno exército, e Bento Gonçalves à sua frente, disciplinando-o para a guerra. Lembrou-se porém que talvez fosse necessário não originar suspeitas nos legalistas para apanhá-los desprevenidos. 
Esperou que o coronel lhe falasse a respeito da revolução; mas correndo os dias sem que isto sucedesse, e aproximando-se o 7 de setembro, animou-se ele a tocar no assunto. 
— Qual, revolução! Deixe-se disso; vá para casa e fique sossegado.  
Desta vez azoou completamente o furriel; e por muitas horas não esteve em si. Foi pedir explicações a Manuel, que não podia dá-las. Este nada sabia, nem indagava. Em Bento Gonçalves precisando de seu braço estava pronto sempre; cumpriria suas ordens, sem inquirir da razão e fim.  
Até que raiou o dia 7 de setembro, tão ansiosamente esperado. 
Lucas Fernandes largou-se para a Capela, como chamava então o povo a freguesia do Viamão, por causa da ermida de Nossa Senhora da Conceição, edificada em 1751. É um sítio aprazível, a quatro léguas da capital, de que forma um arrebalde muito concorrido em dias de festa. 
Havia ali grande animação no dia 7 de setembro de 1835. Desde muito cedo viam-se pelas ruas bandos de gente do povo, e especialmente peonada, percorrendo as ruas em trajes domingueiros, e com uma faixa verde e amarela. As mulheres traziam o emblema das cores nacionais a tiracolo, os homens na cinta ou no chapéu. 
Entrando em uma venda, onde estava de bródio uma grande porção de gaúchos a galhofar e beber, o furriel criou alma nova. 
— Hoje é hoje! dizia um da roda piscando o olho para os outros. 
— Dia grande, dia de mata galego, acrescentou outro. 
— Vão pagar o novo e o velho. 
— Eu cá prometi à Nicota que lhe havia de levar de presente um rebenque de guasca feito do couro dum! 
Risadas e interjeições pitorescas recheavam o bródio popular. O taberneiro, amarelo e esgazeado, não sabia como se ater. Às vezes enxergava nas fisionomias desabridas dos gaúchos visos de ameaça, que emprestava às suas palavras uma significação horrível. Outras vezes porém o riso gostoso e franco dos homens o tranqüilizava até certo ponto, fazendo-lhe pensar que não passavam aqueles ditos de simples chalaça e brincadeira. 
— Ah sô galego! gritou a voz taurina do Lucas Fernandes, dando no balcão um murro formidável. 
Com a estremeção que sofrera, o taberneiro saltou três vezes sobre os pés, como um dançador de corda. 
— Genebra a fartar para esta rapaziada sacudida. E não me respingue! continuou o miliciano atirando uma meia dobla sobre o balcão. 
Com este rasgo o furriel ganhou logo as boas graças da súcia; seu tom decidido, as proezas que referiu, e o galão da velha fardeta, elevaram-no enfim por unânime e espontânea eleição ao posto de capitão, que ele aceitou por bem da pátria. Foi o primeiro ato da revolução riograndense, essa promoção democrática. 
A história talvez não consigne tão importante circunstância; por isso a registramos aqui. 
Momentos depois o capitão Lucas percorria triunfante as ruas de Viamão à frente da troça de peões, que ele se propunha disciplinar, afagando a idéia de transformá-la em companhia, e mais tarde elevá-la a batalhão, o que o obrigaria a tomar o posto de coronel. Afinal, quem sabe?… Os generais se faziam daquela massa. 
Ansioso esperava o seleiro o sinal para soltar o grito da revolução, quando um cavaleiro a toda a brida esbarrou na praça e meteu-se pelo povo falando ao ouvido de um e de outro. Os gaúchos de orelha murcha iam-se esgueirando, e breve achava-se o futuro batalhão de Lucas reduzido a uma dúzia de farroupilhas, que o acompanhavam ainda ao cheiro da genebra, soltando berros descompassados. 
— À capital, camaradas! bradou o furriel. Mostremos a estes poltrões como se briga. 
— Viva o capitão! Morram os galegos! respondeu a súcia. 
Instantes depois corriam à desfilada pela estrada de Porto Alegre; vários bandos de rapazes e parelheiros que tinham vindo à festa em Viamão foram por patuscada reunindo-se à troça; e assim investiu a caterva pelas ruas da capital fazendo um alarido infernal.  
Seriam oito horas da noite. 
No estado dos ânimos, esperando-se a cada momento o rompimento da revolução, podese imaginar o efeito que produziria aquela cavalgada à disparada pelas ruas da cidade. Acresce que o marechal Barreto avisara da fronteira que estava designado o dia 7 de setembro para o rompimento. 
Supuseram todos que a cidade era assaltada. 
A guarnição correu a postos. Reboou um tiro de canhão na casa do Trem; tocou a rebate nos quartéis; a guarda de permanentes marchou para o palácio e um piquete de cavalaria saiu a fazer um reconhecimento sobre o inimigo. Por toda a parte não se ouvia senão estrépito d’armas e tropel de animais.  
Os festeiros, apenas sentiram o cheiro da pólvora, muscaram-se; houve muito cavalo estropiado e muito parelheiro descadeirado; mas a troça desapareceu como por encanto. Só o nosso intrépido Lucas Fernandes, fantasiando ter ainda atrás de si o batalhão evaporado, fazia floreios de esgrima com a catana, preparando-se para dar uma carga sobre o piquete. 
No meio desse entusiasmo foi agarrado por dois permanentes que tiveram ordem de o recolher ao xadrez. Lá ia ele seu destino pela Rua do Ouvidor meditando filosoficamente sobre a sorte das revoluções qual outro Mário, quando um dos soldados pôs-lhe a mão no braço por segurança. 
— Largue-me! Por força ninguém me leva. 
Era o momento em que passavam dois cavaleiros. Um deles ouvindo aquela voz, esbarrou o animal: 
— O que é isto, Sr. Lucas? 
— Manuel!… Traído, amigo, traído! 
O gaúcho reservou a explicação para mais tarde. 
— Deixem o homem, disse ele para os dois guardas. 
— E quem é você? 
— Eu já lhes digo! replicou Manuel passando a mão ao punho da faca. 
O outro cavaleiro adiantou-se: 
— Espera lá, rapaz. 
Firmando-se nos estribos e tomando o tom do comando disse para os guardas:
— Permanentes, este homem está solto. 
— O coronel! murmuraram os guardas. 
Era com efeito Bento Gonçalves que chegava da sua estância. 
Os guardas se retiraram cabisbaixos. 
— Não lhe disse, homem, que se deixasse de rusgas? Iam-no filando! exclamou o coronel 
a rir. 
O furriel guardou nessa ocasião um silêncio eloqüente. Mais tarde porém revelou ele a Manuel em confidência um pensamento que levara a ruminar durante muitos dias. 
— Ninguém me tira desta. Quem desmanchou a rusga foi o coronel! Que pena! Uma coisa tão bem arranjada. 
Manuel sorriu lembrando-se das cartas que por ele enviara Bento Gonçalves a toda pressa, mas não disse palavra. 
Desde que entrou no espírito do furriel aquela convicção, Bento Gonçalves desceu três furos em sua admiração e respeito. 
— Um homem que desmancha rusgas!… Não tem que ver! O coronel voltou lá da corte com o miolo transtornado. 
 
 
VI 
DESENGANO 
 
Era noite fechada. 
Jazia a vila de Piratinim em profundo silêncio, submergida nas trevas. Apenas a trechos ouvia-se, entre os primeiros silvos do temporal iminente, o pio monótono da coruja na matriz, ou um murmúrio de vozes a escapar-se do coice de uma porta. 
Era aí a taberna, onde os peões jogavam a primeira ao clarão de uma candeia de graxa cuja luz oscilante e mortiça, filtrando pelos interstícios da porta, cortava a treva espessa como o vôo de um pirilampo. 
Também, quando passava a rajada, podia-se escutar o chiado sutil de uma guitarra, tocada à surdina. Partiam estes sons de uma casa próxima à igreja de Nossa Senhora da Conceição, que então servia de matriz à paróquia. Um vulto, embuçado em um poncho escuro de gola erguida, caminhava da esquina da rua onde ficava a casa até a torre da igreja, e aí chegando retrocedia. Na ida, como na volta, parava algum tempo à janela da casa, e encostava o ouvido na rótula; então, ouvia-se o tangido soturno da guitarra que ele trazia por baixo do poncho. 
Na sala interior dessa casa estavam três pessoas. 
As duas cunhadas e comadres, sentadas no vão da janela que abria para o quintal, continuavam a prática de todas as noites.  Durante um mês que estavam juntas, não tinham desfiado ainda todo o rosário de histórias e novidades. 
Vidoca não acabara de contar as festas e enredos de Jaguarão, nem as faladas dos castelhanos com as raparigas daquela fronteira. Quanto à Fortunata, esta não esvaziaria em um ano o saco dos mexericos de Piratinim, e a crônica de toda a vila, casa por casa. 
Um tanto arredada, em um ângulo da sala, Catita cosia à luz da vela colocada em uma cantoneira. Às vezes a mão da rapariga, puxando a linha para cerrar o ponto, ficava um momento suspensa no ar; e notava-se na sua cabeça uma ligeira inflexão. Parecia, pelo ar absorto da fisionomia, que sua atenção era atraída para outro ponto. Mas logo voltava à costura, redobrando de rapidez no ponteado. 
O que a distraía eram os sons da guitarra que pipilavam no silêncio da rua, e às vezes se destacavam entre as crepitações da lenha no fogo da cozinha. 
— Lucas não vem mais hoje, que diz você? perguntou Fortunata à cunhada. 
— Eu sei lá, comadre, quando ele vem? Há um par de dias já que se espera à toa. Com esta história de rusga, o homem anda mesmo que parece uma mosca tonta. 
— Mas em parte quem lhe mete tanta caraminhola no casco é aquele malandrinho. Já viu que sujeito mal-encarado, senhora? 
— Que quer? O Lucas engraçou com ele. Arrenego de semelhante bisca! 
— E onde foi buscar aquele nome de… como é mesmo? 
— Não te lembras, Catita? 
— O quê, mamãe? 
— Como se chama aquele sujeito que foi com teu pai?
— Manuel Canho. 
— Ora veja! 
— Se isto é nome de gente! 
— Mas você não viu outra, comadre. Sabe que apelido ele deitou no cavalo? Juca! 
— Tão bom é um como o outro! 
— E tem uma égua que chama Moreninha! 
— Desaforo! Aquilo é de propósito. 
— Quando a mula em que vinha Catita ficou espiritada, pediu-se a ele a égua e não quis dar. Disse que ninguém, senão ele, monta nela! Já se viu que partes? 
— Pois eu hei de montar! disse a rapariga batendo com o pé no chão. 
— Não há de ser por meu gosto. 
— E faz muito bem, comadre. 
— Enquizilo com o tal sujeito, que ninguém faz uma idéia; e o Sr Lucas enquanto não lhe suceder alguma, não descansa. 
Neste momento a guitarra chilrou com mais força na porta. Catita fez um gesto de impaciência; deitando arrebatadamente a costura sobre o banco onde estivera sentada, disfarçou dando algumas voltas pelo aposento e afinal dirigiu-se para a frente da casa. 
Foi direita à janela; abriu sorrateiramente a rótula e espiou para a rua. O vulto parado à porta aproximou-se mal que a percebeu: 
— Que faz você aí, Félix? 
— Pois ainda pergunta? 
— É escusado andar com estas coisas. Perde o seu tempo! 
— Então, Catita, esta é a esperança que você me dá? 
— Não tenho outra. 
— Não foi o que você me disse em Jaguarão. 
— Não me lembro disso. 
— Você me disse, que chegando aqui havia de decidir. 
— Pois está decidido. Não gosto de você, como hei de ser sua noiva? 
— Catita! 
— Não quero enganar a ninguém. 
— Agora é que fala assim. 
— Algum dia disse que lhe queria bem? 
— Mas também por que não me desenganou logo? 
— Por quê?… Porque você não me aborrecia como agora, que passa toda a noite rondando esta porta. Quem visse, havia de dizer que você é meu namorado. 
Félix fez um movimento de cólera; e depois de uma pausa murmurou com voz surda: — Bem sei a causa disso! 
— Ah! Sabe? Está mais adiantado do que eu. 
— Não disfarce, Catita. Cuida que eu não tenho olhos para ver? 
— O quê? 
— Você ficou assim desde que nos encontramos com Manuel Canho. Logo naquele dia você não tirou os olhos dele. Bem reparei. 
— Só isso? perguntou a moça com uma risadinha de escárnio. 
— Depois, pensa que eu não via como você se enfeitava por causa dele? A cada instante se requebrando, para ver ser o enfeitiçava; mas ele, nem caso? 
— Félix, melhor é que você se ocupe com sua vida. Me deixe descansada. 
— É para ver se é bom querer bem a quem lhe paga com desprezo. 
— Pois se assim é, não tem você de que se queixar. Faça como eu que sofro calada. 
— Então confessa? Gosta dele? exclamou Félix furioso. Catita caiu em si.
— Não disse isto! 
— É escusado negar. Já sei o que queria; pode ficar descansada que não hei de aborrecêla mais. Meu negócio agora é com ele. 
— Que pretende você fazer, Félix? 
— O mesmo que me fizeram; traspassar-lhe o coração, mas com este ferro. A faca do rapaz luzia nas trevas. 
Recobrando-se do soçobro que sentira, a moça proferiu estas palavras com a voz fria e pausada, embora ferida ainda por um imperceptível tremor: 
 — Vinga-se bem, Félix. É o modo de matar-me mais depressa. 
Fechou-se a rótula. 
Nesse momento, reboou no princípio da rua um tropel de animais, e um grito estrondoso farpou o silêncio da noite. 
 — Alvíssaras, patriotas! Viva a revolução!  
 
VII 
O SOLUÇO 
Três vezes o mesmo grito reboara, ecoando longe nas grotas e fraguedos que cercam o sítio da vila de Piratinim. 
As duas comadres, tomadas de susto no meio de sua palrice, não souberam de primeiro momento a que atribuir o estranho clamor, cujo sentido não compreendiam. A idéia vaga de toda a sorte de perigo, desde um simples canhambola, até o assalto por um demônio-legião, perpassou como um raio por seu espírito alvoroçado. 
— Santa Bárbara!… murmurou a Fortunata e travou-se com o rosário. 
Vidoca, apesar de grande medo, entrevira uma esperança; e com o ouvido atento aguardava a confirmação de uma suspeita. Foi quando pela terceira vez estrugiu o mesmo brado.
— É, é mesmo! Ora essa! exclamou erguendo-se. 
— O quê, senhora? balbuciou a Fortunata. 
— O Sr. Lucas! Aquele grito é dele! 
Correndo para a frente, a Vidoca achou a filha à janela. Catita também reconhecera a voz de seu pai, e de novo abrira a rótula. Seu coração batia precipitadamente contra a soleira; porém não era de medo. Com os olhos alongados pela rua procurava devassar as trevas, para distinguir mais depressa as pessoas que sem dúvida para aí se dirigiam. 
Pensava ela que Manuel vinha com Lucas? 
Entretanto, aos brados do furriel, toda a vila pôs-se em alvoroço. A peonada, abandonando a gordurenta mesa de jogo saía das tabernas aos trambolhões; abriam-se as casas dos patriotas; o povo apinhava-se nas ruas, que a luz dos fachos começava a esclarecer. 
Pouco depois, no meio de um grande clarão avermelhado, via-se o Lucas Fernandes esticado sobre os loros proclamando à multidão que o cercava, suspensa não de seus lábios, mas da barba hirsuta que lhe cobria o rosto como espessa floresta. 
— tomamos Porto Alegre de assalto, camaradas! O presidente fugiu, dizem que para Rio Grande, outros que para a corte duma feita! Bento Gonçalves já pôs outro em seu lugar; com este pode-se contar; é homem seguro. Agora só falta o xumbregas do tal marechal de borra. Mas o coronel não tarda aí para ensiná-lo.
— Viva Bento Gonçalves! 
Este grito prorrompeu da turba e foi saudado com uma aclamação frenética de entusiasmo. 
— Aquilo é que é homem, prosseguiu o furriel. Éramos cento e cinqüenta quando marchamos para a capital; mas bastou ele, o Lucas e o Manuel Canho, nós três, para levarmos tudo raso! 
A esse tempo notava-se um novo movimento na multidão. Um sujeito que passava deixou cair algumas palavras entre as quais se ouvira o nome de Neto. Depreendia-se que este acabava de receber notícias do auditório do furriel para o ajuntamento que se formava em frente à casa do chefe republicano. 
A multidão foi-se escoando; os fachos desapareceram; e o furriel, completamente isolado, teve de ganhar a casa de Fortunata, só e às escuras. Durante o curto do trajeto, pôde ele meditar sobre a inconstância da popularidade e a ingratidão das turbas. 
Achou na porta as mulheres que o esperavam com ansiedade; mas ele entrou carrancudo e sinistro como uma tempestade. Abraçou as três com uma voz de trovão. 
— Então o que houve, Sr. Lucas? 
— Pois é preciso que diga? Pensavam que eu não havia de voltar cá sem a rusga? 
— Mas conte à gente! 
— Não tem que contar! replicou o furriel com um tom desabrido. 
Ninguém mais tugiu. As duas cunhadas trocaram um olhar, e cuidaram de apressar a ceia. 
Catita conservou-se indiferente a toda essa cena: havia em seu belo rosto uma nuvem de tristeza. Quando seus olhos puderam de longe distinguir a figura do pai, no meio da multidão, procuraram ansiosamente ao lado o vulto de Manuel; não o encontrando vendaram-se.
— A ceia está pronta, Sr. Lucas, disse Vidoca. 
O furriel ergueu-se: 
— Manuel ainda não chegou? 
— Aqui, não! responderam as duas comadres. 
— Onde se meteria ele? 
Os brilhantes olhos de Catita, fitos no semblante de Lucas, pareciam arrancar-lhe as palavras dos lábios. Ela estremecera ouvindo a primeira frase; mas não sabia que pensar. Tinha Manuel chegado à vila com seu pai, ou este o havia perdido de vista desde Porto Alegre? Nisto bateram à porta; e o gaúcho apareceu. 
— Tenham boa-noite, disse ele sem olhar para alguma das três mulheres. 
Sentaram-se todos à mesa e cearam. À medida que o furriel calcava o estômago ia-lhe voltando o bom-humor, o entusiasmo revolucionário e a facúndia habitual. Então, sem que lhe pedissem, contou às mulheres as suas proezas na tomada de Porto Alegre; não esquecendo as façanhas do Canho, que em sua opinião se mostrara digno do pai. 
Na situação em que tinham ficado os negócios políticos no dia 7 de setembro, era realmente para surpreender o desenlace, cuja notícia acabava de chegar a Piratinim. 
Mas, depois daquele dia, alguns amigos de Bento Gonçalves o tinham convencido de que a revolução era inevitável. Nada a podia mais conjurar, no ponto a que haviam chegado as coisas. Se o coronel recusasse tomar a direção do movimento, ele se transviaria com toda a certeza e produziria as conseqüências que os espíritos moderados desejavam evitar. O meio mais seguro de prevenir a separação da província era sem dúvida a revolução; ela tirava o pretexto aos republicanos.  
Persuadido por estas razões, Bento Gonçalves partira para Camacã, de onde a 20 de setembro marchara sobre a capital à frente de 150 gaúchos. Derrotada na ponte da Azenha uma pequena força de 40 praças da guarda nacional, nenhum obstáculo mais encontrou. O presidente, baldo de recursos para opor à rebelião, embarcou-se a bordo de uma escuna de guerra e retirouse para a cidade do Rio Grande, tentando organizar aí a resistência. 
Senhor da capital, onde assumira a presidência o cidadão Marciano José Ribeiro, Bento Gonçalves, investindo-se do comando das armas, despachou imediatamente Manuel Canho com uma carta para Neto, em Piratinim, comunicando-lhe os últimos acontecimentos e avisando-o da necessidade de bater quanto antes o tenente-coronel Silva Tavares, comandante de uma força estacionada no Erval. 
O Lucas, apenas soube que Manuel partia, resolveu acompanhá-lo; convencido de que em Porto Alegre não havia mais inimigo a combater, o furriel queria aproximar-se do lugar onde acreditava que ia travar-se a luta. 
Chegando à vila naquela noite, enquanto o miliciano proclamava às turbas, Manuel procurou Neto para entregar-lhe a carta; e ordenando-lhe este que fosse descansar e voltasse no dia seguinte, dirigiu-se então para a casa de Fortunata, onde acabava de entrar. 
Enquanto o furriel se desfazia em bravatas, sentia o gaúcho o brilho dos olhos de Catita fitos em seu semblante; e às vezes passava as mãos arrebatadamente pela fronte como para espancar uma obsessão do espírito. 
De novo bateram à porta. Desta vez era o Félix que vinha a pretexto de ver o mestre. Ao entrar, o rapaz sorriu com amargura, relanceando um olhar que passou por Catita e foi cravar-se em Manuel. 
— Estás contente, hein, rapaz! disse-lhe o Lucas; e recomeçou pela décima vez a história de sua ilíada. 
Félix porém não o escutava. Toda sua atenção estava empregada na rapariga e no gaúcho. A princípio, assustada com a presença do rapaz, Catita disfarçara as olhadelas apaixonadas que pouco antes deitava sobre Manuel; porém logo depois irritada daquela coação, arrostou as iras do ciumento, voltando-se completamente para o gaúcho e ficando como absorta no seu rosto. 
Félix tiritava de raiva; e por longe perpassou-lhe a idéia de puxar a faca e cravá-la uma e muitas vezes no coração da rapariga. Ainda assim não se vingava, porque lhe parecia que a ponta de aço não cortaria como o gume daquele olhar com que ela lhe atravessava o coração. 
O furriel, exausto das novidades e repleto de pirão, se debruçava sobre a mesa e começava a afinar o ronco. 
— Vá se deitar duma vez, Sr. Lucas, disse a Vidoca. 
— São mesmo horas de se recolher a gente. 
Com esta despedida formal, ergueram-se, o Félix para sair, e o Canho para ganhar pelo quintal um puxado, feito à direita da casa, e onde o haviam arranchado. 
— Tenho um particular com o senhor! disse Félix ao gaúcho com voz soturna e apontando para o corredor de saída. 
Canho fez um gesto afirmativo: 
— Boa-noite. Podem encostar a porta que eu fecharei; não vou longe. 
Saíram os dois. Até dobrarem o canto não trocaram palavra. Manuel esperava um tanto surpreso, porque não lhe ocorria qualquer motivo para explicar aquela entrevista com ares de mistério. 
Finalmente parou Félix e voltando-se para o companheiro, disse-lhe sacando fora o poncho: 
— Esta noite um de nós deve matar o outro! 
— Por quê? perguntou Manuel com sossego. 
— Pois pergunta? 
— Decerto, respondeu o Canho sem mudar de tom. O motivo por que você me quer matar, pouco me importa saber; eu nunca perguntei à jararaca por que morde a gente. Mas para que eu o mate, é preciso ter uma razão; não mato gente à toa. 
— Você bem sabe a razão, tornou Félix rangendo-lhe os dentes. Eu gosto de Catita! 
— E que tenho eu com isso? 
— Você também gosta dela. 
Respondeu-lhe um riso de escárnio. 
— Logo vi que não estava no seu juízo. Aposto que veio da venda? redargüiu o Canho. 
— Não tenho que lhe dar satisfações. Estou aqui para brigar e não para sofrer desaforos.
— Nem eu para ouvir mentiras. — Nega que ela gosta de você? 
— Vou dormir; adeus! 
— Não disfarce, foi ela mesma que me contou esta noite, há bocadinho.
— Pois perde seu tempo! 
— Mas enquanto você viver, ela não fará caso de mim. 
— E por isso me quer matar? Pois olhe: não estou disposto a morrer por causa de mulheres. Procure outro motivo, que por este decerto não brigamos. 
Ecoou perto um som abafado, semelhante a um soluço. Os dois voltaram-se para conhecer a causa, e viram apenas um vulto que dobrava a esquina fronteira; adiantando-se alguns passos, levados pela curiosidade, chegaram à rótula de uma casa cujo interior aparecia iluminado por entre a fresta da janela cerrada. 
Exalava de dentro um ambiente espesso, carregado com a fumaça de graxa e de tabaco, bem como um surdo zumbir de muitas vozes, misturado com o tinir de moedas, com o sussurro da guitarra e o estalo das cartas batidas sobre a banca. Facilmente se percebia que estava na taberna a costumada roda de  jogo. 
— Quer apostar a briga? perguntou Félix de repente. 
— Está feito. Assim é melhor. 
Félix empurrou a porta, e os dois penetraram no corredor. 
O vulto desaparecera. 
 
 
VIII 
A DAMA 
 
Ouvindo, ou antes suspeitando o convite que Félix dirigira ao Canho no momento de sair, Catita foi à janela. 
Para quê? Nem ela o sabia; talvez para ver a direção que os rapazes tomavam, ou para escutar as primeiras palavras que entre si trocariam. Com o rosto colado nas frestas da rótula esperou que os dois saíssem. 
O silêncio profundo que ambos guardavam assustou a rapariga. Presa de uma ansiedade cruel correu à porta, ganhou a rua e protegida pela escuridão pôde, esgueirando-se ao longo das paredes, acompanhar Manuel e Félix, sem que eles a percebessem. 
Assim, a poucos passos deles, oculta no vão que havia entre duas casas, pôde ouvir toda a conversa. Quando, porém, Manuel recusou brigar com Félix por sua causa, a alma da rapariga, confrangida pelas palavras de desprezo, estalou em um soluço. Receosa de trair-se resvalou para dobrar a próxima esquina e de todo afastar-se; foi nessa ocasião que os dois viram seu vulto e quiseram segui-lo. Mas ela se tinha encoberto no oitão da casa. 
Depois que Manuel e o companheiro entraram na taberna, Catita arrastada pela ardente curiosidade foi, transida e perplexa, encostar o rosto à rótula. A noite ameaçava chuva; de vez em quando vinha uma rajada que traspassava; e contudo sentia a moça brasar-lhe a fronte. Repeliu sobre as espáduas a mantilha que trouxera, apertando a mão contra o peito para sopitar as rijas palpitações do coração, que faziam tremer a gelosia. 
Pela fresta que deixavam as abas da janela cerrada, Catita viu através do xadrez da rótula um aposento esclarecido por três ou quatro candeias de latão. No centro havia uma pequena mesa oblonga sobre a qual estavam apinhadas umas quinze pessoas, gaúchos e peões, atentas ao jogo. No fundo, a Missé tocava na guitarra um lundu, ao som do qual sapateavam alguns rapazes. 
Manuel tomou lugar a um canto da mesa, defronte de Félix. Enquanto os outros  continuavam o jogo da primeira, armaram eles um pacau para decidir a aposta. Da primeira cartada o Canho bateu nove e ganhou a partida. 
— Bem lhe disse eu que não havíamos de brigar. 
— Veremos! disse o rapaz a voz surda. 
Manuel encolheu os ombros. 
— Não há mais quem queira? 
— Topo eu! exclamou o Chico Baeta, atirando um patacão sobre a mesa. 
Correram as cartas, e Manuel ganhou não só esta como as partidas seguintes. As moedas de prata passaram da bolsa do peão para as mãos de seu feliz parceiro. 
— Quer ir tudo contra o Pombo? Olhe que é um pingo de mão cheia. 
— Vá! respondeu Manuel cortando o baralho. 
A sorte ainda o favoreceu. Chico levantou-se desesperado. 
— Que veia! exclamaram os outros. 
— Ninguém resiste. 
— Não dá mais desforra? perguntou Chico desesperado. 
— Enquanto quiser. 
— Pois eu paro a Missé. 
— A Missé? replicou Manuel com um sorriso interrogador. 
— Não conhece? Pois veja que bonita rapariga. Vem cá, Missé! 
— Que é isto? perguntou a rapariga aproximando-se da mesa. 
— O Chico parou você no jogo, disseram algumas vozes. 
— Hein? 
— É para me desforrar, Missé! Mas se não queres! 
— Desde que você empenhou sua palavra!… respondeu a rapariga com a voz repassada de mágoa.  
Uma lágrima lhe desfiou lentamente pela face: 
— Não te desconsoles, meu bem. Olha, se eu te perder, amanhã arremato para mim as primeiras balas dos caramurus, a troco das relhadas e laçaços que hei de arrumar-lhes. E se isto tem de suceder, não é melhor que fiques amparada? 
— Deixa-te dessas idéias, Chico. Havemos de ganhar: eu tenho boa mão; quero cortar o baralho. 
Um riso jovial espancara de repente a melancolia do lindo rosto da rapariga e espargira nele o brilho da esperança. 
— Então valeu? perguntou o Chico a Manuel. 
— Eu topo tudo! respondeu este. 
Desde o princípio da cena que cessara o jogo da primeira; todos os parceiros, agora atentos ao pacau, aguardavam a decisão da partida de empenho. 
A Missé talhou as cartas. Cada um dos dois parceiros tirou três alternadamente do baralho colocado no centro. Cabia a mão ao Chico. Este no meio a ansiedade geral, começou a filar o ponto na palma. A primeira carta voltada sobre a mesa era um quatro, as duas restantes emborcadas uma sobre a outra, escorregavam lentamente ao atrito dos dedos do jogador. 
— Figura! disseram em torno, vendo aparecer a pluma do valete de espadas. 
O Chico não falava; todo ele estava nos olhos. Ajeitando as duas cartas e voltando-as em sentido contrário, começou a filar a terceira; era esta a que devia determinar o ponto, e portanto as probabilidades do ganho. 
— Queremos isto bem chuleado! disse um peão. 
— Vê logo, Chico! atalhou a Missé impaciente. 
— Qual! Pois aí é que está a graça! 
Manuel, deitando no meio da mesa, sob uma pilha de moedas, suas três cartas cobertas, se derreara contra o banco e olhava a sorrir o rosto do parceiro agitado pelas várias comoções do jogo.  
— Quadrejou! 
Esta exclamação partiu dos lábios de alguns que distinguiram primeiro no alto da carta as quinas de dois losangos de ouro; quando estes levantavam a cabeça para resfolgar daquela atenção imóvel, os outros por sua vez gritaram, vendo as duas marcas no lado da carta: 
— Ainda quadreja! 
A emoção e curiosidade tocavam agora o auge; com um cinco, o Chico bateria pacau. Todos os olhos estavam presos no branco da carta, que subia lentamente espremida pelos dedos convulsos do jogador. Ninguém respirava; quanto à Missé e o amante, pareciam assombrados. 
— Envido! acudiu Manuel rindo. 
O Chico abaixou as cartas, e esperou um momento. Não havendo quem aceitasse o envite, continuou a filar o ponto com a mesma lentidão. De vez em quando parava, tolhido pela emoção; até que afinal levantou-se dum ímpeto, como impelido por súbita explosão; entanto o peito arquejante respirava estrepitosamente soltando, ou antes, aspirando uma palavra, que soltara-se de todos os lábios. 
— Pintou! 
Com efeito aí estavam espalhadas na mesa as três cartas, o valete, o quatro e o cinco de ouros que faziam nove. O Chico tinha batido pacau, e tiritava de prazer. Abraçado com a Missé começaram ambos a sapatear um passo de tatu, chorando como duas crianças, tanta era a alegria. Os outros companheiros contemplavam enternecidos aquela cena. 
— Pois eu ainda envido! disse Manuel com a maior calma. 
Houve geral surpresa. Já todos supunham a partida ganha, quando se levanta aquela voz para lembrar que ainda faltava alguma coisa; pois não se conhecia o ponto do contrário.  
— Ah! quer empatar? disse Chico com um riso amarelo. 
— Empatar?… Quero ganhar! 
— Mas olhe que foi pacau batido! 
— Há outro mais valente do que esse. 
— O de ás. 
— E o de coringa. 
— Então envida mesmo? 
— Já disse. 
— Pois topo. 
Fizeram-se várias paradas, casando moeda com moeda; e todos ansiosos esperaram pelo desfecho da partida, cujo interesse cada vez subia de ponto. 
— Olhem; o ás aí está, disse Manuel voltando com a ponta da unha a primeira das três cartas, e o coringa também.  
O Chico e os parceiros do envite empalideceram, vendo quase realizado o dito do Canho.
— E a outra? disse um, apontando para a última carta. 
— Esta, não tem que ver, é figura, e não passa de uma dama para fazer cortesia à moça.  
Acabando de proferir estas palavras, que ele endereçou com um sorriso à Missé, o gaúcho voltou rapidamente a carta. Foi profundo o assombro; era com efeito uma dama; o Chico tinha perdido. O dinheiro, o cavalo e a amante pertenciam ao Canho. 
Quando passou a confusão que seguira ao primeiro espanto, viu-se o Chico apertando  pela última vez a Missé em seus braços. 
— Não chores, meu bem. Faz de conta que eu morri! Amanhã vou te esperar lá no outro mundo! 
Manuel segurou-o pelo braço no momento de passar a porta. 
— Faz-me um favor? 
— Qual? 
— Aceite o Pombo, como lembrança da primeira vez que nos vimos, há cerca de três anos. Não se dirá que Manuel Canho separou um gaúcho de seu melhor amigo. O mais, o dinheiro e a mulher, acha-se a cada canto; porém o cavalo, que nos entende, e se liga ao nosso destino no trabalho e na guerra, na vida e na morte, este, uma vez perdido, custa a achar outro, quando se acha. Senhores, boa-noite! 
Dirigindo esta saudação às pessoas presentes, o Canho ganhou a rua; tinha dado alguns passos, quando um vulto deslizou na sombra e conchegou-se a ele. Que sorriso de desprezo perpassou nos lábios do gaúcho! 
— É mulher!… murmurou ele. 
O temporal, que ameaçava desde o princípio da noite, estava prestes a desabar; as serras de nuvens negras, amontoadas no horizonte, começavam a inflamar-se. À luz crebra e lívida dos relâmpagos, a vila adormecida assomava como o espectro de uma ruína no foco de um incêndio. 
Voltando-se nesse momento, viu a mulher de longe um vulto que os seguia; com a mão convulsa travou do braço do gaúcho e levou-o por diante até sumirem-se no fim da rua. 
Tinham os dois chegado a uma das extremas da vila, em lugar ermo, onde a escarpa íngreme do terreno formava um barranco profundo. 
Manuel passou o braço pela cintura da mulher, e sentiu um corpo trêmulo e agitado que se apoiava nele. Mas nesse momento aquele seio arquejou, estalando num soluço. 
Afastou-se o gaúcho rapidamente, arredando com um movimento brusco o talhe da moça. Com esse movimento abriu-se a mantilha, que deslizando sobre os ombros, deixou descoberta a cabeça da desconhecida. Rasgava-se nesse momento um relâmpago, que iluminou o belo rosto de Catita. 
Manuel ficou imóvel em face da aparição incompreensível. Entretanto os relâmpagos sucediam-se e no meio dessa auréola deslumbrante ele via aquele mesmo olhar que três anos antes o fascinara e desde então cintilava nas sombras da sua alma. 
Dominando afinal aquele encanto, o gaúcho quis afastar-se, porém a moça tomou-lhe o passo, cruzando as mãos para suplicar-lhe que não a deixasse. Catita assistira a toda a cena da taberna, e fora com o coração ralado de ciúmes que ela acompanhara Manuel para impedir o seu encontro com a Missé. 
— Manuel! balbuciou a moça. 
As palavras expiraram no lábio trêmulo, mas desfolhando-se num sorriso que enlevava. 
O gaúcho lançou um olhar para o barranco; era um precipício; mas não estava ali em face, outro mais perigoso? Não se abria diante dele no sorriso fascinador daquela mulher, numa voragem para sua alma? 
Travando do galho de uma árvore, Manuel arremessou-se, e desapareceu na espessura da folhagem. 
Catita caiu de joelhos. 
Ao grito que rompeu-lhe do seio, acudiu uma pessoa; era a Missé, que a tinha seguido de longe. 
 
 
IX  
BOMBEIRO 
 
Os dias seguintes foram chuvosos. O manto espesso da cerração, desdobrando-se pelos cerros e coxilhas, tornava a campanha triste e soturna. 
Cerca de doze léguas de Piratinim, para as bandas do Erval, no rancho de uma estância, perdido no meio do campo, estavam reunidos seis peões que parolavam, comendo um grande churrasco; fora, os cavalos arreados e presos à soga sem freios, pastavam na grama.
— Então você acha, Félix, que o Neto ainda está em Piratinim? 
— Pois que dúvida! 
— E que gente terá? 
—Uns duzentos, mas olhe que é boa gauchada. 
— Eu não lhe dou nem metade; e não passam de farroupilhas. 
— Talvez que amanhã os vejamos de perto, disse Félix a rir. Tomara eu! 
Neste ponto os animais deram aviso. Um dos peões saiu fora do rancho para correr os olhos pelo campo; mas nada avistou que lhe despertasse a atenção. Entretanto os cavalos continuavam a indicar, por seu ar espantadiço, a aproximação de alguém. Com as orelhas espetadas, perscrutavam eles uma restinga de mato que ficava a alguma distância. 
Suspeitoso o peão saltou na sela e botou-se para o lugar. Pareceu-lhe ver um vulto perpassar entre a folhagem, e não se enganava: de feito um cavaleiro ali estava desde algum tempo agachado entre as árvores, à espreita do que passava pelo campo. Conhecendo pelos movimentos do peão, que fora, senão percebido, ao menos suspeitado, tratou de evitar o encontro que parecia infalível, pois a língua de mato, além de estreita, era um raleiro, que de perto facilmente se devassava com a vista. 
Um selvagem naquelas circunstâncias subiria ao cimo das árvores, para ocultar-se no mais basto da folhagem; mas nada separa um gaúcho de seu cavalo no momento do perigo: seria o mesmo que deceparem as pernas do centauro, e o reduzirem a um tronco mutilado. 
Ganhando a orla oposto da mata, o desconhecido fez deitar-se numa biboca funda e cheia de capim a tropilha que trouxera; e cobriu tudo isso com algumas braçadas de folhas secas. Então estendeu-se pelo flanco do Morzelo de modo que era impossível descobri-lo do lado oposto. Um dos pés apoiava na orelha esquerda do cavalo, o outro o animal o segurava nos dentes como a cana do freio; finalmente, com a mão escondida no cabelo da cauda, o desconhecido parecia colado ao corpo do quadrúpede. 
Quando o peão chegava à restinga viu à esguelha um cavalo estropiado, que se afastava pelo campo manquejando. Bateu o mato e nada descobriu de suspeito; retirou-se portanto convencido que o vulto não era outro senão o do Morzelo arrebentado por alguma viagem. 
Entretanto o animal, sempre manquejando, ganhou uma canhada, que não se podia ver do rancho, e escondeu-se numa touça de sarandis. Aí o cavaleiro descansando da posição incômoda, mas sempre alerta, permaneceu até cair a noite. 
Manuel, pois era ele, separando-se bruscamente de Catita, na noite de sua chegada a Piratinim, ouviu da biboca onde saltara, a conversa da moça com a Missé; e depois a seguiu de longe até que viu ambas se recolherem à casa da Fortunata. A filha do Lucas tremia com a idéia de deixar só a amiga e por isso a obrigou a ficar em sua companhia. 
O Canho recolheu-se também; mas não pôde dormir. Toda a noite via debuxar-se diante dele o quadro vivo daquela tempestade sinistra. Rasgavam-se os relâmpagos; e do seio da luz celeste desprendiam-se duas centelhas que lhe traspassavam a alma e embebiam nela uma lava satânica. Eram os olhos de Catita. 
Pela manhã dirigiu-se o gaúcho à casa de Neto, onde encontrou D. Juan Lavalleja, Verdum, Onofre, Crescêncio e outros republicanos orientais e rio-grandenses. O caudilho o incumbiu da comissão perigosa de reconhecer a posição e importância exata da força de Silva Tavares, comandante do Erval, bem como de espreitar seus movimentos. 
Partiu o Canho como bombeiro.  Assim chamam na campanha as vedetas destacadas  que precedem os corpos militares, explorando o campo, e dando aviso da aproximação de qualquer partida suspeita. A etimologia dessa palavra, desconhecida na língua com semelhante significação, nenhum sábio por certo a aventará. No estilo pitoresco do gaúcho, o bombeiro é o peão que surge de repente, para não dizer que estoura como uma bomba, do meio da macega, e desaparece logo. 
Nesse mesmo dia, soube Manuel na estrada do Erval que a força de Silva Tavares estava arranchada em uma estância à margem do Orqueta, nas vizinhanças do Serrito. Com efeito, seguindo as indicações e guiado por sua perspicácia, verificou o gaúcho pela madrugada a exatidão da notícia. Restava porém saber quantos homens tinha o chefe legalista, e ver por seus olhos que gente era, para levar a Neto uma informação segura. 
Aproximou-se da casa o mais que era possível sem denunciar-se; mas conheceu que perderia o tempo inutilmente, pois Silva Tavares, cuja finura e astúcia tinham fama na campanha, espalhara também seus bombeiros em todas as direções para prevenir um assalto. 
Manuel conseguira iludir a vigilância de alguns dos bombeiros, empregando para esse fim todos os ardis imagináveis; mas corria o risco de ser descoberto a cada instante sem ter colhido os indícios necessários. 
Logo que fechou a noite, ele voltou à restinga, e montado na Morena, aproximou-se sutilmente do rancho, onde conversavam os peões.  
Mas então por que foi mesmo que você deixou as farroupilhas, Félix? 
Ora, foi o diabo de uma rapariga, que depois de se divertir comigo, há mais de dois anos, começou a requebrar-se com um sujeito que apareceu de repente. 
É costume delas! 
Não admito; eu cá defendo as muchachas. 
Pois defenda, que há de achar uma para lhe dizer na bochecha, como me disse a mim a Catita, que se eu matasse o namorado, primeiro matava a ela! Que tal a pequena? 
E como se chama o cujo? 
Diz ele que é Manuel Canho; mas eu penso que é Manuel Cão; e senão vocês hão de ver como lhe deito a coleira vermelha; assim lhe ponha eu os luzios uma vez! 
Então você escamou-se com medo. 
Medo! 
Não digo do sujeito, mas da rapariga. 
O sujeito, desafiei-o; não quis brigar por nada. Então passei para os legalistas; quero ver se ele agora tem desculpa. 
Nada mais importante ouviu o gaúcho nem sobre sua pessoa, nem a respeito da força e plano de Silva Tavares. Resolveu portanto apresentar-se francamente na estância, como um viajante em trânsito. 
Pela madrugada tirou os arreios do lugar onde os tinha escondido, e selou o Juca. Eram sete horas da manhã quando surgiu de repente no terreiro, sem que soubessem como ali aparecera. 
Sua chegada, sem aviso prévio dos bombeiros, excitou logo as suspeitas de um homem baixo e gordo que se via pela janela de um quarto a embalar-se na rede. Erguendo-se com uma vivacidade e presteza admiráveis para sua corpulência, saltou na varanda, mas com o disfarce de chamar um peão. O rico pala indicava ser homem de posição. Manuel reconheceu o comandante, porém não pestanejou: 
Que temos? disse o tenente-coronel, como se casualmente e só então visse o recémchegado. 
Nada; quero descansar, respondeu o gaúcho com a maior serenidade. 
Donde vem o amigo? 
Da capital. 
Ah! Vem de Porto Alegre! Então viu a rusga. Conte-nos lá como foi isto. 
Não tem que contar. Chegou o Bento com uns vinte farroupilhas de poncho amarelo; fez uma careta, e tudo começou a tremer. 
E o amigo? 
Eu, vou me chegando para casa. 
Aonde? 
Em Ponche-Verde. 
Ah!… Mas você é um rapaz sacudido, e nós carecemos de gente. 
Lá isso não! Também os outros precisam, e eu vim-me andando. 
Manuel tinha-se apeado; mas conservava-se perto do Juca, pronto ao primeiro sinal. Diga-me, passou por Piratinim? 
Ontem por estas horas. 
Que gente tem o Neto? 
Há de andar por cinqüenta. 
Está bom; vá descansar. Olá,. Camaradas! acomodem aqui o amigo, gritou o oficial para um grupo de soldados e paisanos que se aproximava. 
Ao ouvido perspicaz de Manuel aquele acomodem soou com timbre especial que o pôs alerta; e tinha razão, porque a gente espalhando-se pelo terreiro deitava-lhe cerco para evitar que escapasse. Nisto uma voz exclamou: 
Agarrem que é o camarada de Bento Gonçalves. 
Mas já o Canho estava na sela, e o impetuoso alazão arrancando, de um salto salvou o cerco, e disparou pelo campo fora. Dez ou doze balas acompanharam de perto o gaúcho, que as ouviu sibilar bem perto da cabeça. Então o intrépido rapaz voltou-se para cortejar de longe, agitando o chapéu no ar: 
Já sei o que desejava, senhores, até mais ver. 
Os bombeiros do rancho, ouvindo os tiros, saltaram na sela e puseram-se no encalço do fugitivo, que ao passar fronteiro à restinga soltou um grito vibrante: 
Helô!… 
Imediatamente a tropilha rompeu do mato e seguiu o cavaleiro que afastava-se com espantosa rapidez. O alazão não corria, voava, e com pouco desapareceu por detrás de uma coxilha. 
Contrariado por ver escapar-lhe o inimigo, um dos peões, o que montava melhor animal, arremessou as bolas contra o resto da tropilha que ficara atrás não por serem maus corredores, mas por não poderem acompanhar a velocidade inaudita do alazão e da baia. Um dos animais caiu com os pés tolhidos pelas correias; mas, fazendo um esforço, conseguiu erguer-se. Passava nesse momento de corrida o Félix, que o lanceou nos ilhais, arremessando-o outra vez no chão. 
Entretanto o fugitivo, depois de algumas horas vendo-se fora do inimigo, moderou a desfilada em que ia para dar fôlego aos animais. 
Então, Morena, a coisa esteve quente? disse o cavaleiro sorrindo e passando a mão pelas clinas da baia, no momento em que ela emparelhava com o alazão. E o nosso Juca brilhou, hein? Foi a primeira vez que sentiu o cheiro da pólvora. Nós cá já conhecíamos o zunir das balas: é como um besouro! 
Nisto Manuel vendo chegar o resto da tropilha e dando por falta do Morzelo, sentiu um aperto de coração. Sua vista ansiosa interrogou o Ruão, que soltou um rincho melancólico. 
 
 
ÚLTIMO DEVER 
 
Não era possível que Manuel abandonasse o Morzelo, seu amigo de infância, o confidente de suas mágoas, o companheiro fiel e dedicado de João Canho. 
Nem de longe semelhante idéia perpassou em seu espírito. Morena e Juca eram sem dúvida os mais lindos e briosos corcéis, que jamais pisaram com a rija pata a verde grama dos pampas. Manuel os amava com entusiasmo e dedicação; mas ao velho amigo, votava ele amizade profunda, repassada de certo respeito, ou quase veneração. 
O cansaço produzido pelo longo serviço; a rigidez dos músculos, ressequidos pela muita idade; o amortecimento do fogo e vigor de outrora, se diminuíam o valor físico do ginete, aumentavam a afeição de Canho. Ele tinha por estas debilidades do ancião uma piedade filial. Montado no Juca, ardente mancebo, ou na Morena, travessa rapariga, o gaúcho não escolhia caminho, nem rodeava uma cerca ou largo valado, que preferia salvar de um pulo. No Morzelo porém evitava todo o esforço que podia alquebrar as forças do velho; e poupava com solicitude os sobejos do antigo vigor, bem como os brios do veterano corcel, facilitando-lhes as gentilezas, para não humilhá-lo diante da baia e do alazão. 
Esteve Manuel um instante perplexo, não porque nutrisse a menor dúvida sobre o que exigiam dele, em relação ao Morzelo, sua consciência e seu coração. Pensava como faria chegar a Neto o resultado da missão de que se incumbira. 
A ponto justamente de seu desejo apareceram além três cavaleiros nos quais o gaúcho reconheceu à primeira vista o Chico Baeta, e mais dois parceiros do famoso pacau. Ao sinal de que lhes desejava falar, pararam eles à espera do gaúcho. 
O Chico Baeta cortejou Canho friamente, como quem guardava dele profundo ressentimento. Não escapou ao gaúcho esta circunstância apesar da sua triste preocupação; mas tinha coisa mais séria a tratar do que as carrancas do amante da Missé. 
Você vai para a vila? perguntou Manuel chamando-o de parte. 
Conforme! respondeu o peão de mau modo. 
É preciso que vá, e sem perda de tempo, tornou o Canho com autoridade. Diga a Neto… ouça! Diga que Silva Tavares está nas vizinhanças do Serrito, na estância da encruzilhada do Orqueta com o Piratinim. Terá cem homens, metade soldados, o resto paisanada; mas a cada hora chega gente. Para atacar, o melhor é pelo passo da Maria Gomes; ganhar a estrada do Erval, e voltando cair sobre os sujeitos pelo fundo da estância. Mas o tenente-coronel é vivo como azougue, e está alerta. Adeus! 
Curioso e interessado nos pormenores que o gaúcho lhe comunicava, esquecera Chico por momentos sua má-vontade, que tornou, passado o incidente, com a despedida de Manuel. 
E por que não vai o senhor mesmo ganhar essas alvíssaras? 
Tenho que fazer por cá. 
Ora! Não há na vila quem o mereça?… disse o Baeta com um riso de mofa, em que se percebia travo de fundo pesar. 
Canho interrogou com um olhar severo a fisionomia do peão. 
Você tem alguma coisa comigo, Chico? É por causa do pacau? Bem viu que foi uma brincadeira: a rapariga lá a deixei naquela mesma noite. 
Brincadeira, não! Dívida de jogo é dívida de honra. Eu não sou ladrão para tomar aquilo que perdi. O senhor ganhou a moça; ela é sua, lhe pertence. Senti cá dentro: mas não tinha que ficar zangado com o amigo, porque a sorte o favoreceu. Agora o que nunca pensei foi que se fizesse pouco caso da rapariga e a deixassem andar aí rolando pelas ruas como um trapo que o vento arrasta. A Missé não é nenhum peixe podre, Sr. Manuel Canho! Há aí alguma que lhe chegue aos pés, mesmo dessas mulheres de truz? Então quando ela se enfeita, mete a todas num chinelo! E para bailar o tatu? Que requebros, que denguices de minha alma! Ai, nem me falem! 
O Chico Baeta enternecido mergulhou a cabeça pelo ombro para disfarçar o choro que lhe marejava do coração. 
Uma rapariga como esta é para se tratar assim de resto, que nem rebotalho?… Quanta gente graúda não se daria por feliz de possuir um peixão daqueles? Sempre tão desejada e tão querida, quem nunca pensou que havia de nadar à toa pelas ruas, como matungo sem dono? Coitadinha, cortava o coração de a ver assim desprezada; quando me encontrava com ela, fazia tudo para a consolar: “Ele não te conhece, Missé; por isso… — Qual? me respondia; não o mereço.” E lá vão quase oito dias! 
Mas, Chico!… atalhou Manuel atônito do que ouvia. 
Não tem mas nem mês, Sr. Canho, retorquiu o peão formalizado. O senhor me afrontou duas vezes: a primeira vez me fazendo passar por um homem namorado de uma mulher à-toa de que ninguém faz caso, assim um lorpa que apanha o cisco da rua. A segunda vez tratando de resto minha companheira que o senhor ganhou para sua namorada e não para sua escrava. É o que lhe digo; o senhor me insultou, e me há de dar satisfação. 
Bem; eu lhe escutei calado; agora ouça. A Missé é a mais bonita moça que pode haver; naquela noite não sei com foi que nos perdemos, e você viu que no outro dia saí a toda pressa com a incumbência do Neto. Mas que ver, Chico, o preço que tem para mim sua namorada? Eu daria tudo para voltar agora mesmo à estância,  e saber onde ficou um amigo que não trocaria por todas as raparigas do mundo. Quem sabe se o mataram?… Que amigo é esse? perguntou o Chico. 
Morzelo, o cavalo de meu pai. Se o tiverem morto, hei de vingá-lo! Mas Neto espera as notícias; quando eu voltar, será tarde sem dúvida. Por um homem seguro que vá a Piratinim já, sem tomar fôlego, embora arrebente, eu dou o que tenho de mais valor, dou a Missé. Quer ser  esse homem, Chico? 
Como? 
Faço uma aposta. Se você chegar à vila ainda com dia, bateu nove; tira a desforra do pacau e ganha a rapariga. Mas você não é capaz!… Sério! 
Feche! exclamou Canho estendendo a mão. 
Está fechada. 
Mal soavam estas palavras, que já os dois cavalos arrancavam à rédea solta em direção oposta. Quando os peões devorando as lombas da várzea atingiam o dorso das fronteiras coxilhas e iam transmontar, voltaram-se para trocarem rápido aceno; dois gritos fenderam os ares.  Saudades à Missé! 
Abraço no Morzelo! 
Mesmo a correr, Manuel saltando para a garupa do animal, afrouxou os arreios que na rápida passagem pelo campo arremessou dentro da primeira moita, onde ficaram ocultos. Qualquer outro dificilmente acertaria depois com o lugar perdido no meio da vasta planície; mas para o gaúcho cada acidente da campanha era um traço, uma feição de sua fisionomia, e mesmo de relance gravava-se profundamente em sua memória. 
Livre dos arreios, o intrépido peão lembrando-se que Juca já correra seis horas, chamou a Morena, e de um salto se transportou para o outro animal, sem afrouxar a carreira em que ia. 
De espaço em espaço deixava o Canho um dos animais da tropilha escondido nalguma sanga ou restinga. Agora só o acompanhava o alazão; mas não perto como de costume, e sim muito de longe, quase a perder de vista. Quando o gaúcho precisasse dele, bastava um sinal da baia. 
Já durava algumas horas aquela corrida, quando surdiram longe alguns cavaleiros. Manuel tinha o maior empenho em não ser visto; sobretudo por aqueles homens que ele suspeitava serem os peões do rancho, ou pelo menos gente de Silva Tavares; era preciso deixá-los passar sem o pressentirem, para prosseguir em busca de Morzelo. 
Ao avistar os cavaleiros não teve a menor surpresa nem hesitação. Desde muito que ele estava preparado para os encontros; prevenira qualquer situação em que se poderia achar: para cada uma inventara recurso, quando a posição não lhe oferecesse. 
Assim, antes que os cavaleiros o descobrissem, pois de precaução ele corria deitado sobre o animal, já a baia estava mergulhada em um brejo coberto de tanchagens e aguapés, cujas folhas gigantes ocultavam a cabeça da égua e o corpo do homem. 
Os peões não tardaram a passar. 
O Félix está queimado! dizia a rir um dos cavaleiros. Não abre a boca! 
Pois se o cão raspou-se! 
Manuel não ouviu mais do que estas palavras; porém não lhe escapou que o ferro da lança do rapaz estava ensangüentado de fresco. 
Decorrida meia hora depois do primeiro encontro, Manuel descobriu não pela frente, mas à direita um troço de gente a cavalo. Era, sem dúvida, alguma partida pela qual o Silva Tavares mandara bater a campanha em roda da estância para evitar surpresas. 
Desta vez a posição era crítica. Manuel estava em campo raso, onde não ser percebia touça de macega, ou moita de camboim, capaz de esconder um veado, quanto mais um homem e seu cavalo. O gaúcho porém não trepidou; já então montava ele o Juca. Não se imagina a rapidez incrível com que deixou-se escorregar ao longo de uma ondulação do terreno, sobre o qual o alazão deitou-se, cobrindo-o inteiramente com seu corpo. Entre o chão e o flanco do animal apoiado no cômoro de relva, havia um vão onde o gaúcho se estendera comprimido pelo peso do quadrúpede; os interstícios que podiam denunciar o trajo, eram tapados pelos tufos de capim. 
O troço de gente armada passou a duas braças do Juca, e não vendo mais que um animal deitado, como se encontra a cada instante na sombra, seguiram seu rumo, e sem a menor suspeita de que deixavam ali o inimigo. 
Afinal avistou Canho além o rancho dos peões, e imediatamente distinguiu a meio caminho um vulto negro, que ele reconheceu. Era o corpo do Morzelo. Estaria vivo ou morto? O rincho triste e plangente da Morena, que assomara ao longe a sota-vento, era uma elegia de dor e saudade. 
Quando Manuel chegou junto do corpo, tinha o coração túmido e os olhos cheios de lágrimas. Ainda vivia o velho corcel; mas estava moribundo. Lançar-se a ele; sondar-lhe a ferida; rasgar a camisa para estancar-lhe o sangue; foi o primeiro ímpeto do gaúcho. O cavalo fitou os olhos no dono, com uma expressão eloqüente e expirou. 
Ajoelhado junto ao cadáver, e abraçado com ele, Canho deu expansão à sua dor. 
— Morreste, meu amigo; chegou tua hora. A nossa, a de teu companheiro de infância e de teus camaradas, talvez não esteja longe; talvez que vamos ter contigo muito breve! Mas eu sempre pensei que a ti, o bravo dos bravos, estava reservada a fortuna de morrer combatendo, e não pela mão traiçoeira de um malvado!… Morreste por dedicação; mas serás vingado, amigo! Eu juro sobre tua sepultura; e esses dois irmãos juram comigo. 
O Juca e a Morena que gemiam sobre o corpo do companheiro, escavaram o chão com a pata, e dardejaram ao longe um olhar que parecia uma espadana de fogo. 
Canho fez um esforço; tinha ainda um dever a cumprir para com o amigo: era o de darlhe sepultura, para que não fosse pasto dos abutres. Com o ferro da lança e as mãos abriu uma cova profunda na próxima capoeira; e arrastando o corpo de Morzelo o inumou nesse jazigo que ele consagrou com uma cruz, como se fosse o túmulo de um cristão. Para Manuel aquele era o símbolo do que há de santo na terra. 
 
 
XI 
DESÂNIMO 
 
Fazia lusco-fusco. 
Desenganados da caça que tinham dado ao bombeiro, voltavam os peões ao rancho, quando ouviram um estrépito medonho; e um turbilhão caiu sobre eles. 
Era o Canho e sua tropilha à disparada; o homem soltara brados espantosos; os cavalos rinchavam com estranha ferocidade. Manuel os tinha habituado a combater; pareciam leões na peleja. 
Os peões transidos, supondo-se atacados por força muito superior, dispersaram pelo campo fora. Um caiu ferido pela espada do gaúcho; ao outro alcançou o arremesso da lança; além o terceiro era colhido o laço enquanto o companheiro rolava com o animal esmagado pelas bolas. Se algum tentou levantar-se, os cavalos o acabaram a coices. 
Dos dois peões que restavam, um escapara-se; o outro, Manuel o seguia de perto e arremessando-se como um tigre na garupa estringiu-lhe o corpo em um abraço. Era o Félix. 
— Aqui estou! Não te querias encontrar comigo? 
Isto dizia o gaúcho ao ouvido de Félix, metendo as chilenas no ventre do animal, e sem tirar os olhos do outro peão que adiante corria. Entretanto desprendendo o laço amarrava os braços do prisioneiro de modo a tolher-lhe os movimentos. 
— Foste tu que lanceaste o Morzelo? 
— Fui! 
— E quem o boleou?… Responde, se não queres que os chimarrões te devorem vivo! 
A ameaça era terrível. 
— Aquele que lá vai, respondeu Félix. 
— Ah! Então é preciso nos despedirmos; tenho pressa.
— Mata duma vez! 
— Matar-te, a ti? Não; hás de viver, para namorar Catita ou alguma outra. sempre que ela olhar para ti, prometo que te lembrarás do bravo que assassinaste como um cobarde. 
Ouviu-se então o ranger do ferro na carne e um terrível bramido. Saltando outra vez no Juca, Manuel abandonou Félix e continuou a perseguir o último dos peões; aquele que primeiro insultara e abatera o brioso corcel, atirando-lhe as bolas. 
Durante a curta cena anterior o gaúcho não parara um instante: mas como então montava o cavalo de Félix, nenhum avanço tivera sobre o fugitivo. Agora, porém, de cada tranco do alazão, ganhava terreno. Contudo fora necessário que não lhe faltasse o espaço para alcançar o peão já muito distante. Era esse justamente o receio de Manuel observando a direção que levavam; a estância não podia ficar a muitas quadras; embora estivesse resolvido a seguir o matador do Morzelo até no seio do acampamento inimigo, quando chegasse, já o acharia refugiado dentro de casa e defendido pela força legalista. 
Nisto luziram ao longe os fogos da estância; calculando a distância e a dianteira do peão, o gaúcho soltou um assovio. 
— Morena! 
Entre os dois animais era difícil distinguir o melhor corredor. Em grande distância o alazão vencia a mãe; mas no primeiro ímpeto a égua excedia ao próprio filho na velocidade. Por isso a chamava o gaúcho. 
Poucos instantes depois o vulto esbelto da Morena perfilou-se com o alazão e Manuel passou rapidamente de um a outro animal. 
— Upa!… Upa!… 
A baia fendeu os ares como a asa negra do tufão; quando o peão surgia no clarão que derramava fogo pelo terreiro, os soldados atônitos viram precipitar-se um vulto negro, como uma águia em seu arremesso; e um corpo rolou aos seus pés. 
Imediatamente correram às armas; soou a fuzilaria; e do turbilhão de fumo desenvolveuse a sombra do gaúcho que fugia incólume entre uma chuva de balas. Já ele estava fora do alcance, quando recebeu nova descarga de um posto avançado, que o viu sumir-se ao longe nas trevas, Manuel ouvira quatro tiros, e só duas balas tinham sibilado a seus ouvidos; uma se amortecera nas dobras de seu poncho batido pelo vento; mas a outra? 
Morena devorava o espaço; nunca Manuel habituado à velocidade da égua sentira aquele ímpeto que lhe recordava a corrida vertiginosa da baia pelos pampas à busca do filho recémnascido. Depois de algum tempo julgando-se livre de perigo, quis moderar-lhe o impulso, mas ela desobedecendo-lhe pela primeira vez redobrou a rapidez. 
Esta insistência fez-lhe supor que era perseguido; o faro e o instinto do animal excediam sua perspicácia. Nisto reparou na ausência do alazão; quanto aos outros animais, era natural que ainda estivessem descansando das fadigas daquele dia tão penoso nos lugares onde os deixara. Mas Juca? Por que não aparecia? Tivera acaso a mesma sorte do Morzelo? 
Manuel chamou o alazão com o costumado sinal; um vento rijo impelia o somo na direção da corrida; e o silvo que soltara repercutiu-lhe longe, mas pela frente. Debruçando-se então, pruriu o focinho da baia para que ela chamasse o filho com o nitrido fremente que fendia os ares. A Morena ficou muda; e arremessando-se com um novo ímpeto perpassou nas trevas como a sombra fugitiva e silente do corvo arrebatado pela procela. 
Ao cabo de algumas horas dessa corrida delirante, a petrina da baia começou a resfolegar com uma espécie de estertor. Um pressentimento cruel cerrou o coração do gaúcho, que de um salto arrojou-se no chão.  
— Está ferida! 
Quando os pés do gaúcho tocavam a terra, Morena que sustivera-se até aquele instante com supremo esforço, deixou-se cair exânime sobre a relva. A mão convulsa do gaúcho, tateando-lhe o corpo, sentiu a tépida umidade do sangue derramado pela anca do animal. 
Faiscar lume, acender fogo com palha e gravetos, foi o primeiro movimento de Manuel. Ao  brilho vivo da chama, a baia fez um esforço para erguer a cabeça, pondo no amigo os olhos amortecidos. Bem a compreendeu ele; o animal receava que o fogo desse aviso ao inimigo; mas naquele momento pouco importavam a Manuel os que o perseguiam; o verdadeiro, o terrível inimigo, era o golpe que ameaçava essa existência querida. 
Prontamente examinara Manuel o ferimento e reconhecera sua gravidade. A bala penetrando de revés na anca se entranhara, mas não atravessou do lado oposto. Teria-se alojado e amortecido nas vísceras? Nesse caso o ferimento era mortal. Encontraria o osso da rodela e aí se  alojara? Se assim fosse, não havia lesão essencial; mas o esforço inaudito que fizera o animal e a grande perda de sangue, o punham em risco eminente. 
— Água!… murmurou o gaúcho. 
Só então reparou que se achava à borda de uma capoeira nas cercanias de Piratinim. De um cordão da serra dos Tapes que passa junto à vila descem inúmeros arroios; Canho descobriu um à pequena distância: rasgando a própria camisa, lavou a ferida e aplicou-lhe uma compressa para estancar o sangue. 
De joelhos ao lado do corpo da Morena, com os olhos fitos na cabeça do lindo animal, o gaúcho engolfou-se numa cisma dolorosa e tão profunda que não percebeu um ligeiro rumor de folhas secas pisadas por um pé sutil. 
— Assim devia ser!… balbuciaram seus lábios frouxos. Vivemos juntos, morreremos juntos, no mesmo dia. Morzelo, nosso velho amigo, foi o primeiro: deixou-nos esta manhã. Nós ficamos para vingá-lo; ele deve estar contente. Juca, a esta hora talvez já esteja com o padrinho; já terá conhecido o pai e o mano. A bala sem dúvida traspassou-lhe o coração, porque não soltou um gemido, não chamou nem por ti, nem por mim; foi mais feliz; não sofreu como tu, Morena!… 
Um soluço abafou por momentos a voz do gaúcho. 
— Foste tu quem te mataste, amiga, e para salvar-me! A bala em vez de atrasar a carreira, te deu asas; sentiste que me perseguiam, e voaste para me pôr fora do alcance do inimigo. E nem um gemido; nem um sinal por onde conhecesse que estavas ferida! Ah! se eu adivinhasse!… Para que fugirmos? Melhor era morrermos ambos combatendo, e vingando o nosso Juca! Eu só, não terei forças nem coragem! Que vale um homem meio morto; eu já morri no Morzelo, já morri no Juca; quando acabar de morrer em ti, que fico sendo? Uma cabeça sem corpo; uma mão sem braço! Então, melhor é dormirmos juntos no seio da terra. 
Manuel correu os olhos em torno procurando um lugar onde abrir a cova que devia recebê-los a ambos. Uma faixa vermelha listrava o horizonte, anunciando a alvorada. 
Neste momento o rumor tornando-se mais distinto excitou o reparo do gaúcho; mas com suprema indiferença pelo perigo, nem sequer volveu ele os olhos para perscrutar a causa. Que maior desgraça lhe podia sobrevir? Que mal ainda restava, de que valesse a pena guardar-se? 
 
 
XII 
A BALA 
 
Raiava a manhã em Piratinim. 
A rótula do oitão na casa de Fortunata abriu-se, e apareceu ali o gracioso rostinho de Catita, ainda amarrotado do sono. 
Os lábios rubros começaram um bocejo que se desfez em um sorriso, enquanto as costas da mão esquerda encostada à fronte protegiam os olhos sonolentos contra a luz do dia. Tudo é gentil na mulher formosa; até esse desalinho do acordar. 
A fresca brisa, que agitava os cabelos cacheados da menina em volta de sua cabeça, breve espancou-lhe as névoas do sono, e restituiu à tez a doce transparência da folha da rosa que se deslaça.  
Ouvindo a voz da mãe, que a chamava, Catita se embuçou na mantilha e marrando em um lenço alguma roupa, correu ao quintal onde a esperava Maria dos Prazeres. Ambas desceram a encosta da colina, e seguiram em direção ao rio. O tempo estava quente para aqueles climas, e convidava ao banho. 
Caminhando adiante com o pé ligeiro e o meneio airoso de seu andar, a rapariga devia enlear-se nalguma cisma; pois não se voltava para faceirar com a mãe, nem se abaixava para colher na relva estrelada de flores, as boninas de que tanto gostava. Em seus lábios risonhos esvoaçava um ligeiro descante, cuja letra mal se percebia: 
Livre, ao relento,  
Pobre, sem luxo, N’asa do vento Vive o gaúcho. 
Dias antes a rapariga achara casualmente no fundo de sua memória o eco dessa toada; e desde então que a repetia, buscando o fio que a tecera à breve história de sua vida. Onde e quando a ouvira? 
De repente desenhou-se em sua fantasia a cena passada três anos antes no alpendre da taberna em Jaguarão. No rapaz sentado a distância reconheceu o perfil de Manuel Canho, e compreendeu a estranha impressão que o gaúcho produziu nela já moça, quando o vira ultimamente. 
Estas recordações volveram o espírito da menina às preocupações que o absorviam durante a semana. Ela sabia que Manuel partira como bombeiro para reconhecer a posição do inimigo; e pressentia quanto essa missão era perigosa. Voltaria dela o gaúcho? E voltando continuaria a mostrar-lhe o mesmo desdém? 
Foi interrompida nestas cismas pela voz de Maria dos Prazeres. 
— Não vamos muito longe, não, menina; podem os caramurus aparecer por aí de repente.
— Qual, mamãe! Eles são capazes? 
— O seguro morreu de velho. 
— Então agora que Neto já tem um poder de gente. 
— Pois não disseram que ele saía com a tropa esta noite? 
— Ficou para hoje. 
— Que desgraças não vai haver com esta rusga, minha Virgem Santíssima! 
apesar da insistência da mãe, Catita continuou a margear o rio até o sítio que oferecia me-
lhor banheiro, pela completa solidão e espessura da folhagem que o recatava, assim como pela bacia espaçosa formada na curva da corrente. 
Enquanto Maria dos Prazeres com sua costuma pachorra descansava sentada na relva à beira do rio, a rapariga caiu n’água como um passarinho que mergulha e se espaneja. Estava ela entregue ao inocente folguedo, nadando e fazendo passos de dança, quando pela abóbada de verdura que ensombrava o rio, se propagou o surdo tropel de um cavalo.  
Nada mais natural naquela paragem; contudo a moça receando a aproximação de alguém, saiu apressadamente do banho. A mãe estava ainda de camisa, sentada no chão, a esfriar o corpo; de vez em quando riscava a flor d’água com a ponta do pé, que logo encolhia.
— Já acabaste? 
— Já, mamãe. 
— Está muito frio? 
— Não senti! 
— Uih! 
Durante este curto diálogo, Catita escondida entre a folhagem, vestia-se ligeira, acompanhando o tropel que se aproximava. 
— Entre, mamãe! 
— Já vou. Que pressas, gentes! 
Nesse momento a ramagem farfalhou; um vulto passava. Catita cuidando reconhecer o cavalo de Manuel Canho, obedeceu ao primeiro impulso e o seguiu. Não se enganava; uma réstia de sol iluminou o pêlo aveludado do Juca. 
— Que é, Catita? perguntou Maria dos Prazeres assustada. 
— Creio que os caramurus aí vêm! 
— Ai! meu São Brás!… Eu bem dizia! 
A mulher de Lucas, metendo os pés na pachorra, sem importar-se com a transparência e frescura de seu trajo, nem com a sorte da filha, empurrou-se para a vila, onde chegou de uma batida, deitando os bofes pela boca. Tendo-lhe o mato arrancado metade da fralda, imagine-se em que estado chegaria a rechonchuda matrona. Felizmente era cedo e o quintal da casa de Fortunata se estendia até as abas do povoado. 
Se Catita procurasse um meio para ficar só e livre de seguir seu impulso, não podia acertar melhor. Não foi porém a malícia que inspirou a lembrança, embora a aproveitasse. Reconhecendo o alazão, a rapariga acreditou que a chegada repentina do gaúcho significava a aproximação do inimigo; quando acudiu a reflexão, ela quis chamar a mãe e tranqüilizá-la, observando que o perigo ainda estava longe, pois o Canho não se apressava em entrar na vila. 
Mas sorriu e continuou a seguir o cavalo, o qual embora levasse um grande avanço, deixava na ramagem os traços de sua passagem e o caminho aberto. Ao cabo de alguns instantes ouviu a rapariga outro relincho, mas este era triste e soturno como um lamento. O alazão estava parado em um raleiro de mato. 
Perto via-se, prostrado em uma cama alta de capim, o corpo da Morena; o sangue que lhe corria da ferida encharcava o chão. De instante a instante o generoso animal perdia o alento; já não tinha força de mover a cauda para afugentar as moscas e um reflexo baço e vítreo começava a cobrir-lhe a retina. 
Ouvindo o gemido do alazão, os olhos da égua cintilaram, procurando o filho, mas logo amorteceram; a cabeça que só se erguera com um esforço tombou pesadamente, e súbito estertor percorreu-lhe o corpo. 
Comovida profundamente com esta cena, Catita correu para o animal, e sentando-se no chão pôs-lhe no regaço a cabeça inerte que estreitou ao seio, cobrindo-a de carinhos e  de lágrimas. Entretanto Juca lambia a ferida e o corpo da baia, procurando com a baba cheia de seiva e vitalidade, estancar o sangue e restituir-lhe o calor aos membros entorpecidos. 
De vez em quando a rapariga deitava o olhar em torno à procura de Canho; ela adivinhara sua presença recente no cuidado com que estava feita a cama da Morena, e no chapéu suspenso a um ramo seco de árvore. Naturalmente o gaúcho se afastara em busca de algum remédio.  Não se enganava. 
Manuel reconhecera que não havia meio de estancar o sangue enquanto a bala estivesse alojada junto ao osso, impedindo a aderência das carnes e ligação dos vasos ofendidos. Tendo preparado a cama dentro do mato, e ajudado a baia a arrastar-se até ali, mal rompeu o dia partira para a vila com intenção de munir-se de um objeto qualquer que lhe servisse de tenta e de pinça.  Nesse momento Juca descobrindo um gozo que saíra do mato e farejava o sangue, o arremessou longe com a pata. 
O cãozinho desapareceu. 
 
 
XIII 
OS CHIMARRÕES 
 
Voltou Canho afinal com uma haste de ferro, arqueada na ponta à maneira de uma torquês: foi tudo quanto pôde obter de um ferreiro cuja especialidade era fazer pregos e arcos de barril. Quando entre uma fresta do mato, descobriu longe o grupo que formavam Morena, Catita e Juca, foi terrível a impressão. 
— Morta? disse ele precipitando-se. 
— Não! balbuciou Catita, mas tão timidamente que Manuel a compreendeu mais pelo gesto do que pela fala. 
Os olhos do gaúcho encontrando os da rapariga, não se desviaram, como outrora. Quem eles viram não era mais a mulher bonita e sedutora, e sim um coração que entendia e partilhava sua dor; uma alma que naquele momento solene entrava na santa comunhão de suas afeições. 
Ajoelhando em frente da moça, curvou-se quase sobre o seu regaço para observar a Morena; e com um gesto de angústia mostrou-se a lividez que se derramava pelo cristalino dos olhos do animal. Catita pressentira esse gesto, e duas lágrimas correram-lhe pela face. 
— Enquanto a bala estiver dentro, o sangue não estanca e… 
Um soluço abafou a voz do gaúcho, que preparou-se para tentar a operação. Só então abraçou o alazão, a quem na véspera julgara morto. O Juca estendeu o focinho para o horizonte, meneou a cabeça, olhou a mãe, e gesticulou. O que pretendia ele exprimir com isso? Manuel entendeu que o alazão perseguido correra toda a noite em sentido contrário, para fazer que o inimigo perdesse a pista da Morena. 
Depois dos maiores esforços para extrair a bala, o Canho descoroçoado derrubara a cabeça aos peitos, ajoelhado ao lado do corpo da Morena, quando uma voz formidável reboou entre as árvores. 
— Cá está o cujo. 
Era o Lucas Fernandes, que rompendo o mato, se apresentou impávido ante os olhos da filha e do gaúcho. Lançando uma vista rápida à cena, própria para surpreender outro homem que não fosse o furriel, travou ele do braço do Canho. 
— Há uma hora que andamos à sua procura, Manuel; aqui estão os amigos. 
O Canho afastou-se para evitar que os estranhos penetrassem naquele sítio. À beira do mato encontrou Verdum, Ortis, Rolin e outros. Os orientais, sabendo da volta do bombeiro, tinham improvisado um ataque ao acampamento do Silva Tavares; Neto, de partida para Pelotas com o grossa da força, lhes cedera uns trinta peões e com esse punhado de gente pretendiam os caudilhos levar ao cabo a temerária empresa; sem o Canho porém sentiam que nada poderiam fazer. 
Lucas aplaudira com entusiasmo o plano, e se incumbira de procurar Manuel que fora visto na vila ao romper da alvorada. Os caudilhos impacientes o tinham acompanhado em sua pesquisa. 
Manuel ouviu três discursos, um de Ortis, outro de Verdum, e o último do furriel; cada um dos oradores expôs com veemência o plano de ataque e exaltou os resultados do esplêndido triunfo, que decidira da sorte da revolução, abatendo de uma vez o poder imperial. 
— Em 1832 eram trinta e três; agora seremos trinta e sete, quatro de mais! exclamou Verdum, batendo no ombro do Canho. Que diz, amigo? 
— Eu não posso! respondeu Manuel pausadamente. Foi geral o espanto. 
— Que é isso, homem? 
— Acha que somos poucos! 
Manuel encolheu os ombros. 
— Os senhores são trinta e sete; ontem quando lá estive, eu era um só. 
— Mas por que razão não quer você vir conosco, Manuel? 
O gaúcho calou-se; o que ele sentia, os outros não poderiam compreendê-lo. 
— Algum dos senhores abandonaria seu irmão e seu amigo quando ele está a expirar? 
— Acima de tudo a pátria! 
— Minha pátria é a campanha onde corre meu cavalo. 
— Se fosse João Canho que me ouvisse neste momento, já ele estaria na sela. 
A invocação do nome do pai abalou o coração do gaúcho, pois recordou-lhe a abnegação do antigo soldado quando se tratava de cumprir um dever. Nesse momento sentiu na mão o atrito de uns dedos sôfregos e a impressão de objeto frio e pesado. Era uma bala. Catita com o tato admirável da mulher a extraíra da ferida, e viera mostrá-la timidamente a Manuel. Ali estava ela com os olhos baixos, trêmula, como se tivesse cometida uma falta.  
O gaúcho cerrou-lhe a ponta dos dedos com força. A essa interrogação impetuosa respondeu o olhar ardente da rapariga. 
— Sigam que eu já os alcanço. 
Pronunciando estas palavras rapidamente, o gaúcho arredou com um gesto os companheiros, e correu ao lugar onde estava a Morena. O sangue estancara; e o animal babujava, ainda sem força para mastigar um molho de tenra grama. 
A esperança iluminou o torvo semblante do gaúcho. Com um movimento convulso apertou ele ao seio o corpo trêmulo de Catita, e saltando no Juca desapareceu. 
Teriam decorrido duas horas depois da partida de Manuel, quando o mesmo cãozinho que o alazão afugentara apareceu na orla do mato, e soltou um latido, a que respondeu perto um surdo regougo. 
Catita estremeceu, vendo que estava cercada por uma matilha de cães chimarrões. Esses animais, criados nas charqueadas, às vezes se multiplicam prodigiosamente, e vagam em bandos pelos campos, como lobos carniceiros; naquela época andavam eles famintos, porque a revolução fizera abandonar a carneação das reses. 
Compreendeu a moça o perigo da Morena e o seu próprio se não desamparasse o animal ferido à voracidade dos cães. Os molossos farejavam o sangue arregaçando as belfas e escancarando as fauces erriçadas de longos dentes acicalados. Longe ressoou o latido furioso de outra matilha que se aproximava. 
Nem um momento a idéia de abandonar a Morena para salvar-se, passou pelo espírito da corajosa moça. Ajoelhando-se ao lado da baia, cingiu-a com seus braços, e encomendou a alma a Deus. 
Nesse momento supremo, ante a morte horrível que a ameaçava, ela sentiu um grande consolo, lembrando-se que morria por Manuel. 
 
 
XIV 
VISÃO
 
Alcançando Verdum, Manuel embora disposto a partilhar a sorte do combate, declarou ao coronel que o ataque naquelas circunstâncias, com tão pouca gente, era uma imprudência; porque o inimigo estava alerta e não se deixaria surpreender. 
O oriental insistiu; o resultado foi uma carnificina que ele pagou com a vida. Era a primeira derrota da revolução, a que devia seguir-se em poucos dias a do capitão Porciúncula no Arroio Grande. 
Manuel e Juca bateram-se como leões e vingaram a Morena de uma maneira terrível. Quando passavam no meio de um turbilhão por entre os inimigos, dir-se-ia o gênio do extermínio  cavalgando um corcel de asas de fogo. 
Vem do que de seus companheiros já não restavam no campo senão cadáveres, o gaúcho como um tigre saciado da carnificina, escapou-se. Perseguido de longe pelo inimigo avistou ele adiante o furriel, cuja cavalgadura estropiada galopava sobre três pés. 
Passar, suspender Lucas nos ares e encaixá-lo no lombo do Ruão, foi coisa de relance. O miliciano ainda supunha-se espetado na ponta da lança inimiga, que já corria à desfilada, tangido pelo gaúcho. 
Era alta noite, quando avistaram as torres de Piratinim. Manuel dirigiu-se ao raleiro onde havia deixado Catita e Morena; a escuridão não permitia distinguir os objetos; mas ele reconheceu logo que o sítio estava deserto e fora recentemente o teatro de uma luta; havia ali um tépido odor de sangue. Com o coração estringido por um terrível pressentimento, faiscou lume do fuzil e acendeu um molho de capim seco. 
— Cães! murmurou Manuel transido. 
Que horrível espetáculo! No meio do chão revolto viam-se grandes charcos de sangue; e ossos ainda mal despojados da carne, esparsos aqui e ali pela orla do mato. Em um desses acervos de detritos animais, descobriu Canho um pano que ergueu com a ponta da faca e aproximou do fogo. 
— Conhece? disse ele para Lucas pasmo ante esta cena. 
A voz de Canho pronunciando aquela palavra tinha um acento medonho. Um calafrio percorreu o corpo do alferes, cujo espírito parecia recuar espavorido ante a idéia que assomava. Seu olhar esbugalhado era uma ânsia e uma interrogação. 
— É da saia de sua filha! 
— Catita! 
O nome da filha envolto em um gemido dilacerante, eis tudo quanto se exalou dessa alma selada pela estupidez da dor. 
— Foi o senhor quem matou-as, a ambas, arrancando-me daqui. Agora havemos nós de ficar também; os cães naturalmente voltam. 
Um estranho riso, que repercutiu na treva como o crocito da coruja, acompanhou estas palavras. O furriel era sem dúvida um homem destemido; mas aquele riso penetrou no seu cérebro como a lâmina de um estoque; súbita alucinação mostrou-lhe o quadro espantoso dos cães famintos esgarçando-lhe em lanhos as carnes palpitantes. 
Assombrado, Lucas fugiu. 
Manuel, porém, o perseguiu escarniçadamente, e conseguiu afinal agarrá-lo. 
Como ia voltar com ele ao sítio donde saíra, encontrou em caminho um troço de dez cavaleiros.  
— Quem vai lá? 
— Passe seu caminho. 
— Manuel!… Escute! 
— Quem é? 
— Não conhece mais o Chico Baeta? E os outros? 
— Lá ficaram.  
— Todos? 
— Menos os dois que vê. Antes lá ficassem também.  
— Até Verdum? 
— Foi dos primeiros. 
— A coisa vai mal. Agora mesmo chegou este camarada com uma notícia. O Marques sabendo que Bento Gonçalves já estava em Camacã para reunir-se a Neto, mandou uma partida… 
— Contra o coronel? 
— Sim, para prendê-lo ou matá-lo, que é o mais certo. 
Manuel não quis ouvir o resto; assobiou para chamar a tropilha; e saltando no lombo do primeiro cavalo que se aproximou partiu com o Chico e os outros peões, para baterem campo até Camacã, e derrotarem qualquer emboscada, ou morrerem defendendo Bento Gonçalves. 
A notícia não era muito exata; o major Marques, o atual visconde de Porto Alegre, comtemporizava diante das forças de Porciúncula, esperando a junção com Silva Tavares, para atacar o chefe rebelde e derrotá-lo, como sucedeu em princípio de outubro. 
Quanto a Bento Gonçalves, Manuel o encontrou dias depois na margem do Camacã além do passo do Mendonça. O coronel reunia alguma força para marchar sobre Pelotas, quando soube que Neto havia derrotado Silva Tavares no passo do Retiro. 
Manuel, outra vez bombeiro, foi incumbido pelo coronel de espiar os movimentos da força do major Marques, o qual podia ameaçar Piratinim, e dirigir-se à capital desde que achasse o caminho desimpedido.  
Eram oito horas do dia. 
Oculto na coroa de mato, que cingia a crista de uma pequena coxilha a cerca de duas léguas de Piratinim, o Canho espreitava a campanha, especialmente um ponto distante, à margem do rio. Ali arranchara uma partida de exploradores destacados da força do major Marques.  
Manuel a observava desde a véspera e suspeitava que achando a vila desprevenida, tentasse uma surpresa; por isso a precedia obra de uma légua, pronto a dar aviso aos rebeldes, no caso de ataque.  
Com os olhos fitos no alvo, e o corpo debruçado sobre o pescoço de Juca, Manuel absorvia-se no pego de recordações dolorosas em que se debatia sua alma desde a noite terrível do combate. Nas trevas de seu espírito ressurgia, tocado pela doce luz da esperança, o quadro que ele vira partindo: Catita a velar com terna solicitude pela Morena, sua irmã na beleza e na dedicação. Súbito aqueles dois vultos queridos sumiam-se num turbilhão espesso; e o painel suave não era mais do que um charco de sangue coalhado de ossos. 
A alma do gaúcho se embotara; nem para a vingança tinha mais as energias de outrora. Vingar-se de quem, de um vil animal faminto, que saciara a rafa? Nessa existência fulminada só palpitava ainda uma fibra: a do dever, ou antes, da lealdade. Dedicara-se a uma causa: não podia repudiá-la. 
No meio destas cogitações, o pêlo do alazão que Manuel cobrira de uma crosta de lama para disfarçá-lo, hispou-se com um ligeiro arrepio, e a ponta das orelhas afiladas canutaram-se com excessiva rijeza, o que denotava extrema atenção. Despertado por estes sinais, e vendo o largo peito do corcel que sublevava-se num amplo resfôlego, Manuel lançando rapidamente a mão às narinas do cavalo, pôde recalcar a tempo o possante nitro que se desatava já. 
Devia ser bem poderosa a causa, que assim perturbava o inteligente corcel, fazendo-o esquecer sua prudência e calma inalterável em face do inimigo. O gaúcho embebeu o olhar na pupila cintilante do cavalo e pela primeira vez não o compreendeu. Entretanto nos ares passava uma repercussão quase imperceptível, como o zumbir de uma vespa. 
Os exploradores ao longe arreavam os animais para partir. Manuel voltando às suas lucubrações, observava maquinalmente o que ali passava, mas através da visão horrível que não o abandonava; ele via tudo por entre aquele prisma negro. 
Outra vez o quadro suave da despedida assomou a seus olhos; mas a pouco e pouco as imagens se debuxaram com mais vigor; os vultos animavam-se e viviam. A Morena se erguera espasmando os flancos; o talhe esbelto de Catita ondulava-lhe sobre o dorso, ufano deste troféu. A moça e a baia não formavam mais do que uma só existência e uma só pessoa. Era o tipo da beleza esplêndida da campanha; a rainha dos pampas; a gazela do deserto, a amante do centauro americano; a gaúcha enfim. 
— Manuel! 
Quando esta palavra suspirou entre as folhas, como um arpejo da brisa, Canho levou rapidamente as mãos ao rosto para espancar a alucinação dos sentidos. 
Mas era realidade e não sonho a suave aparição. Catita assomava entre a ramagem, por onde perpassou ligeiro o vulto da Morena. foram seus lábios que murmuraram o nome dele; foram seus olhos que cintilaram na espessura. 
— Viva! balbuciou o gaúcho. 
É ocasião de referir a cena que se passou depois do assalto dos chimarrões. 
Resignada a morrer, Catita ficara debruçada sobre o corpo da Morena. um dos molossos primeiro arrojou-se, e abocanhando-lhe a saia arrancou uma tira. Com o grito da moça, a égua despertou; e vibrando o casco, esborrachou o focinho do cão. 
O curativo da ferida e a nutrição que recebera tinham restituído à baia algum vigor; e fazendo um esforço pôde erguer-se sobre as três patas, e preparou-se para defender valentemente a vida da amiga que velara sobre ela com tanta solicitude. 
Nesse momento os latidos que a moça ouvira em distância aproximaram-se; e um turbilhão passou ante seus olhos. Era uma rês com sua cria assaltada por outra matilha de cães. o animal já ensangüentado, às vezes voltava a face ao inimigo para defender o filho; mas acossado fugia após o bezerro. 
Os molossos que haviam atacado Catita seguiram os outros e desapareceram com eles. Aproveitando o respiro, a moça rompeu com a égua por dentro do mato, e afastou-se o mais que pôde daquele sítio funesto. Morena a acompanhava a custo; de vez em quando cedia à fraqueza; mas afinal chegaram à vila. 
Entanto a rês exausta da fadiga, depois de muitas voltas pelo campo fora, veio cair com o filho no mesmo lugar onde estivera a égua, pensando achar ali um refúgio. A matilha famulenta devorou-os ainda vivos: o banquete durara até a noite, poucas horas antes da chegada do Canho. 
Já então Catita tinha abrigado no quintal da casa a baia, que seus desvelos breve restabeleceram. Depois de alguns dias, a moça pela manhã, quando ia ao banho, montava mesmo em pêlo na Morena, que gineteava com ela pelo caminho, juntas brincavam nadando no rio, e folgavam escaramuçando pelo campo. 
Pareciam duas amigas de infância, a fazer travessuras de criança. 
Nesse dia a baia despediu como uma flecha pelo campo afora; quando a moça a quis reter, ela soltou um nitrido vibrante e redobrou a corrida. O coração de Catita palpitou em doce alvoroço; pressentira a aproximação de Manuel. 
Não se enganara; ao cabo de meia hora, a baia resvalou sutilmente pela coroa de mato, onde estava oculto o bombeiro: foi então que a moça murmurou o nome do Canho, a quem seus olhos agora distinguiam entre a folhagem. 
Ei-los em face. Morena acariciou o senhor, e abraçou o filho com o pescoço. Manuel olhava Catita; e a moça embebia-se nesse olhar. Todo o tempo que a alma dele tinha deixado de beber essa imagem querida; todo o tempo que a paixão dela se tinha guardado, como o perfume de uma flor agreste, para influir-se no coração do amante; todo esse longo passado, não vivido, resumiu-se naquele olhar. 
Entretanto os exploradores, que tinham visto a baia passar ao longe e sumir-se na coroa do mato, botaram os cavalos nessa direção, e suspeitando alguma emboscada, deram uma descarga para desmascarar o inimigo. 
As balas que sibilavam por cima de suas cabeças, não arrancaram os dois amantes ao enlevo da paixão. Suas mãos se tocaram: Catita reclinou a frente enrubescida; e Manuel colheu a flor dos seus lábios mimosos que soluçaram num beijo. 
O tropel que reboou perto arrancou o gaúcho àquele êxtase inefável. Impelindo a Morena com um gesto, acompanhou de longe com os olhos o vulto da moça que afastava-se rápida e sutil por entre a folhagem; depois arremeteu contra o inimigo. 
Quem já observou os ziguezagues de um raio que listra o horizonte, pode fazer uma idéia do que foi a corrida do gaúcho pelo campo, através dos muitos inimigos que o atacavam. Passou entre eles como a centelha elétrica, deixando um rastro sinistro; e apagou-se de repente, submergindo-se no seio da terra. 
Metidos, ele e Juca, em tremedal profundo, zombaram durante muitas horas das pesquisas dos exploradores. 
 
 
 
LIVRO QUARTO UPA! 
 
 
A TIRANA  
 
Que bela noite de luar jaspeia os cerros de Piratinim! 
Há uma festa na vila. O regozijo das primeiras vitórias da revolução associa-se ao prazer da novena. Lá no adro da matriz passeiam os bandos de moças e rapazes por baixo das arcadas e palmeiras iluminadas com lanternas de papel de várias cores. 
Próximo ao coreto, no terreiro cingido por festões e colunas enramadas com folhas de canela, dançavam a tirana que é o lundu gaúcho. As violas trinavam no meio do coro formado pelas risadas, pelos ditos joviais, e pelo rosetear das chilenas. 
Catita, de pouco chegada, acompanhava com vivo interesse as evoluções graciosas do par, que sapateava no meio do terreiro. Amiúde seu corpinho gentil arfava com a súbita expansão do passarinho que abre as asas para voar; o pezinho buliçoso e sôfrego calcava o chão com ímpeto, como se o quisesse repelir. 
Ao lado da moça estava um mancebo elegante vestido a primor: tinha jaqueta curta de veludo azul com botões de prata; a calça larga da mesma fazenda rematava em franja de renda branca, pouco abaixo do joelho; o xale de touquim amarelo que servia de faixa, apertava à cintura um punhal com cabo de nácar e uma pistola de coronha tauxiada a ouro. Sobre as preguilhas de cambraia do peito da camisa, caíam as pontas do lenço de garça escarlate, que ele trazia como gravata. As botas acamurçadas de couro de terneiro, copavam-se de modo a mostrar a perna bem torneada que debuxava a meia de seda cor de castanha. 
Esse casquilho era o nosso conhecido D. Romero, cujo semblante gentil e talhe garboso davam mais realce ao lindo traje. Atirando o pala e o bolívar em cima de um banco, o mancebo dirigiu galanteios à Catita, convidando-a à dança.  
Enlevada com os elogios que fazia o mancebo à sua beleza, a moça pagava-lhe em ternos sorrisos; mas recusava o convite, apesar da tentação da viola. Afinal tanto insistiu o chileno que ela rendeu-se. 
— Pois sim! murmurou a medo. 
Catita não queria tomar parte da função por causa da ausência de Manuel; porém não pôde mais resistir. Há na natureza humana dessas excentricidades; o coração que nas grandes lutas atinge ao heroísmo, é de uma tibieza incrível nas pequenas contrariedades. 
Essa moça, que já uma vez arrostara a morte por causa de Manuel; que em um acesso de ciúme não recuara ante o maior sacrifício; que, para receber o primeiro beijo de seu amado, atravessara sorrindo por entre uma chuva de balas, seria capaz ainda em um assomo da paixão de repetir qualquer daqueles atos de intrepidez e abnegação, porém não tinha forças para cerrar os ouvidos aos dengues de um casquilho, nem para esquivar-se ao delírio do bailado voluptuoso.  
O que é a vaidade na mulher, senão essa mesma vertigem que alucina o homem sob o nome de glória? Sede insaciável de luz, embriaguez de admiração, na qual muitas vezes afogamse a honra e a virtude. 
D. Romero saltara no terreiro, e bailava com a graça e a bizarria andaluza. Ninguém sapateava com mais garridice, fazendo retinir as rosetas das chilenas ao ritornelo cadente do fandango. 
— Assim, roseteiro! diziam os rapazes com entusiasmo.   
— Por vida que a Catita fica pelo beiço. 
— Que esperança! E Canho? 
— Leva carona! 
O chileno tinha chegado a Piratinim quinze dias antes, e era novidade da terra. À tarde, quando ele saía a gauchar no seu lindo cavalo castanho não havia moça que não entreabrisse a rótula para deitar-lhe olhadelas matadoras. D. Romero, embora apreciasse e retribuísse essas demonstrações, assestara seus fogos sobre a filha do Lucas. 
Depois de algumas voltas, o chileno atirou o desafio a Catita em um passo novo e floreado que todos lhe invejaram. 
— Como arrasta a asa o peralta! 
— Mas não pilha! 
— Pois eu aposto. 
Catita havia recusado o desafio de todos os rapazes da roda; e sabia-se o motivo, que era a ausência de Manuel. Agora estavam ansiosos por ver o que ela fazia. Uns apostavam pelo Canho, outro por D. Romero. 
— Então! 
Essa exclamação partiu dos últimos, vendo o talhe feiticeiro da menina colear-se, como o pescoço de um cisne. 
Mas o frêmito de um corcel fendera os ares, atravessando por esse rumor festivo como lâmina buída que traspassasse um coração em júbilo. Um raio de lividez perpassou no semblante da moça, que retraiu-se por um supremo esforço. Para disfarçar o movimento e responder à atenção geral, travou da guitarra, que a seu lado acabava de afinar um cantor de modinhas. 
Depois de alguns prelúdios, soltou Catita esse descante: 

Entre tantos que me querem
A nenhum posso querer:
Sorte que todos preferem
Só um soube merecer. 
Ai! ai! não vejo meu bem. 
Já tarda, por que não vem? 

Repetia ela segunda vez o estribilho, quando abriu-se a roda, e um vulto, arrebatando a viola das mãos do tocador, saltou da sela no terreiro. Era Canho. 

Não tarda, faceira, não 
Tu chamaste; ele chegou;
Arreava o alazão 
Quando a viola chiou. 
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá. 
Teu bem, caramba, aqui está. 
 
Manuel já não era o mesmo homem. O amor tinha domado o rei do deserto, o centauro dos pampas: e o atirava de rojo aos pés de uma mulher. Ele dançava com bastante graça, fazendo ruflar as chilenas; e ninguém improvisava melhor no desafio. Entretanto quem o conhecesse passava por uma estranha surpresa, vendo aquele caráter indômito e rígido tão fora de sua natureza. O gavião real, arrulhando como a juriti, não produziria igual impressão. 
Por sua vez Catita lançou-se de uma pirueta no torvelinho, com a veemência de um desejo por muito tempo sofreado. Não se imagina a rapidez das evoluções, a flexibilidade dos requebros, e a sutileza do passo, que meneavam esse corpinho gentil nas ondulações voluptuosas da dança gaúcha. 

Quem disse, que eu lhe chamei,
Enganou-o, meu senhor;
Se meu coração já dei, 
Não sou cigana de amor. 
Ai! ai! não vejo meu bem; 
Já tarda, por que não vem?

O desafio continuou por algum tempo entre Manuel e Catita: 

Ai, vida que me maltratas
Com este fino bailar; 
Por que logo não me matas
Se tu me queres matar. 
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá. 
Teu bem, menina, aqui está.  
 
Já se queixa que o maltrato;
Quem foi que me fez assim?
Todo o homem que é ingrato
Não se chegue para mim. 
Ai! ai! não vejo meu bem. 
Se ele tarda, é que não vem! 
 
Machuca este coração, 
Machuca, bem machucado,
Que tu não bailas no chão,
Mas neste peito chorado. 
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá. 
Teu bem, menina, aqui está. 
 
Coração de meu benzinho, 
Não havia machucá-lo;
Que lhe fiz aqui seu ninho
No meu peito pra guardá-lo. 
Ai! ai! não vejo meu bem 
Tarda tanto; é que não vem. 
 
Requebra, vidinha, assim, 
Requebra-me esse corpinho,
Não tenhas pena de mim, 
Que estou feito um cavaquinho. 
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá. 
Teu bem, menina, aqui está. 
 
O cavaco é boa isca,  
Chegando ao fogo se inflama;
Mas se meu peito faísca,  
Não há quem lhe sopre a chama.
Ai! ai!, que perdi meu bem;   
Não espero mais ninguém. 
 
Tirana, meu bem, tirana, 
Tirana de meu amor; 
Por que assim você me engana
A fingir este rigor. 
Ta-ri, ta-la-ri, tá-tá. 
Já me vou, não torno cá. 
 
Quem me dera, ser tirana,
Pois havia ser querida;
Nem daria a quem me engana,
Tanto amor e minha vida! 
Ai, não fuja, não, meu bem, 
Que me mata esse desdém! 
 
O último verso de Catita foi um rasgo admirável da tática feminina.  
Reparando que D. Romero de arrufado se afastava, a faceira improvisou aquele estribilho, que respondia a Manuel, e ao mesmo tempo consolava o chileno, a quem ela o enviou em um olhar provocador. 
Quando Manuel cheio de prazer voltava à roda, depois da dança, avistou pela primeira vez o chileno, que nesse momento falava a Catita.  
O coração do gaúcho confrangeu-se. A vista de uma serpente, elando-se ao corpo de sua amada e cingindo-lhe o colo, não produziria nele a angústia que sentiu. 
Alguém, batendo-lhe no ombro, suspendeu talvez seu primeiro ímpeto.  Deste pancas na tirana. Gostei! 
Era o Chico Baeta que trazia de braço a Missé. A rapariga saudou o gaúcho com um sorriso malicioso, lançando um olhar para o lado de Catita.  
Então? Vens tomar uma guampa? 
— Obrigado, respondeu Canho afastando-se. 
 
II 
SEÑORITA 
 
Terminara a festa. 
Manuel, encostado à ombreira da porta de Fortunata, estava olhando o azul do céu aljofrado pelo esplêndido luar. 
A rótula abriu-se. 
— Que me quer você, Manuel? disse uma voz suave.  
— Dizer-lhe adeus, Catita. Vou a Buenos Aires! Já estou de partida.  
— Que viagem é essa agora? exclamou a moça com voz trêmula. E para tão longe? 
— O coronel mandou. 
Catita sabia o poder que Bento Gonçalves exercia sobre o gaúcho.
— Quando se quer bem... 
— Acabe, Catita. 
— Não; para quê? 
Manuel travou da mão da moça e falou-lhe com um tom rápido, apontando para o canto da rua onde se percebiam vultos de animais. 
Ali está Juca e Morena. Vem, deixemos o mundo; o pampa será nossa pátria; ele é imenso; nós o encheremos com o nosso amor. Lá seremos nós dois unicamente; ninguém poderá separar-nos. Vem! 
— Não, murmurou a menina assustada daquelas palavras e do tom em que eram proferidas. Tenho minha mãe. 
— Ah! Então bem vê que devo partir. O coronel conta comigo.  
— Mas volte depressa, eu lhe peço!
— E é preciso pedir-me, Catita? 
A conversa prolongou-se; os dois amantes retardavam a hora da partida repetindo os protestos e as juras de seu afeto. Afinal chegou o instante da separação.  
Adeus, Catita. Lembra-te que hoje só tenho a ti no mundo. Minha vida é teu amor; tu podes matar-me com uma palavra, com um olhar, como aquele que esta noite vi em teus olhos... 
— Manuel! 
— Aquele homem... disse Canho com a voz surda. Desde o primeiro instante em que o avistei, tive um pressentimento de que hei de matá-lo; e nunca ofendeu-me. 
— Que me importa ele? Vai descansado, Manuel; tu levas minha alma, porque eu só vivo para ti. Lembra-te que eu já te amava com paixão, quando tu nem sequer me olhavas! 
Um beijo selou estas últimas palavras; e Manuel arrancou-se dos lindos braços que lhe cingiam ternamente as espáduas. 
Quando ele afastava-se, viu à claridade da lua um vulto que o fitava com um só olho, pois o outro, bem como grande parte do rosto, estava coberto de parches. Essa pupila única chamejando no meio daquela máscara tinha um aspecto sinistro. 
Canho reconheceu Félix; e apoderou-se dele um sentimento de compaixão por aquele infeliz. Podia ser morto o inimigo, depois que o vencera em combate; mas desonrá-lo marcandolhe a fronte com o estigma de seu ódio, não devia. 
Foi com um aperto de coração que Manuel deixou Piratinim. Ainda o galope de seu cavalo reboava ao longe; Félix que o vira partir apalpou na cinta o cabo de uma navalha que trazia, e sorrateiramente foi se aproximando da rótula onde Catita se conservava absorta na saudade de tão repentina separação. 
Como voltara Félix a Piratinim, depois do que era passado? 
O mesmo ódio que o levara ao campo dos legalistas, o trazia de novo para os rebeldes. Desde que não se tratava de ensinar os castelhanos, pouco se importava que vencessem os caramurus ou os farroupilhas; contanto que ele se vingasse do homem a quem detestava. 
Deixado por Canho no meio do campo, com um golpe que lhe fendera o rosto transversalmente, vazando o olho esquerdo e rasgando os lábios, o rapaz conseguira transportar-se a um rancho próximo, habitado por um peão com a mulher e os filhos. Aí ficou alguns dias curandose. 
Félix sabia que tinha de ficar horrivelmente desfigurado com o gilvaz. Nunca mais Catita o poderia amar, nem mesmo vê-lo sem repugnância. Que valia a vida para ele? Estava pronto a dá-la toda pela vingança: já não tinha neste mundo outra esperança, outro fim, outro destino. 
Qual seria porém essa vingança? Queria uma, estupenda, medonha, feroz como nunca houvesse antes dele. Foi no delírio da febre de sangue, quando o cérebro fervia-lhe como o chumbo na retorta, que se gerou o horrendo aborto, jamais concebido pelo rancor, em uma imaginação alucinada. 
Manuel amava Catita, embora negasse. Não tinha ele, Félix, em seu rosto a marca indelével desse amor cruel? Pois bem; quando o namorado estivesse de todo rendido pela moça; quando pusesse sua ventura em olhar para aquele rosto feiticeiro, então se levantaria a mão implacável da vingança, e... 
— Eu farei dela, o que ele fez de mim; uma caveira viva! murmurou o enfermo estorcendo-se no delírio da febre. Catita ficará horrível. E eu matarei assim de fome a alma do cão, como ele matou-me a esperança de minha vida! Quem poderá amar a fúria? Só eu; como só ela me poderá amar! 
O sonho dessa monstruosa paixão entre dois monstros brilhou nas alucinações do enfermo como o laivo sinistro de um relâmpago no meio do vermelho clarão de um incêndio.  
O sobrinho de Lucas tendo chegado à vila na véspera, inventou facilmente um motivo para explicar sua presença no acampamento de Silva Tavares. Encontrando-se com alguns bombeiros inimigos, os acompanhara para obter esclarecimentos, que deviam servir de muito a Bento Gonçalves e Neto. Depois de alguns dias, desconfiados, os companheiros quiseram matá-lo, e ele batendo-se com valentia conseguira escapar-se. 
— Mas ficaste ferido? perguntou o furriel. 
— E logo no rosto! disse Catita com sincera compaixão. 
— Isto foi depois! respondeu o rapaz secamente. 
— Conte! insistiu a moça. 
Félix cravou nela a solitária pupila, com uma expressão cruel. 
— Eu lhe contarei um dia! 
Missé que estava presente surpreendeu esse olhar torvo, e sentiu a repercussão do que passava na alma do peão. 
Desde a noite do pacau, a existência livre e descuidada da rapariga sofrera uma alteração profunda. Não fora porém o fato de ter o Chico feito dela uma parada de jogo, que produzira o abalo; longe de a ofender, aquela ação a enobrecera; sentia orgulho em sacrificar-se por seu amante, e prazer vendo a confiança absoluta com que seu homem dispunha dela, como de uma coisa inteiramente sua. 
O que a humilhou cruelmente foi o desdém de Canho; depois de a ter ganho em uma partida tão disputada, deixou-a como uma coisa à-toa, que não valesse a pena abaixar-se para apanhar do chão. De que lhe servia ser bonita e sedutora, se um homem se julgava com o direito de escarnecê-la? 
Este despeito seria passageiro talvez se não sobreviesse uma circunstância para avivá-lo a cada hora. Missé observou nas maneiras do Chico sensível mudança; as ardentes efusões e as repetidas carícias de outrora iam amortecendo. A causa desse resfriamento, a rapariga o pressentira logo: era o desdém de Canho, que influía indiretamente sobre o peão. 
Quem não conhece os efeitos desse contágio moral, sobretudo quando uma organização elevada domina as individualidades inferiores? Chico, depois da indiferença do gaúcho, começou a achar sua amantes menos formosa, e a subtrair-se à fascinação que a rapariga tinha exercido sobre ele. Cada manifestação desse arrefecimento era um espinho que traspassava o coração de Missé. 
Desde então gerou-se na alma da rapariga um desejo veemente e irresistível de ser querida pelo Canho, ao menos um dia, uma hora, quanto bastasse para aplacar sua vaidade ofendida. O amor de Manuel por Catita causava-lhe ciúme implacável. 
Nestas condições a Missé devia compreender o olhar de Félix; havia uma afinidade entre as paixões que tumultuavam no seio de ambos. 
Tal era a disposição de ânimo em que Félix espreitava da rua deserta o vulto da filha do Lucas, reclinada na janela, com a fronte pensativa apoiada na rótula. Um raio da lua, passando pela aberta do telhado fronteiro, esbateu contra a parede; e o lindo semblante da menina desenhou-se naquele limbo de luz com enlevadora suavidade. 
O peão que cerrava com a mão convulsa o cabo da navalha, preparando o salto, ficou imóvel e extático ante aquela doce aparição que emergira da sombra. A beleza da menina ainda exercia sobre ele uma poderosa fascinação: sua coragem vacilou; a mão tremeu horrorizada. Então apagando-se a lembrança do que o trouxera ali, o rapaz embebeu-se na contemplação daquela imagem querida. 
Quanto tempo esteve assim não o soube. De repente foi arrebatado àquele sonho inefável por uma dor cruciante. Catita gazeou na ponta dos lábios o estribilho da cantiga do gaúcho, que Manuel costumava repetir ao som da viola. 
Toda aquela admiração, que sentia Félix um momento antes, se transformou em raiva. Cerrando outra vez o cabo da navalha com terrível frenesi, arrojou-se ébrio de cólera e cego de furor.  
Mas a imagem de Catita desaparecera. Tão fora de si estava o rapaz que não percebeu a causa. Um vulto se aproximara da rótula interceptando-lhe a vista, e proferira em voz baixa uma palavra castelhana: 
— Señorita! 
A moça assustada bateu precipitadamente a rótula: e D. Romero atordoado achou-se em frente de Félix que brandia a navalha. Quando o chileno sacava rapidamente da cintura o cuchillo para defender-se, o peão que tivera tempo de compreender a situação, recuou: — Desculpe; não era o senhor que eu procurava. 
E sumiu-se. 
 
III 
NOIVA 

Um mês já tinha decorrido depois que Manuel partira de Piratinim para cumprir a missão que lhe dera Bento Gonçalves. 
Era meio-dia. Francisca e a filha jantavam, quando ouviram o tinir de chilenas; o gaúcho entrava. Jacintinha saltou-lhe ao pescoço dando gritos de prazer; a mãe ergueu-se, mas não podendo correr por causa da emoção, de longe mesmo abençoava o filho enquanto não o podia abraçar.  
— Por cá não houve novidade? perguntou Manuel sentando-se. 
— Só muitas saudades suas, respondeu Jacintinha. 
— E cuidados, acrescentou a velha. 
— Então lembraram-se de mim? 
— Pois isso se pergunta Manuel? disse a moça com doce exprobração. Está vendo que ingrato mãezinha? 
— O compadre já venceu? 
— Ainda não, mas não tarda. 
— Então ainda voltas? 
— Parto esta noite. Venho de Buenos Aires, onde meu padrinho mandou-me levar uma carta a Rosas. Aproveitei para lhe dar um abraço, não posso demorar-me. 
Jacintinha, que tinha corrido ao terreiro para festejar e abraçar Morena, Juca e os outros amigos, entrou pálida, com os olhos úmidos: 
— E o Morzelo, Manuel? disse a moça. 
O gaúcho ergueu os olhos ao céu. 
— Coitado! 
Houve um instante de silêncio. 
Durante o jantar a conversação rolou já sobre os sucessos da revolução, já sobre os acidentes da casa durante a ausência de Manuel. Terminada a refeição veio o mate, e o gaúcho, preparando um cigarro de palha, foi pitar no alpendre, onde o acompanharam a mãe e a irmã. 
Antes de se aproximarem de Manuel, as duas mulheres trocaram entre si em voz baixa algumas palavras que acenderam nas mimosas faces de Jacintinha vivos rubores. 
— Agora, quando as coisas se arranjarem, a mãe há de ir a Porto Alegre. 
— Eu, meu filho? Daqui para a cova de teu pai. Não presto mais para nada. 
— Ora deixe-se disso. E quem há de criar os seus netos... quando a Jacintinha casar? — Sim, é tempo de pensar nisso; já está uma moça. 
— E bonita, que faz gosto! 
— Muito obrigada. Foi você que me pegou essa moléstia.  
Não deixaram as duas mulheres de sentir no trato e na expressão de Manuel grande mudança; mas entregue ao prazer de o ver, não tinham tempo de reparar no tom expansivo e meigo com que falava o gaúcho; tão diverso do gênio seco e ríspido de outrora. 
Continuando a conversa por algum tempo, observou Manuel que Jacintinha não cessava de fazer à mãe sinais misteriosos. 
— Jacintinha tem algum segredo! 
A velha sorriu e a moça fez-se de lacre. 
— Fala, menina! 
— Não! Fale você, mãezita! 
— Pois sim. 
— O que é? 
— Espere! exclamou Jacintinha fugindo confusa e envergonhada. 
Ficando só, Francisca referiu a Manuel que um moço castelhano de passagem por Ponche-Verde, gostara de Jacintinha e a pedira em casamento; porém ela respondera que nada decidia senão pela vontade de seu filho. Então ficou assentado esperarem pela volta dele, Canho.  
— Jacintinha está caída pelo diacho do rapaz e ele merece porque é muito galante e tem alguma coisa de seu. 
— Que faz ele? 
— É mascate. 
— Castelhano... mascate... Como se chama? perguntou o gaúcho com ansiedade. 
— D. Romero Garcia. 
— Ele!... exclamou o gaúcho erguendo-se arrebatadamente. 
Por algum tempo Manuel percorreu o alpendre com passos agitados, até que dominado seu abalo, aproximou-se da mãe, que o observava surpresa, sem ânimo de fazer-lhe uma pergunta. 
— Com esse homem é impossível! Jacintinha seria desgraçada. Ela que se esqueça desse sujeito; não faltam noivos galantes, sobretudo quando a noiva é de fazer inveja.  
— Porém, Manuel... 
— Não se fale mais disto. 
Sabendo da resolução de Manuel, Jacintinha chorou amargamente; mas uma só queixa não proferiram seus lábios contra o irmão, que ela amava. 
O Canho selava o Ruão, preparando-se para a partida, quando chegou-se a irmã que vinha despedir-se da Morena e dos outros animais. Havia em seus olhos os traços do pranto recente e na fronte uma sombra de mágoa.  
— Você está triste, Jacintinha? perguntou o Canho, lembrando-se de Catita. 
— Não, balbuciou a menina, debulhando-se outra vez em lágrimas. 
Manuel amava, e sua alma passava então por aquela fase de bem-aventurança, que anuncia o despertar do coração e é por assim dizer a aurora suave do amor. Como podia ele ser de todo indiferente às mágoas de uma alma enamorada? 
Esquecendo o mascate, Manuel pediu à irmã que lhe contasse como nascera sua afeição. Se fosse feliz, Jacintinha não teria forças para satisfazer a curiosidade de Manuel, mas era desgraçada. Referindo o romance de seu amor, a ingênua menina mal pensava que expunha o plano de sedução empregado pelo chileno, e do qual felizmente a salvara sua austera virtude. 
A Canho, porém, não escaparam as intenções de D. Romero; e foi estremecendo de horror que ele ouviu estas palavras, com as quais a irmão concluiu: 
“Na véspera da partida, ele ceou aqui; eu pedi-lhe muito que ficasse até você chegar; mas recusou, dizendo que só uma coisa o faria não sair de madrugada como esperava. Não sei o que era. Quando estava para se despedir, disse-me que havia de passar a noite no rancho com os olhos fitos na janela de meu quarto e por isso me pedia que a deixasse aberta. 
Depois que ele se foi, eu me encostei na janela, para que me visse; mas comecei a sentir tanta fraqueza que não me podia ter; cuidei que ia desmaiar. De repente, não sei como, ele estava junto de mim, abraçando-me; eu queria fugir e chamar por mamãe, mas não tinha forças. Então me deu um beijo, que me fez desmaiar de todo, soltando um gemido. Mãezita correu para ver o que era e não viu mais ninguém. Ela diz que eu sonhei; mas eu ainda sinto aqui o beijo, que me queimou.” 
O pudor, esse anjo da guarda da menina casta, salvara Jacintinha, arrancando-lhe aquele gemido profundo que assustou a mãe. Canho compreendeu perfeitamente o perigo por que passara a irmã, e por vezes seus olhos dardejaram. De repente sentiu congelar-se o coração, lembrando-se que deixara Romero em Piratinim, perto de Catita. 
Jacintinha, muda e palpitante, esperava com os olhos fitos na fisionomia do gaúcho, onde perpassavam os vislumbres das paixões que se agitavam nessa alma vigorosa.  
— Não fiques triste, Jacintinha. Se esse homem for digno de ti, casará contigo. E te prometo que antes de um mês voltarei com ele. Estás contente? 
— Mas o que acha você nele? 
— Eu não o conheço; vou tirar informações. 
Manuel dizia a verdade. Ele nada sabia desse indivíduo a quem encontrara por momentos quatro vezes apenas em sua vida, e de quem nunca se lembrara de indagar. E para quê?  Antipatizara com aquela figura desde o primeiro momento em que a vira; e até onde ia essa ojeriza, ele o disse a Catita. 
Uma idéia, porém, lhe acudira, que mudou o curso de seus pensamentos. Se o mascate não fosse um bandido, por que não o obrigaria a cumprir a promessa feita a Jacintinha, casandoo com ela? Assim ao menos esse ente inútil, senão prejudicial, serviria para dar alguma felicidade à mulher que o amava sinceramente. 
Uma hora depois Canho montava a cavalo e partia à desfilada. 
Ao despedir-se, já na sela, disse à Francisca, sorrindo com intenção: 
— Daqui a um mês cá estou de volta! 
Jacintinha corou. 
 
IV 
NA MISSA 
Era domingo. O sino da matriz de Piratinim tocara a primeira vez chamando para a missa. 
Já pronta, com seu vestido escarlate e mantilha preta, Catita esperava impaciente que a pachorrenta Maria dos Prazeres se acabasse de enfeitar. A menina ia da porta do quarto de sua mãe à porta da rua, donde lançava um olhar para o largo.  Passou a Missé. 
— Não vem? 
— Mamãe não acaba de se aprontar. 
— Ele já deve estar lá! disse a rapariga com um riso malicioso.  
Catita corando fugiu para dentro e achou a mãe ainda de anágua, mas já com o enorme pente de tartaruga pregado no cocó, à semelhança do tejadilho de uma antiga traquitanda. A moça voltou desesperada; lágrimas de despeito lhe saltaram dos lindos olhos.  
— Não tarde muito, olhe lá! tornou a Missé com o mesmo riso brejeiro. Tantas que morrem por ele!… 
— Eu não sei o que tem mamãe hoje! Nem de propósito! 
— Quem sabe se já percebeu? 
A menina deu um muxoxo. 
Finalmente Maria dos Prazeres concluiu a obra monumental de seu penteado, e partiu para a missa com a filha. 
A igreja estava cheia quando chegaram. Atravessando por meio do povo, Catita passou roçando com D. Romero. O chileno aproveitou o momento para apertar a mãozinha mimosa que refugava os folhos da saia, e murmurar uma palavra. 
— À meia-noite na rótula?… Sim?… 
Catita esquivou-se trêmula e foi sentar-se distante. Nesse momento teve um remorso; e pediu perdão a Deus, invocando a lembrança de Manuel. 
Debalde procurou ela refugiar-se na oração e nas reminiscências de seu amor. Sentia fascinação irresistível que a atraía. A vaidade de cativar o bonito chileno, que tantas outras lhe disputavam, o prazer de triunfar de suas rivais, sopitava o remorso que a pungia. 
Se ainda amasse Manuel com os extremos de outrora, estaria preservada de semelhante fraqueza. Mas aquela paixão, como todas as explosões violentas, foi súbita. A exuberância de sua alma bastava para nutrir durante a vida inteira um afeto ardente e profundo; porém ela a despendera durante alguns dias nas expansões do amor insano que rojara aos pés do gaúcho. Seu coração devia ficar fatigado, senão exausto; a vaidade embebeu-se nessa esponja seca.  
Catita sofrera uma desilusão. O homem por quem ela se estremecia era o gaúcho terrível; o caráter indômito que afrontava o céu e desdenhava do perigo; o filho do pampa, que avassalava o deserto e calcava o mundo com a pata de seu corcel. 
Esse herói de seus belos sonhos, esse rei de sua alma, ela o admirava com um entusiasmo ardente. Para merecer-lhe um olhar, o que não fez? Para ser por ele amada, não hesitou em sacrificar-lhe em tudo. Ela, tão altiva e sempre adorada, suportou sem queixar-se o desprezo; e sujeitou-se às maiores humilhações para merecer desse homem um sobejo que fosse de afeição. 
Manuel, que uma repugnância invencível afastava dessa moça, apesar da fascinação de seu olhar, Manuel afinal a amou; e então, rompido o óbice que por tanto tempo contivera seu afeto, este se despenhou, como uma catarata, arrojado e impetuoso. O coração, durante tantos anos sopitado, sentiu ao despertar uma sede insaciável de amor. 
Nos dias que se seguiram ao encontro na coroa de mato, e ao primeiro beijo trocado entre os sibilos das balas, Canho não se fartava de olhar e admirar Catita, de beber-lhe o sorriso dos lábios, a graça e perfume de sua formosura. Abandonando a luta da revolução recente, recolheuse a Piratinim para estar perto da mulher querida e não perder um instante de adoração. 
Catita viu o rei de seu coração, o senhor de sua existência, transformar-se de repente em um servo humilde e cativo, submisso a seus menores desejos. Libado o primeiro prazer desse triunfo, a moça foi insensivelmente subtraindo-se à poderosa influência que sobre ela exercia o gaúcho. 
Manuel tinha o garbo natural do talhe e das maneiras; agora, que amava, sua fisionomia se embebera de uma expressão meiga e terna. Para quem não o conhecesse antes, era um taful quando vestia o seu chiripá de seda escarlate e sua jaqueta de merinó verde; ou quando dançava a tirana, requebrando o corpo e arrastando a asa. 
Mas para quem o vira outrora, aquela excessiva ternura embotava seu enérgico semblante; o sorriso namorado parecia hóspede nos lábios de ordinário cerrados pela contensão de uma vontade firme e rígida. Juca, o selvagem corcel, o livre bagual, filho dos páramos, já não reconhecia naquele mancebo guapo o seu amigo e irmão, o intrépido ginete, como ele fero e indômito. 
A alma que uma vez subtrai-se ao domínio de outra, reage com um impulso irresistível. Na há pior déspota do que seja o cativo submisso, quando se revolta. 
O amor de Catita, de escravo que era, tornou-se verdadeiro tirano. Submeter essa alma que a tinha dominado outrora aos mínimos caprichos; fazer do gaúcho terrível, que os mais bravos temiam, um brinco de moça faceira, e folgar com as paixões violentas daquele coração como uma criança imprudente com as lavas de um vulcão, foram os deleites dessa afeição. 
Depois que Manuel partira, sentiu a Catita um vácuo em sua existência; os galanteios de D. Romero a divertiram a princípio, depois lisonjearam sua vaidade de moça bonita. A Missé desenvolveu então uma arte admirável para perder sua rival; não lhe escapava ocasião de excitar o orgulho da amiga e de facilitar ao chileno os meios de aproximar-se dela.  
D. Romero conseguiu por duas ou três vezes falar à Catita na rótula; mas de longe em longe. A moça lembrava-se às vezes dos protestos que fizera a Manuel, e mostrava-se então esquiva e receosa. 
Quando o chileno na igreja lhe pedira em voz baixa uma entrevista alta noite, a moça estremecendo procurou expelir de seu coração a imagem daquele homem; mas não o conseguiu. Momentos depois seus olhos o procuravam. 
D. Romero com um gesto desdenhoso parecia tê-la esquecido; e sorria a alguém do lado oposto. Catita reparou: era uma rival. Seu olhar súplice pediu perdão. 
Acabada a missa, quando ela passava corando perto do chileno, este murmurou de novo, mas com um tom breve e imperativo: 
— Espera? 
— Sim, balbuciou a moça. 
Nesse momento ouviu um riso sardônico; voltando-se, avistou Félix que fitava nela a pupila sinistra, isolada naquele rosto sempre coberto da máscara hedionda. Teria ele escutado? 
Catita afastou-se com uma aperto de coração. 
Sua suspeita era real. Félix ouvira as palavras trocadas, e adivinhara o resto. Com o faro da vingança ele pressentira o namoro do chileno desde a noite da partida de Manuel; e por isso abandonara, ao menos por enquanto, seu primeiro plano. Ferir o coração de seu inimigo, fazendo da amante um horror, era cruel; mas torturá-lo com a perfídia da mulher amada, seria atroz. 
 
CONFEITOS 
À meia-noite, D. Romero embuçado em um poncho escuro, passeava defronte da casa de Fortunata. 
Mais longe, na esquina da matriz, um vulto cosido com a parede e oculto pelo ângulo da rua, espreitava desde muito tempo os movimentos do namorado. 
Eis que o primeiro galo soltou além nalgum quintal remoto o grito de alerta, a que os outros responderam sucessivamente; a rótula abriu-se timidamente, e fechou-se logo. Aproximouse D. Romero, que sentiu através do gradil um hálito ardente e perfumado. 
— Querida! murmurou o taful. 
— O que é? 
— Abra um pouquito. 
— Não; tenho medo. 
— Medo de quê, flor? De ser amada, como jamais foi outra mulher neste mundo? Ou medo de matar-me de felicidade, com a luz desses olhos formosos? 
A rótula entreabriu-se de leve, mas quanto bastou para que o namorado passasse a mão, a fim de impedir que ela se fechasse de novo. A conversa continuou pela fresta.
— Eu trouxe um regalito para você, querida. Adivinhe o que é? 
— Não sei! 
— Pois olhe! 
Alargou-se a fresta; e na sombra desenhou-se o perfil do rosto encantador da moça, que reclinava a fronte para olhar o objeto na mão do chileno. 
— São confeitos mui lindos,
disse ele. Quero adoçar este coração ingrato, que me faz tanto penar. Prove para ver como são gostosos! 
D. Romero tirou então do cartucho, enfeitado com laço de fita e perfumado de baunilha, um confeito que retirou rapidamente quando a moça quis tocá-lo com o dedo.
— Há de ser na boca! 
— Ora! 
— Que mal faz? 
— Tenho vergonha. 
— Tome; eu lhe peço. 
Depois de alguma resistência, Catita consentiu em colher sutilmente com a ponta dos lábios o confeito que lhe oferecia Romero, o qual repetiu o galanteio por duas ou três vezes. Um suspiro sublevou o seio da moça:
— Ai!… Estou tão cansada! Não sei de quê!…
— De ser cruel? perguntou o taful sorrindo.
— Que noite tão linda!… Como é bom gozar desta frescura. 
Os lábios de Catita debulhavam as sílabas dessas palavras, com uma voz frouxa e lenta, enquanto os olhos se engolfavam no azul diáfano com um sentimento de delícia inefável. Depois, cedendo à languidez que a invadia, a fronte reclinou-se apoiando na ombreira da janela.
— Que preguiçosa! disse D. Romero gracejando. 
Entretanto o vulto da esquina, cosido à parede, assistia de longe a esta cena em extraordinária agitação. Às vezes arrojava-se para diante com os dentes rangidos, levando à cinta a mão que apertava o cabo da faca. Nessas ocasiões porém algum motivo detinha; agarrava-se ao ângulo da parede, procurando um apoio para resistir ao ímpeto, e para dominar o impulso da carreira, que malgrado seu erguia-lhe os pés do solo precipitando-o. Por fim deixou-se cair de joelhos; e ficou ali estrebuchando como um homem na agonia. 
Sem dúvida um sentimento mais poderoso sobrepujava o ciúme que no primeiro momento impelia o desconhecido contra o rival feliz. Mas a luta se renovava a cada instante; e ninguém podia prever o resultado final desse choque de duas paixões infrenes. 
De repente um bramido rompeu do peito cavernoso do desconhecido, que se arremessou com um salto de tigre. 
Vira a rótula escancarada e pressentiu o que ia acontecer. Quando chegou ao lugar, a janela estava completamente fechada; e o chileno havia desaparecido. Onde podia ele estar, senão dentro da casa? 
O desconhecido quis atirar-se contra a janela, para despedaçá-la; mas foi subitamente paralisado pela mesma força que de outras vezes o sofreara. Dos beiços crespos de cólera escaparam-lhe, como uma golfada de fel, estas palavras envoltas em um riso de fera. 
— Se não for este maricas, há de ser o outro, o cão! 
Dobrando-se com um movimento de desespero, para arredar-se da janela, deitou a correr como um possesso pela rua fora. 
Nessa noite, Lucas Fernandes estava de guarda à entrada da vila, em uma casa que servia de quartel. O furriel promovido a alferes fora ultimamente ferido em um combate; e por isso resignava-se a ficar em Piratinim, quando se combatia em Pelotas, Camacã e São José do Norte. 
Tinha o miliciano se deitado depois que fizera o seu quarto a pitar e a palestrar com os camaradas; roncava, como um porco, atirado sobre o couro que lhe servia de cama. Eis que chega um homem a correr. 
— Que é isso, Félix! disse um dos gaúchos que estavam de vigia. Há novidade? 
— Quero falar ao Sr. Lucas. 
— Sobre quê?  
— O negócio é só com ele. 
— Desembucha duma vez. 
— Onde está o homem? 
— Olha! Se fores capaz, acorda-o. 
— É uma pedra no fundo dum poço. 
Foram precisos com efeito os maiores esforços para despertar o furriel.
— Que diabo me querem vocês? 
Félix murmurou algumas palavras rápidas ao ouvido do miliciano, que ainda tonto de sono, não percebeu-lhes o sentido. 
— Hein!… 
O rapaz repetiu; desta vez o pai de Catita, compreendendo, soltou um berro formidável. 
— Hei de espatifá-lo! 
E partiu a correr, brandindo furiosamente o chanfalho, e acutilando o vento com desespero. Félix o seguia de perto, conduzindo o troço dos soldados e gaúchos que estavam acordados e tinham ouvido o grito do miliciano. 
Apesar da diligência empregada por Félix para chamar o Lucas, eram decorridas perto de duas horas depois que se fechara a rótula. Oculto na esquina desde o princípio da noite, o rapaz vira sair o furriel, mas ignorava o lugar para onde se dirigia; por isso antes de chegar ao quartel, havia batido em diversas casas, onde costumava ele passar as noites jogando e prosando. 
A porta de entrada estava interiormente fechada. O pai, ferido na sua honra, não esperou que a viessem abrir; ajudado por Félix arrombou-a, enquanto os gaúchos punham cerco na casa pela frente e pelo quintal. 
Ao estrépito da porta espedaçada, as duas matronas soltavam gritos estridentes, que de envolta com os latidos do cão, os miados do gato e o cacarejar das galinhas formavam um concerto horríssono. A habitação estava completamente no escuro; foi preciso que Félix, tirando fogo do isqueiro, acendesse um grane molho de palha arrancado a um rancho próximo. 
Ao clarão desse facho, Lucas penetrou no interior; antes porém de entrar, voltou-se para os gaúchos que cercavam a casa e lhes disse com uma voz que a raiva estrangulava: 
— Não o deixem fugir; mas não o matem. Quero trincá-lo vivo. 
O ímpeto do furriel esbarrou no limiar do quarto da filha. Catita em pé, com os cabelos desgrenhados, as vestes decompostas e os braços abertos enchia o vão da porta, impedindo a passagem. O talhe curvado para diante e a fronte reclinada, exprimiam submissão à cólera paterna, ou intenção de afrontar o perigo. 
— Sai! gritou o pai. 
— Não. 
Lucas arrojou-se levando por diante a moça que foi bater contra a parede do aposento, quase desmaiada. Em um momento foram corridos todos os recantos do quarto, mas inutilmente; ninguém encontraram. 
— Viste com teus olhos? perguntou Lucas a Félix, sentindo renascer uma vaga esperança.
— Olhe! disse o rapaz apontando. 
No poial da janela via-se o pala de D. Romero e o seu chapéu à bolívar. Esse vestígio de sua desonra, levantou no coração do pai ultrajado uma cólera tão violenta, que de um ímpeto arremessou a filha ao chão para esmagá-la debaixo dos pés. 
Maria dos Prazeres que chegava, e já advertida do que ocorrera, acudiu envolvendo a filha com os braços. 
— Misericórdia! meu Deus! 
O grito de aflição da mãe aplacou no coração do pai a sanha feroz que dele se apoderara. Erguendo os olhos ao céu para pedir perdão da morte que estivera a consumar, Lucas estremeceu. 
Entre dois caibros apareciam quebradas as ripas: as telhas que deviam cobri-las escorregando tinham deixado vão suficiente para a passagem de um homem de talhe delgado. Não havia dúvida; o chileno se escapara por ali e talvez não andasse longe. 
Com um gesto, o furriel mostrou a aberta a Félix e aos gaúchos que assistiam à cena. De chofre esvaziou-se o aposento; todos haviam compreendido instantaneamente, e lançaram-se no encalço do fugitivo. 
Enquanto os outros iam pelo chão bater os arredores, Félix cravando a faca na parede, e apoiando o pé na janela, alcançou um caibro e ganhou o telhado da mesma forma por que o fizera meia hora antes o chileno. 
Ouviram-se então brados de furor e estrépito de armas, do lado da matriz. Lucas correu naquela direção seguido pelos peões: e dois tiros soaram repercutindo ao longe pelas cavernas dos cerros. 
 
VI 
VOLTA 
 
O sol brilhava em meio de um céu do mais lindo azul. A aragem branda, esgarçando as nuvens que apareciam no horizonte, franjava de branco arminho esse manto aveludado. 
Catita, encostada à ombreira da janela, cismava, contemplando os esplendores do dia. 
O semblante sempre risonho e petulante da graciosa menina, estava amortecido pela mágoa. Fatigados e baços, os olhos apenas se inflamavam por momentos de efêmeros lampejos; e esse não eram mais as cintilações da estrela, porém os surdos vislumbres de um incêndio sopito. Nos lábios se desvanecera o delicado matiz; a vespa babujara essa rosa florida, pungindo-lhe o seio. 
Um noite, algumas horas, bastaram para produzir nessa vida uma revolução profunda. A menina gentil e descuidosa já não existia; na expressão da fisionomia, como na atitude de seu corpo, ressumbrava a preocupação d’alma ao transpor o limiar desse caos que chamam o mundo. 
Na folhagem de uma árvore fronteira à janela dois gaturamos, cuja penugem brilhava ao reflexo do sol como pingentes de esmeralda, se namoravam, adejando de ramo em ramo, e chilrando o seu canto mavioso; os olhos de Catita fitaram-se um instante naquela cena e se anuviaram. Duas lágrimas ardentes lhe desfiaram pelas faces. 
Como se aquele pranto a humilhasse, a moça enxugou rapidamente os olhos, e erigiu a fronte arrostando o pesar que um momento a oprimira. 
— Sou feliz!… Ele me ama!… 
 O lábio, murmurando estas palavras, esboçara um sorriso que se desfolhou como a flor pálida do outono, ao sopro ardente do suão. 
Insensivelmente o espírito da moça, desprendendo-se deste incidente, voltou à preocupação constante, que desde a véspera o absorvia. Seu pensamento remontava ao dia da partida de Manuel, e acompanhava o curso de sua vida durante essa última fase. Chegava a um ponto em que um abismo se abria a seus pés, e ela se precipitara nele sorrindo, enlevada em um sonho voluptuoso. 
Era no momento em que sentindo-se cansada recostara a fronte lânguida na ombreira da janela. D. Romero estava ali a galantear; ela já não escutava suas palavras, mas sentia-se embeber da voz e dos olhares do cavaleiro. 
Os dedos mimosos, que a princípio retinham a rótula com tamanho cuidado, afrouxaram deixando-se colher pela mão impaciente do chileno. Ela, Catita, pensou em esquivar-se, mas não pôde. Por quê? Não sabia se eram as forças que lhe faltavam, ou a delícia do êxtase que a engolfava. 
Depois Romero debruçou-se na janela, cingiu-lhe o talhe, conchegando-a ao seio, e pousou um beijo ardente em seus lábios ávidos. Foi então que a rótula fechou-se sem que ela se apercebesse, e o sonho inefável continuou até o instante em que a despertou um estrépito horrível.
— É seu pai! disse Romero. 
— Que quer ele? 
— Matar-me! 
Essa palavra a arrancou ao doce enlevo. Só então sentiu que estava na profundeza do abismo, e não no berço aéreo das nuvens, embalada pelo sopro acariciador das brisas celestes. 
Como se dera esse transe em sua vida? Eis o que ela não compreendia, o que desde a véspera perscrutava sem cessar nos refolhos da consciência, e não achara ainda em sua alma a explicação, ou pelo menos os indícios da força poderosa que a precipitara. 
Nessa cogitação, sobressaltou-se a moça; acudia-lhe uma circunstância mínima, que até então escapara. Fora depois de ter provado os confeitos que ela caiu no suave delíquio, desamparada inteiramente de sua vontade. 
Tinha Romero usado de algum filtro para rendê-la ao seu amor?  
Não se enganava Catita nesta suposição. De fato o chileno, resolvido a rematar naquela noite a aventura que já o detivera demais em Piratinim, e não querendo contar só com seu galanteio, recorrera a um meio eficaz e por diversas vezes empregado com feliz êxito. 
Em seu giro constante, o mascate encontrara outrora nos pampas um velho guaicuru que tinha por costume embriagar-se com o suco de uma planta indígena. Bastava-lhe sorver dessa resina a porção contida na unha para cair em um torpor, que logo se transformava em rapto celeste. D. Romero a troco de ferragens e munições comprara do índio velho uma porção da resina, e tendo experimentado por si mesmo o efeito, compreendeu que lhe podia prestar, em certas ocasiões, grande serviço, vencendo em minutos resistências que durariam longos dias. 
Fora um grumo dessa resina deitado sutilmente na cuia de mate, que ia-lhe entregando Jacintinha, se o pudor indignado não reagisse contra a ação do narcótico, arrancando o gemido doloroso que repercutiu no coração materno. 
Os confeitos perfumados que ele dera a Catita estavam impregnados da mesma essência inebriante; mas a filha do Lucas, seduzida pela vaidade, não teve para protegê-la, nem o véu casto do pudor, nem a ara do amor materno. 
Entretanto, quando lhe acudia a explicação tão sofregamente procurada; quando a intervenção dessa causa estranha lhe fazia compreender o que antes parecia impossível, Catita, por uma contradição inexplicável, repelia essa idéia e exclamava consigo: 
— Não! Não foi isso!… 
Em seu orgulho não se podia considerar uma vítima. Fora ela mesma, que decidira de sua sorte; e empenhara tudo ao homem a quem amava. 
Eis que soa ao longe o relincho de um cavalo. Catita estremeceu. Aquela nota selvagem, afinada na grande harpa do deserto, ao sibilo do pampeiro, e ao crépito do raio, só a tinha o Juca, o brioso alazão. 
Canho estava pois de volta. 
Um calafrio percorreu o corpo da moça, que sublevou-se a meio para fugir espavorida, mas caiu pesadamente como um fardo inerte, sobre o poial da janela. 
Era com efeito Manuel que chegava. Atravessando rapidamente a vila, apeou-se à porta da Fortunata. A casa parecia deserta; Lucas ainda não se recolhera da perseguição ao chileno. 
Percorrendo os aposentos, chegou o gaúcho ao quarto onde estava Catita, ainda prostrada pela forte comoção. Ouvindo o tinir das chilenas de Canho, a moça fez um esforço inaudito e levantou a cabeça, mas sem erguer os olhos. 
Manuel parara a alguns passos de distância, partido entre duas emoções: o soçobro de ver a amante, e a surpresa dolorosa dessa recepção glacial. 
— Catita! balbuciou com a voz transida. 
A moça cobriu as faces com as mãos, para defendê-las contra o olhar de Manuel, enquanto seu peito martirizado estalava em um soluço convulso. 
— Ah! 
Não foi uma exclamação; mas um rugido bravio que rompeu do peito do gaúcho, por entre os lábios cobertos de uma espuma sangrenta. 
Ou porque a mesma veemência da aflição brandisse as fibras de sua alma, ou porque a vergonha daquela humilhação reagisse em seu coração contra o remorso, Catita por súbita transformação ergueu a fronte selada com uma calma impassível. Sua voz era firme, embora áspera como o ranger do vidro: 
— Jurei que lhe pertenceria, Manuel: acreditava que lhe queria bem. Enganei-me; o homem que eu devia amar, era outro. Me perdoe; esqueça-se de mim que não merecia ser sua mulher. 
Manuel ouvia o borborinho destas palavras; e sentia que lhe caíam, a uma e uma, dentro d’alma, como o granizo gelado que durante o inverno peneira sobre a campanha, e mata a semente no seio da terra. 
À porta assomou a figura de Lucas Fernandes. Avistando-se, os dois corações, feridos pelo mesmo golpe, se lançaram um ao outro, como para se ampararem mutuamente contra o infortúnio: 
— Desonrado, Manuel! exclamou o pai, apertando em seus braços o gaúcho. 
Este não proferiu palavra; mas nas profundezas d’alma repercutiu o grito que ele conseguira sufocar nos lábios; e no semblante derramou-se todo o fel, que lhe extravasava do coração. 
Lucas viu essa expressão de uma dor imensa: e arrancando a faca da cinta do Canho arrojou-se para a filha. No primeiro assomo Catita empalideceu, mas recobrando-se apresentou ao pai o seio para que ele o ferisse. 
Durante esta cena rápida e muda, Manuel não se movera. Ele não se julgava com direito de deter a mão do pai que vingava sua honra; e no fundo d’alma talvez desejasse antes ver morta a mulher que amara, do que transformada em um ente desprezível. 
Uma vertigem passou pelos olhos de Lucas, e a faca lhe resvalou da mão inerte. Canho o arrastou para fora. 
Passada aquela grande comoção, o pai contou ao amante, no meio de blaterações de furor e soluços de cólera, a cena que na véspera ocorrera e as informações que lhe dera Félix, a respeito dos acontecimentos; bem como a diligência inútil que tinham empregado para apanhar o chileno. Manuel escutava em silêncio. Seus lábios pareciam selados como um túmulo. A serenidade das grandes cóleras da natureza enquanto se não desencadeiam, derramava-se em sua fisionomia, que parecia embutida em máscara de aço. 
Um piquete tinha parado na rua; a alta estatura de Bento Gonçalves assomou na porta. 
— Já de volta, Manuel? disse ele dirigindo-se ao gaúcho. 
Este permaneceu imóvel sem dar o menor sinal de ter ouvido o coronel e se apercebido de sua chegada. 
Bento Gonçalves surpreso daquela atonia voltou-se para as outras pessoas presentes interrogando-as com o olhar. Lucas abaixou a cabeça. Foi a Fortunata que referiu o que havia ocorrido. 
O coronel aproximou-se de Canho e apertou-o nos braços com efusão, procurando em sua alma uma palavra de consolo para tão grande dor. 
— Vem; teremos combate esta noite! 
Despertado por aquela voz generosa, Manuel compreendeu o pensamento do guerreiro; mas um triste sorriso fugiu-lhe dos lábios. Tomando a mão do coronel a impôs sobre o coração, como se quisesse exprimir com aquele movimento que o tinha já morto e extinto. Depois, entregando a carta de Rosas a Bento Gonçalves, apartou-se lentamente. 
 
VII 
O PINHEIRO 

A essa hora corria D. Romero à rédea solta pela campanha. 
Evadindo-se de casa da Fortunata pelo telhado, o chileno ganhou rapidamente um matapasto que havia por detrás da matriz, e no qual, por precaução, ocultara ele seu cavalo, deitandolhe uma focinheira de couro para impedir que rinchasse. 
O mascate era um aventureiro prudente e sagaz. Embora a empresa não parecesse oferecer o menor risco, ele sabia por longa experiência que de repente surgem complicações imprevistas. Por isso era seu costume trazer sempre as armas na cinta e o cavalo ao alcance da mão. 
Foi sua salvação. Se não tivesse tão pronta a fuga, infalivelmente cairia nas mãos dos peões que o perseguiam, dirigidos e instigados por Lucas e Félix. Assim mesmo, antes que pudesse apanhar o cavalo foi atacado por três que o seguiam mais de perto. Conhecendo que sua salvação dependia de um ato de desespero, o chileno investiu com fúria contra os agressores, desfechando-lhes repetidos golpes de espada, e dois tiros de pistola que os feriram e atordoaram. 
Aproveitando-se desse momento de vacilação pôde ele saltar no cavalo e desaparecer. Quando Lucas chegou ao lugar, nem mais se ouvia o estrupido do galope. 
Vendo-se fora da vila, antes que o furriel montasse a cavalo para persegui-lo, Romero, que até então não tivera outro pensamento senão fugir, tratou de orientar-se no meio da campanha e seguiu no rumo do oriente. 
O chileno tinha-se dirigido para aquele lado da província com intenção de percorrer as vilas e povoados do sertão até Cruz Alta. Daí se ainda fosse tempo de ir à feira de Sorocaba, se passaria a Curitiba com os marchantes e invernistas; senão entraria na Confederação por São Borja. 
Como a ninguém comunicara sua intenção, pensou que podia seguir com segurança a rota já traçada. Esperava alcançar no dia seguinte a Encruzilhada, donde mandaria buscar sua bagagem, que ficara na locanda. O sol transmontava. 
D. Romero, tendo corrido durante o resto da noite e boa parte da manhã, descansara algumas horas em um rancho, e continuava agora a jornada mais tranqüilo. Montava outro animal; o castanho galopava ao lado. 
Embalava-se o chileno nas recordações de sua aventura, quando o animal deu sinal de inquietação, copando as orelhas para trás e insuflando as narinas. O cavaleiro voltou-se, e em toda a extensão que abrangia seu olhar do algo da coxilha, nada avistou. 
Mas o inquieto animal resfolgava esforçando por tomar o freio. Romero pensou que fosse a vizinhança de alguma onça das matas de Canguçu; pouco disposto a perder o tempo com essa caça, soltou as rédeas e deixou o cavalo disparar. Às vezes parecia-lhe ouvir longe um surdo estrépito, como o do mar batendo na praia do Albardão; mas esse rumor passava com a lufada. 
Entretanto o cavalo redobrava de velocidade, e parecia sentir a aproximação do perigo. 
Afinal convenceu-se o chileno que não se enganava; e voltando-se descobriu longe um ponto negro, como a asa de uma águia que rasasse pela terra. Era a vingança que voava sobre ele; tal foi o pressentimento que cerrou o coração do fugitivo. 
O vulto crescia de momento a momento. Romero passou-se para o castanho, seu destemido parelheiro, e debruçado sobre o pescoço do animal confiou-lhe a sua salvação. O brioso cavalo compreendeu o que o senhor esperava dele, e arrojou-se a toda carreira. 
Mas não era um homem: era um turbilhão que o perseguia. Observando uma última vez, viu o fugitivo destacar-se perfeitamente do alto da colina, no azul do céu, o vulto sinistro do Canho. Juca, sentindo que fora reconhecido, e já não tinha necessidade de emudecer, soltou o nitrido. 
A vasta solidão, como uma lâmina imensa de bronze, percutida pelo raio, vibrou aquele grito estridente, cujos ecos, reboando no espaço, se propagaram ao longe pelo ermo. 
O chileno sentiu gelar-se o coração; entretanto esse homem era bravo e muitas vezes na sua vida afrontara o perigo com o sorriso nos lábios. Mas o gaúcho lhe inspirava misterioso terror; desde o primeiro dia em que o viu, sentira essa obsessão inexplicável. 
Certo de que sua hora aproximava-se, o fugitivo contava os instantes pelo tropel do alazão que se aproximava com rapidez espantosa. Já ouvia-lhe o ornejo, terrível como o surdo rugir do tigre; e armava as pistolas para fazer face ao inimigo. 
Nisto assomou-lhe pela frente, à distância de duzentas braças, um troço de cavaleiros. 
Nas situações desesperadas, uma intervenção estranha desperta sempre a esperança. O chileno lembrou-se que podia ser uma partida de legalistas; e nesse caso estaria salvo. 
A revolução já havia triunfado em toda a província. O marechal Barreto e o tenentecoronel Silva Tavares se tinham refugiado no Estado Oriental com os destroços das forças do governo. 
Mas a presença do novo presidente Araújo Ribeiro reanimara a resistência. Alguns chefes legalistas, como o coronel Albano, o major Marques e outros, se empenhavam em levantar gente. Já o capitão Procópio, à frente de 500 homens, batera os rebeldes e os expulsara do distrito do Rio Grande até São Gonçalo. 
A estrela do chileno não o tinha abandonado. Era justamente uma partida que ia reunir-se ao coronel Albano na Encruzilhada. Bastou ao fugitivo uma palavra para ser bem recebido. 
— Os rebeldes me perseguem! 
— Aonde? perguntaram vinte vozes. 
Romero voltou-se. O Canho tinha desaparecido. Ainda os legalistas bateram os arredores por algum tempo; mas aproximando-se a noite, dirigiram-se à povoação. 
Na Encruzilhada, Romero, que levava a bolsa bem fornida, ajustou seis capangas destemidos para o acompanharem; despachando um portador para avisar os seus camaradas do lugar onde o deviam encontrar, partiu para Rio Pardo. 
Estava ele há quatro dias nessa vila, esperando pela bagagem. Arranchara-se na casa de um lojista, seu conhecido de outras vezes que por ali passara. Ali se julgava seguro, mas por precaução não saía à rua senão guardado pelos camaradas. 
Ao lado morava uma antiga apaixonada em quem ele procurava soprar a chama extinta. Lembrada da facilidade com que o taful se desprendera de seus laços, a moça andava arisca; mas afinal, depois de muito rogada, prometeu esperar o namorado na janela, ao toque de recolher. 
Era noite há muito, e noite escura. D. Romero deixou que seus inseparáveis capangas se acomodassem; e ganhando a sala conchegou-se à janela do canto, que ficava encostada à casa vizinha. Os dois sobrados eram da mesma altura, e ambos tinham janelas de balcão, de modo que os amantes debruçados  podiam quase tocar-se. 
Estava a rua completamente deserta. Uma sombra apareceu na janela próxima.  
— Amor, sua mãe já dorme? 
— Para quê? 
— Para conversarmos mais perto? 
— Cuida que eu já esqueci? 
— Ingrata! Assim me paga as saudades que curti ausente dela! 
— Eu não acredito! 
— Quem me trouxe a Rio Pardo? Não foram esses lindos olhos que de longe me arrastam, e de perto me repelem? 
— Ai! 
Soltando um gritozinho de susto, a moça retraíra-se para dentro. 
— Que é? perguntou o chileno. 
— Não ouviu, ali defronte? 
Em face havia o muro em ruínas de um quintal abandonado. Malvas silvestres e arbustos cobertos de abóboras formavam uma vegetação luxuriosa que estofava as brechas do valo junto do qual se elevava um pinheiro. 
— Foi o vento, disse o chileno. 
— Vi uma pessoa em cima do muro. 
— Ora! Havia de ser o pinheiro! replicou o chileno rindo-se. 
— Tive um susto!… suspirou a moça esquivando-se. 
Romero aproveitou o ensejo para escalar a grade, a fim de passar ao balcão vizinho. 
— Espere! 
A moça foi até ao meio da sala para assegurar-se de que todos dormiam, mas não teve tempo. Um grito cortado atravessara o espaço. Arrastando-se à janela, trêmula e fora de si, apenas vira um vulto que perpassou no ar e sumiu-se. Era porventura o arremesso de algum abutre, que soltara o pio lúgubre, caindo sobre a presa? 
O chileno tinha desaparecido. 
Todos os esforços dos capangas, acordados em sobressalto, foram inúteis para descobrilo. 
 
VIII 
A FACA 

Embora seja domingo, as ruas de Piratinim estão desertas. Os habitantes recolheram-se fugindo aos raios abrasadores do sol. Faz um calor de sufocar. 
O céu tem o lívido azul de uma lâmina de aço. Algumas nuvens brancas e densas que surgem no horizonte parecem estanhadas na atmosfera pesada e baça. 
A trechos passa uma lufada ardente, como o bafo de uma fornalha. Lânguidas e flácidas pendem as folhas das árvores, crestadas por esse respiro do deserto. Os pássaros emudecem; o gado bufa, e toda a natureza anseia como opressa por uma angústia inexprimível. 
Os peões, vaqueanos da campanha, pressentem a aproximação do pampeiro. 
A essa hora, Lucas, presa de viva inquietação, percorria de uma extremidade à outra o corredor da casa. Quando passava pelo quarto da filha, insensivelmente abafava os passos, e escutava na porta, com a sofreguidão de perceber qualquer rumor. Chegado à entrada da varanda, onde terminava o corredor, parava um instante e deitava um olhar oblíquo à Maria dos Prazeres, que estava no canto habitual da janela, a cochichar com a cunhada. 
Depois de uma pausa, em que se manifestava bem claramente a oscilação de seu espírito entres os sentimentos encontrados que o agitavam, continuava o interrompido passeio. 
O furriel tinha envelhecido anos nesses poucos dias, decorridos depois da fuga do chileno. Essa tenacidade que nenhum revés abatera nunca, antes carecia da luta e do perigo para não consumir-se, não pôde resistir ao golpe que sofrera com a desgraça da filha. 
Fora ferido na honra, que é o cerne da raça gaúcha, altiva e cavalheiresca. O extermínio da família inteira não o esmagaria, como a vergonha atirada à sua face e na pessoa da filha a quem ele adorava. 
O corpo direito e inflexível do furriel vergou ao peso daquela desgraça; os pesares sulcaram seu rosto abrindo rugas profundas; até a voz estrepitosa que no formidável diapasão parecia condensar todas  as energias dessa organização, mostrava ter-se espedaçado no grito da dor, e se tornara rouca e surda. 
Desde a noite fatal, Lucas evitava de encontrar-se com a filha, a qual por seu lado, sentindo a família retrair-se, se refugiara nessa esquivança, para entregar-se completamente a seu infortúnio. 
Naquele dia, porém, o amor do pai, até então subjugado  pelo pundonor do soldado, reagiu. O furriel pensou que a filha também sofria, e teve pena dela. Ao mesmo tempo uma idéia sinistra relanceou em seu espírito. 
Lembrou-se que no momento de sua alucinação, quando se arrojara sobre Catita para traspassar-lhe o coração, a faca do Canho, caindo no chão, se escondera sob a fímbria do vestido, e ali ficara. Através do horror que ainda lhe inspirava aquele ímpeto homicida, ele via o olhar morno da moça fito na ponta do ferro; e o sorriso de escárnio com que ela parecia despedir-se da existência. 
Muitos dias tinham passado depois daquele acontecimento; e era natural que o tempo houvesse apagado no espírito da moça qualquer pensamento funesto. Todavia o furriel estava inquieto e a custo continha sua impaciência. 
Não se animando a bater à porta do quarto e chamar Catita, adiantava-se disposto a informar-se com Maria dos Prazeres do que fazia a filha. Mas o pudor de seu profundo ressentimento o tolhia, receoso de mostrar-se fraco diante da mulher e da irmã. 
Afinal, não pôde resistir, e avançou até ao meio da varanda. 
— Onde está ela? disse com voz soturna.  
— Lá no quarto, respondeu a mulher. 
— Fazendo o quê? 
— Chorando. Que mais? tornou a Maria dos Prazeres levantando os ombros. 
— E… e a faca? 
— Que faca, Sr. Lucas? 
O furriel pôs os olhos na mulher, surpreso de que ela não o compreendesse, e afastou-se logo sem responder. 
— Sabe, comadre; o homem não anda bom, não! Depois dessa desgraça, parece que lhe virou o miolo. 
— Não é para menos! acrescentou a Fortunata. 
O pressentimento de Lucas não o enganava; o perigo que pressagiava seu coração de pai era real. 
Catita, sentada no seu quarto, contemplava justamente a faca do Canho, esquecida a um canto desde o dia em que seu pai a ameaçara. Naquela manhã, no meio das tristes cogitações que a assaltavam de novo, seu olhar percebera na sombra a cintilação do aço. Foi o luzir de uma esperança. 
De que lhe servia a ela a vida senão de sofrimento e vergonha? O assomo de orgulho que no primeiro instante a excitara a ponto de considerar a sua desgraça como uma glorificação do amor, abateu-se. O homem por quem se perdera, aparecia-lhe agora no seu verdadeiro aspecto, como um sedutor vulgar.  
Ao mesmo tempo, pensava que sua falta a tornara um suplício constante, senão um opróbrio, para aqueles que mais a queriam. Viva, eles a desprezavam; morta, haviam de chorá-la e, quem sabe, talvez lhe perdoassem. 
Sua consciência como um juiz severo a condenou, e ela aceitou consolada essa expiação, que seria o termo de seu martírio. Resolvida a realizar imediatamente seu pensamento, ajoelhouse diante de um registro de Nossa Senhora. Sua oração foi breve; ela sentia a impaciência do desespero. 
Apanhando a faca, apalpou o lindo seio para dirigir o golpe pela palpitação, e atravessar logo o coração. Apoiou o ferro na ombreira da janela e se atirou sobre, para cravar nele o peito. Mas estacou trêmula. 
Ouvira o relincho argentino, que outrora lhe anunciava a chegada de Manuel. Absorta na emoção daquele acontecimento, e numa vaga expectação, ficou a moça por muito tempo imóvel, na mesma posição em que a surpreendera o incidente. 
Um sorriso de júbilo despontara em seu lindo semblante fanado pelas lágrimas. Por que voltava Manuel, a quem não esperava mais ver? Ela sabia que o gaúcho só tinha em Piratinim uma coisa que o prendesse: era seu amor. 
Como o frouxo vislumbre de uma alvorada que se desprende a custo das sombras da noite e de repente some-se no seio da procela, assim desvaneceu-se o sorriso nos lábios da moça. 
— Não!  balbuciou. Ele não pode mais amar-me!… Nem eu a ele… 
De novo seus olhos se embeberam no espelho da lâmina de aço, e sua alma refugiou-se na idéia de morrer. 
— Se ele quisesse matar-me! 
Nesse momento bateram com força à porta. A moça conheceu a voz de seu pai, que dizia: 
— Abre, Catita! 
Depois de um instante de hesitação em que a moça perscrutou debalde a razão desse chamado do pai, e da sofreguidão alegre que denunciava sua voz, ela ocultou a faca embaixo do travesseiro da cama e abriu a porta. 
Lucas entrou de um ímpeto, e travando das mãos da filha, disse-lhe açodado: 
— Ele está aí! Veio para se casar contigo! Assim é como se nada tivesse acontecido!… Não vês como eu choro de alegria?… Há de ser hoje mesmo, agora, neste instante. Já se mandou avisar o padre. Vai te vestir. Não te demores. 
Catita ouvia o pai de surpresa em surpresa. As palavras de Lucas a arrebatavam a tal ponto à realidade de sua triste posição, que ela não se animava a interrompê-lo para pedir-lhe uma explicação, temendo que a ilusão se desvanecesse, e sua alma fosse de novo precipitada no desespero. 
Foi quando seu pai terminou, que lhe escapou dos lábios essa exclamação: 
— Então ele ainda me quer? 
— Pois duvidas? 
— Depois do que houve? 
— Por isso mesmo!… Anda, veste-te. 
Desta vez a moça pensou enlouquecer. Lucas saiu deixando-a naquele pasmo de uma angústia  cruel. 
 
 
IX 
O LAÇO 
 
Afastando-se de Bento Gonçalves no dia de sua volta a Piratinim e depois da cena cruel que se passou no quarto de Catita, entre o pai e a filha, Manuel se dirigira à locanda onde tinha arranchado o chileno. 
Examinando o chão em torno da casa, notou o rasto de um animal que ele reconheceu imediatamente, apesar de o ter visto poucas vezes. Uma coisa que o peão observa logo no cavalo é o andar; de duas vezes que encontrara o chileno a gauchar no castanho, lançou Manuel um rápido olhar ao animal. Não foi preciso mais. 
O rasto seguia ao longo da rua; apesar de apagado pelo casco de outros animais e pelas pisadas da gente a pé, o gaúcho foi acompanhando aqueles vestígios, até o campo que servia de rocio à vila. Aí a pista, perfeitamente distinta e fazendo uma volta, dirigia-se ao mata-pasto por detrás da matriz, donde se afastava pela campanha fora. 
Quando Canho se curvava para melhor examinar o rasto, Juca e a Morena o acompanhavam reparando nos seus movimentos e farejando o chão. Ao sair da vila, os dois animais conheciam a pista tão bem como o gaúcho, e podiam segui-la a galope. 
Romero levava seis horas de avanço; porém Manuel tinha os dois melhores parelheiros de toda a campanha e a sua atividade infatigável. 
Ao cair da tarde ele avistou longe no horizonte o fugitivo; e com pouco mais o teria alcançado, se não fosse a intervenção da peonada do coronel Albano. Tendo avistado a partida antes do chileno e suspeitando que fosse de legalistas, Manuel previu o que ia acontecer. 
Encoberto pelo esteiro de mato que bordava as margens de um arroio, o gaúcho contornou a lomba de uma grande coxilha, ganhando a frente aos legalistas. Assim quando estes batiam a campanha na direção de Piratinim à caça do farroupilha, este, oculto em um pequeno cerro do lado da Encruzilhada, observava seus movimentos. 
Desde então Manuel não perdeu mais de vista a Romero. Com a paciência de um caçador, espreitando a ocasião segura para desfechar o bote, o seguiu até Rio Pardo.  
Defronte da casa do lojista, onde se aboletara o chileno, havia aquele pardieiro coberto de uma vegetação espessa e frondosa, que pelo fundo se unia com o mato da entrada da vila. Ali oculto, Manuel passava o tempo a espiar os movimentos de Romero. 
O mascate pouco saía, e sempre acompanhado pelos seus capangas. Em casa era raro chegar à janela, isso mesmo com muita precaução. Embora se julgasse escapo da perseguição, tinha a prudência de não se expor. 
Canho contava que essa incessante cautela se desvaneceria com o tempo, sobretudo em alma tão fútil e inconstante como a de Romero. Não se enganou: na quinta noite um recado da vizinha fez-lhe esquecer tudo o mais. 
Quando Manuel, de pé sobre o muro, alcançava o tronco do pinheiro a fim de subir à copa, a moça o avistara, mas de relance apenas; tanto que Romero volvendo os olhos não viu mais do que o esguio tronco de árvore. 
Oculto entre a rama dos galhos, esperou até o momento em que o chileno subiu à sacada para alcançar a janela vizinha. Então o braço projetou-se; o laço arremessado com força apanhara o namorado pela cintura, semelhante à garra fatal e invisível de um grifo que o arrebatasse pelos ares. 
Ao mesmo tempo que atirara o laço, Manuel se arrojara ao chão; de modo que a trança de couro correndo na forqueta de um galho, à guisa de cabo, suspendeu Romero sobre o pardieiro, sem que o corpo arrastasse pela rua. 
Atirar-se ao mascate, amordaçá-lo com o poncho, ligar-lhe pés e mãos, atá-lo ao costado do Ruão, e partir levando consigo o prisioneiro, não gastou ao Canho o momento que durou a surpresa do chileno. Quando este deu acordo de si, galopava pela campanha em posição horizontal. 
Às oito horas da manhã parou Canho para dar repouso aos animais e almoçar. 
O gaúcho encostou Romero, sempre atado de pés e mãos, ao tronco do ombu, que oferecia aos viajantes uma sombra refrigerante. Correndo o campo laçou uma vitela, e sem dar-se ao trabalho de matá-la, tirou-lhe da ilharga um pedaço de lombo. Instante depois a carne assava no tampo de couro, que o calor do fogo, encolhera, tornando-o covo como uma panela. 
Manuel soltou os braços do chileno, atirou-lhe com sua ração de carne, e tratou de tomar a sua parte da refeição. 
Desde que tinha caído nas mãos do gaúcho, Romero ainda não lhe ouvira uma só palavra. Manuel o tratava como ao novilho fujão que se laça no campo e se leva à soga para o curral. Não se dignava nem mesmo ameaçá-lo com um gesto. E para quê? Aquele torvo semblante era a fisionomia de uma tempestade; sentia-se a faísca do raio no olhar lívido que rutilava da pupila negra.  
Quando Romero deu acordo de si, admirou-se de estar vivo ainda. Que pretendia dele então o Canho? Queria entregá-lo a Lucas ou matá-lo aos olhos de Catita? 
Enquanto comiam os dois viajantes, um homem arrastando-se pelo chão por entre a macega, se aproximava sorrateiramente do ombu. Pelo emplastro de pano que trazia no rosto era fácil conhecer Félix. 
Chegando a duas braças do tronco, parou indeciso. Ali estavam dois homens a quem ele votava ódio mortal: um lhe tinha mutilado o rosto, o outro lhe mutilara a alma; aquele o fizera hediondo, este o transformara em fera; ele tinha sede de sangue, mas como o tigre, de sangue quente, bebido no coração donde borbota. 
Félix andara até aquele dia à pista do chileno, e voltava desesperado quando de longe avistou Juca e logo pressentiu que Manuel andava por perto. Descobrindo os dois viajantes, não se imagina a raiva que sentiu por ver o gaúcho senhor da vingança, tão cobiçada por ele. 
Afinal decidiu-se o rapaz; apontando o trabuco para Manuel, armou a caçoleta; mas o rangir do ferro ainda soava, quando o gaúcho, a quem nada escapara, caiu sobre ele e arrancoulhe a arma da mão. 
Félix enfurecido precipitou-se sobre o chileno para cravar-lhe a faca no coração; mas achou-se em face de Manuel que ao cabo de breve luta o desarmou. 
— Mata-me de uma vez, demônio! gritou o rapaz em um acesso de raiva; ou antes acaba logo de matar-me, pois já começaste. Olha, o que fizeste de mim. 
Arrancando o pacho que lhe cobria o rosto, o desgraçado mostrou uma coisa horrível; um rosto fendido a meio, que parecia rir satanicamente com os lábios disformes daquela boca artificial. 
Manuel sentiu um movimento de compaixão, que logo sopitou. Impassível e taciturno, passou do rosto mutilado do rapaz ao semblante de Romero um olhar frio que transia. O chileno estremeceu de horror ante aquela ameaça. 
Entretanto o gaúcho atou-lhe de novo os braços e pondo-o no costado do Ruão partiu, apesar da sanha de Félix que, vendo sua vingança próxima a escapar-lhe, arrojou-se ainda uma vez contra o gaúcho, procurando ao menos insultá-lo para que ele o matasse. Baldado esforço; porque o braço ágil e robusto de seu adversário o conservava em distância. 
Horas depois paravam dois cavaleiros à casa de Fortunata. Lucas chegando à porta reconheceu com surpresa Manuel e Romero a quem o gaúcho soltara os laços na entrada da vila. 
A um volver d’olhos do Canho, o mascate apeou-se e entrou na varanda. Lucas com a vista pasma, não sabia que pensar, quando o gaúcho aproximando-se murmurou uma palavra, a primeira que pronunciavam seus lábios depois que partira: 
— A noiva. 
Como se um raio de luz rompesse a crosta dessa alma, o pai compreendeu tudo e correu ao quarto da filha. 
 
A BODA 

Há almas de esponja, que o menor revés espreme; mas também o menor bochecho d’água basta para inchá-las. 
Romero tinha uma dessas almas. Aniquilado pela ameaça que pesava sobre ele, apenas compreendeu o desígnio de Manuel pôs-se ao nível da posição criada pelos acontecimentos. Aceitou portanto o papel de noivo, com boa graça e rosto alegre.  
Logo ocorreu-lhe que não estava em traje de cerimônia; e comunicou este pensamento a Maria dos Prazeres, a qual achou-lhe toda a razão, pois não concebia que um homem se casasse com roupa do diário e amarrotada. 
Sabendo que sua bagagem ainda estava em Piratinim, dirigiu-se Romero à locanda, acompanhado por Manuel; enquanto Lucas ia apressar o padre coadjutor, e convidar a melhor gente da vila. A notícia do repentino casamento não produziu grande surpresa; todos achavam natural a reparação; e estimavam concorrer para a alegria da boda, que não era somente a festa da ventura, mas sobretudo a festa da honra. 
Trajado a primor, D. Romero tornou à casa de Fortunata, que já estava cheia de moças e rapazes ansiosos de verem a noiva. Esta não se fez esperar. 
Catita vinha resplandecente de beleza. Coroava-lhe a fronte a auréola de júbilo celeste que devia cingir as virgens mártires expirando em um êxtase de bem-aventurança. Havia em seu rosto a expressão vaga e indefinível que resta, quando a alma se desprende da terra para remontar ao céu. 
Depois que Lucas a deixara debatendo-se em uma incerteza cruel, a moça julgou compreender o sentido das últimas palavras de seu pai. Manuel queria sacrificar-se para salvá-la: ela não devia aceitar o sacrifício; mas não tinha ânimo de recusá-lo. Esse amor ardente e generoso era uma bênção que a purificava. 
— Ser dele e morrer! balbuciou. 
E vestiu-se com suas roupas mais garridas. 
Assomando à porta com a fronte baixa, não viu nenhuma das pessoas ali reunidas na sala. Só passado o primeiro vexame, coando a medo o olhar entre os cílios, procurou Manuel; mas quem encontrou foi D. Romero que lhe ofereceu a mão sorrindo com faceirice e requebrando o talho gentil, realçado pelo rico traje. 
— Señorita! dizia ele fazendo uma mesura. 
A moça teve uma vertigem. Sua alma arrebatada violentamente ao corpo hirto submergiuse em um abismo de vergonha e dor. Desde então ela não teve mais consciência de si. O chileno tomou-lhe a mão fria como gelo e a conduziu sem a mínima resistência. 
Durante essa cena rápida, Manuel de pé, a um canto do aposento, parecia de todo estranho ao que passava. O olhar frio e baço, fito no chileno, era o único vínculo que prendia essa consciência à vida externa. 
Mudo como uma sombra, sinistro como uma aparição, fazia lembrar o espírito satânico das lendas da média idade, esperando o momento de arrebatar ao inferno a alma do precito. 
O vestido de Catita roçou-o e ele não a viu. Uma nuvem densa ocultava-lhe tudo quanto não era aquele homem, cuja passagem deixara em sua vida o rastro da fatalidade. 
O acompanhamento seguiu para a matriz que regurgitava de gente. Já o sacristão acendera os círios do primeiro altar da epístola, e o coadjutor, de roquete, descia os degraus da capelamor. 
A cerimônia foi breve. No momento de pronunciar as palavras que deviam ligar para sempre sua existência à dessa moça a quem seduzira, o chileno hesitou, volvendo automaticamente a vista em torno, como se procurasse um ponto de apoio a seu espírito perplexo; mas encontrou o olhar de Manuel, e curvou a cabeça. 
Momentos depois os noivos entraram na casa, que uma festa improvisada havia transformado durante a cerimônia, adornando-a com ramos de flores, palmas de coqueiros e lanternas de copos pintados. 
O sol acabava de esconder-se no horizonte; flocos de vapores cor de fogo se erguiam lentamente no ar e condensavam-se na atmosfera. Os arrebóis do ocaso tinham listras rúbidas que pareciam laivos de sangue. A brisa do crepúsculo, de ordinário fresca e embalsamada com o hálito das flores, vinha impregnada de súlfur e exalava um sopro morno. 
Fazendo honra ao banquete, os convidados não se apercebiam desses presságios do próximo temporal; nem ouviam os mugidos dolentes do gado carpindo o morrer do dia. 
A função durou até meia-noite e foi muito divertida. D. Romero nadava em prazer; a única sombra que podia anuiar o seu horizonte, era a torva fisionomia de Canho, e esta havia desaparecido desde o começo da festa. 
Já todos os convidados se despediram, repetindo ainda uma vez os parabéns, e fazendo votos pela felicidade dos noivos. A casa repousa em silêncio, apenas interrompido pelo eco da tirana, que ainda ressoa ao longe de algum peão saudoso da festa. 
Catita, sentada no seu quarto com as mãos cruzadas sobre os joelhos, o busto vergado como o cálix de uma flor cheia de orvalhos, e os olhos cravados no chão, perdia-se em um pélago de dor. A mísera não sabia qual era maior vergonha e suplício para ela: se a falta passada, se a reparação tardia. Antes tinha ela o direito de desprezar o homem que abusara de sua inocência; agora esse homem era seu esposo; ela o recebera de Deus, aos pés do altar, como o companheiro de sua existência. 
Entretanto Romero entregue a pensamentos muito diversos, contemplava sua noiva com volúpia. Nunca a vira tão bela, como naquela atitude de mórbida languidez, que punha em relevo os contornos suaves do talhe. Nesse momento esquecia quanto ocorrera nos últimos dias para lembrar-se unicamente que a linda moça era sua noiva. 
Quando seus olhos saciaram-se da imagem sedutora, o chileno aproximou-se: um calafrio percorreu o corpo de Catita, que estremeceu sentindo em sua mão o contato dos dedos do marido. 
— Querida!… murmurou Romero.
— Deixe-me! suplicou a moça. 
— Não seja má! Tenha pena do que sofri nestes dias de ausência; se não me lembrasse de sua felicidade, cuida que daria ao trabalho de fugir e defender-me? Deixava que me matassem logo; mas eu sabia que não me matavam a mim unicamente! Diga, tantas saudades curtidas longe daqui não valem um beijo, um só? 
Pronunciando estas palavras, o chileno cingiu com o braço o talhe da noiva, procurando estreitá-la ao peito; porém ela, estrincando o corpo como uma serpe, escapou-se daquele abraço que lhe causava horror, e refugiou-se em um canto do aposento. 
— Nunca! tinha ela exclamado com veemência. 
E o lábio erriçado pela ira e pelo terror, depois que arremessou essa palavra impetuosa, ficou vibrando como a lâmina sonora de um estilete percutida com força. 
Essa energia e súbita resistência surpreenderam um momento ao chileno, que respondeu com um motejo. 
— Por que me quer tanto mal assim, muchacha? É por que sou agora seu marido? Catita compreendeu o sarcasmo. 
— É por ser meu marido, sim, que eu lhe tenho horror. Até ontem o senhor não foi mais do que a minha desgraça: eu podia perdoar-lhe e esquecer. Hoje é a minha vergonha! Antes me queria amarrada na forca, do que unida ao mais vil dos homens. 
A moça abatida com o estupor que lhe causara a presença de Romero, se tinha deixado arrastar àquele casamento; mas agora na solidão de seu aposento, ameaçada pelas carícias do ente desprezível, sua alma reagia contra o opróbrio dessa cruel situação. 
— Serei tudo que você quiser, Catita; mas o meu crime qual foi, senão o amor cego que lhe tenho? 
— Seu amor seria para mim um insulto! 
— Lembre-se que já fui bem castigado com o receio de perdê-la para sempre. Não acha que mereço seu perdão? Eu suplico de joelhos.  
Romero caminhava para a moça, que recuou horrorizada até o leito. Aí no desespero de se ver sem defesa, à mercê daquele homem, que era seu marido, acudiu-lhe uma lembrança. Metendo a mão trêmula por baixo do colchão apalpou o cabo da faca de Manuel. 
Entretanto Romero aproximando-se passara o braço pelo colo da noiva, e inclinou-se para beijá-la. Catita retraiu-se violentamente, e o ferro grilhou em sua mão. Ouviu-se um grito de aflição. 
A faca rolou pelo chão, ao tempo que a moça caía desmaiada sobre o leito. Faltaram-lhe as forças pensando que já o coração de Romero estava traspassado pelo ferro; quando este apenas cortara as roupas e arranhara a epiderme. 
O chileno sorriu vendo a moça inanimada. Esse amor travado de ódio, a luta violenta que prostrara aquela mulher, o excitavam. 
— Agora é minha! 
Nesse momento alguém travou-lhe do punho. Era Manuel. 
 
 
XI 
PRANTO 
 
Pouco falta para a madrugada. 
A noite arrasta-se pesada e lúgubre no meio de uma calma assustadora, que estranha a natureza. Nem um sopro de aragem bafeja a terra, encandecida ainda pelo intenso calor do sol. As estrelas rubras e imersas em um limbo escuro, parecem tochas a bruxulear na sombra de um templo forrado de crepe. No horizonte opaco se debuxam as cúpulas das árvores, semelhantes a massas de granito. 
Essa estagnação de luz, de ar e vida, imprimia à natureza uma imobilidade medonha; dirse-ia o orgasmo que precede à convulsão e ao delírio. 
Dois vultos passaram. Caminhavam rapidamente ao lado um do outro, e dirigiram-se a um ermo bronco e erriçado de fraguedos que ficava nas abas da vila. Quem os visse de longe a par como camaradas de prazer e ventura, não suspeitaria decerto que iam matar-se. 
A algumas braças de distância seguiam dois animais a passo. Eram Juca e a Morena que de longe acompanhavam o senhor; como se pressentissem a desgraça iminente, eles tão altivos sempre e tão impetuosos, caminhavam tristes e cabisbaixos, pisando sutilmente para não despertarem os ecos da noite. 
Chegados a uma rechã, que ficava entre uma charneca profunda e uma fraga alcantilada, Manuel parou voltando-se para o companheiro, e enrolando no braço esquerdo o seu poncho. 
D. Romero tivera a cautela de armar-se e, bem disposto como estava a acabar de uma vez com essa obsessão que sobre ele exercia o gaúcho desde a primeira vez, resolvera matar esse homem, quebrando sua influência maléfica, ou sucumbir logo, morrendo às suas mãos. 
Sem proferir palavra, sem trocar uma injúria ou ameaça, os dois inimigos atacaram-se com a faca em punho e com uma sanha terrível. O chileno não era mais o rapaz enervado pelos prazeres; o rancor percutindo as energias sopitadas dessa organização, tornara o casquilho de ontem um campeão formidável. 
Durante algum tempo não se ouviu mais do que o triscar do ferro quando as facas se roçavam, e o resfolgo da respiração. Mas afinal o chileno conhecendo que não podia lutar contra o punho de aço do gaúcho, deu um salto para trás e pôs-se fora do alcance da faca. 
Tirando então da cintura as pistolas desfechou os dois tiros sobre o Canho. Uma das balas embebeu-se nas rugas da bota; a outra, queimando os cabelos do gaúcho, bateu contra o rochedo. Romero não teve tempo de ver o efeito dos tiros; antes que se dissipasse a fumaça, Canho se precipitara sobre ele como um tigre, o arremessara ao chão, e lhe calcara o pé sobre o pescoço. 
A estrangulação foi rápida. Uma crispação violenta percorreu o corpo do chileno, e deixou-o já cadáver. 
Manuel em pé, com os olhos no semblante do morto, teve uma cruel decepção. A vingança terrível, que devorava sua alma, ali estava sem pasto para saciar-se, diante daquele mesquinho despojo. As más paixões humanas têm a mesma natureza das feras. O tigre sedento, que depois de percorrer a selva não acha para mitigar-lhe a calma mais do que o resto de um reptil exangue, deve sentir aquele desespero. 
O gaúcho empurrou com a ponta do pé o cadáver, que rolou pelo despenhadeiro; e dirigiu-se ao lugar onde percebia os vultos de Juca e Morena, que tinham assistido imóveis à luta. O silêncio e a espécie de estupor moral que se apoderara do Canho desde o dia fatal da perdição de Catita, se comunicara a seus dois amigos e companheiros. Eles três não formavam mais do que uma alma, uma vontade, cujo foco era o coração do gaúcho. 
Se não estivesse tão concentrado em si mesmo e abstraído do mundo exterior, ao aproximar-se Manuel teria percebido uma sombra que se esgueirou por detrás da folhagem de alguns arbustos. 
A mão do gaúcho, encontrando os arreios nas costas da Morena, começou automaticamente a apertar a cincha, que é costume afrouxar enquanto o anima descansa. Em meio desse movimento maquinal o espírito foi arrebatado por um turbilhão de pensamentos. A fronte derrubou-se, e um soluço rompeu do peito arquejante. Pela primeira vez em sua vida aquele homem soube o que era o pranto, e chorou como uma criança. 
Nesse momento a mesma sombra que sumira-se pouco antes, assomou entre a folhagem, indecisa se devia avançar ou retrair-se. 
Entretanto Manuel, com a alma já desafogada daquela ânsia que o sufocava, cingiu nos braços o colo da Morena e do Juca, e estreitou-os fortemente ao peito; a voz que desertara de seus lábios, balbuciou enfim algumas palavras truncadas pelo ofego: 
— Aqui estou, meus amigos! Fui ingrato; amei-a mais do que a vocês e ela me traiu, me abandonou! Era mulher; sabia falar; havia de mentir. Oh! eu bem quis fugir-lhe, eu que desde menino aprendi a conhecê-las. Mas a fatalidade me arrastou. 
A angústia sufocava-lhe a voz por instantes: 
— Há quatro anos que vocês me acompanham e até hoje um só dia não cansou a dedicação que têm por mim; também nunca me prometeram coisa alguma. Ela, jurou-me seu amor e um mês depois era... uma desgraçada! 
Manuel esmagou as lágrimas que lhe saltavam dos olhos; e constringiu o seio para sufocar-lhe o arquejo. 
— Fujamos deste mundo infame! Vamos ao deserto, onde o homem é fera como o tigre. Lá ninguém há de ser enganado pelo amigo e traído pela mulher. Cada um só conta consigo; se quer um irmão tem o seu cavalo fiel. Noiva, encontra-se no primeiro rancho: de manhã não se conhecia, à noite já esqueceu. Vamos, amigos, vamos aos pampas! Lá, somente lá, naquela imensidade, poderei matar esta sede que eu sinto n’alma, esta sede de espaço, que me sufoca. Correr!… Quero correr! correr sem parar, correr sem fim, até que se abra o inferno para nos devorar!… 
 A sombra imóvel resvalou. Sentindo que procuravam travar-lhe da mão, o gaúcho voltou-se, e viu um vulto de mulher ajoelhada a seus pés. 
— Manuel! 
Nesse momento o orbe imenso da lua assomava no horizonte como a boca da forja que exala um fumo ígneo. Seu rúbido clarão, desdobrando-se pelo ermo, debuxou o semblante pálido de Catita com os cabelos desgrenhados e a alucinação na fronte. 
Manuel recuou transido de horror, voltando o rosto para subtrair-se à visão que o perseguia. 
— Eu te suplico, Manuel! Não me fujas, não me abandones neste desprezo que eu sinto de mim mesma! Mata-me! Esmaga-me a teus pés, como uma coisa vil. Abençoarei a morte, por mais cruel que seja, dada por ti. 
Ofegante, despedaçada pela dor, arrastou-se aos pés do gaúcho, rojando a fronte pelo chão, e umedecendo com os soluços o pó que seus cabelos levantavam. 
 
 
XII 
O PAMPEIRO 
 
Um ruído surdo reboou pelas grotas e algares que alcantilavam o cerro abrupto. Parecia que a terra arquejava com o estertor de um pesadelo. 
Ao mesmo tempo uma exalação ardente como o vapor de uma cratera derramou-se pela solidão. As feras uivavam longe na profundeza das selvas; e as aves espavoridas passaram soltando pios lúgubres. Os dois cavalos, com o pêlo eriçado, resfolgavam aquele bafo ígneo, semelhante ao fumo de uma batalha; eles o conheciam: era o sopro da pátria selvagem; era o fôlego do pampa. 
De repente a lua sepultou-se. Céu e terra submergiram-se num oceano de trevas. O aluvião das procelas se arremessara do horizonte e inundara a imensidade do espaço. Houve então um momento de silêncio pavoroso; era a angústia da natureza asfixiada pela tormenta. 
Afinal ribombou o trovão na vasta abóbada negra, sobre a qual o relâmpago despejava cataratas de chamas. Não era uma tempestade; mas um turbilhão de tempestades, bacantes em delírio, que tripudiavam no céu. Como os touros acossados pelo gaúcho arremetem com fúria e rompem a selva bramindo, assim o tropel das borrascas disparava pelo espaço. 
O pampeiro, varrendo dos cimos dos Andes todas as tempestades que ali tinham condensado os calores do estio, verberava na imensidade as pontas do látego formidável com que ia açoitar o oceano. 
Atônitos e mudos de espanto, os animais contemplavam o grande paroxismo da natureza. A voz do trovão, o verbo das grandes cóleras celestes, sopitava todos os gritos e todos os rumores. A terra pávida e estupefata recebia a tremenda flagelação no meio das gargalhadas satânicas do raio que surriava fustigando as escarpas do rochedo. 
Únicos, no meio dessa horrível subversão, aquele homem e aquela mulher não se apercebiam dos furores da procela; dentro de suas almas lhes tumultuava outra furiosa tormenta que as devastava com sanha mais terrível que a do raio. 
Abraçada aos pés do gaúcho, Catita murmurava: 
— Nunca amei senão a ti, Manuel, eu juro. Não digo isto para que me perdoes. Não mereço, não quero perdão. Mas vê o que sofri, e estou sofrendo neste momento. Tu foste traído; e eu que me traí a mim mesma?… Eu que me detesto mais do que tu podes detestar a infeliz que te enganou?… Amar, e sentir-se indigna desse amor, não há maior suplício, Manuel! 
A alma do Canho se crispava, semelhante ao mísero que tomado de vertigem à beira do precipício se estorce e contrai para escapar à fascinação do abismo, e debalde estende as mãos convulsas em busca de algum frágil apoio. Com os olhos fitos no semblante da moça, que os relâmpagos cingiam de uma auréola fulmínea, a alma do gaúcho se arrojava de novo nas torturas atrozes por que passara durante os últimos dias, esperando assim subtrair-se à irresistível atração dessa mulher, a quem amava ainda, mas com assomos de furor. 
— Manuel, por piedade, Manuel, não me fujas. Ouve! A mulher que tu amaste não existe mais, morreu, ninguém sabe dela. Esta que te fala, nunca a viste, não a conheces; é uma desgraçada que por acaso encontras em teu caminho e que te implora de joelhos a esmola de uma palavra, de um olhar. Não te pede senão compaixão para este desespero com que te ama. Que te custa? Deixa-me seguir-te ao deserto; quando minha presença te aborrecer um dia, atira-me, ou deixa-me no rancho abandonado onde nunca mais voltarás, mas onde eu ficarei te esperando sempre até morrer consumida pela doce esperança. 
Durante esta súplica férvida e soluçante, Manuel lutava com a comoção que o invadia. 
voltado com o impulso do homem que se precipita, ele estacava como suspenso por uma força ingente; entretanto o que o detinha era apenas a mão frágil de uma mulher. 
Afinal, cedendo à fascinação, curvou-se lentamente para Catita, que viu ressumbrar-lhe na fisionomia o soçobro d’alma. 
— Ah! tu és bom! Tens dó de mim! 
— Não! exclamou Canho com veemência. 
Repelindo a moça arrebatadamente, ia correr ao lugar onde o esperavam os animais, quando Catita com um ímpeto bravio atalhou-lhe o passo: 
— Leva-me contigo ou mata-me! exclamou cerrando convulsivamente as mãos do gaúcho. 
O olhar alucinado de Manuel pousou um momento no semblante de Catita e sondou a profundeza do precipício que se abria quase a seus pés, iluminado pelo lívido clarão do relâmpago. Sua mão terrível abarcou na cabeça da moça as longas tranças negras, revoltas pelo sopro da tempestade, e arrastou-a até a borda do abismo. 
Rasgou-se nesse momento o céu e a meio do algar, suspenso aos galhos de uma árvore seca, apareceu o cadáver do chileno: 
— Olha! Ele te espera! disse Manuel suspendendo a moça para arremessá-la no precipício. 
Mas Catita lhe cingira os braços ao pescoço; seu hálito crestou-lhe o rosto. A esse contato desamparou-o toda sua força; os braços lhe caíram inertes e ele afastou-se com o passo trôpego, vacilando como um ébrio. A moça, espavorida do que fizera, seguia Manuel com um olhar pasmo. 
Nesse momento um sopro glacial cortou como uma corrente de gelo a atmosfera abrasada. 
O peito de Manuel dilatou-se num amplo respiro. Semelhante ao homem que saísse de uma caverna abafada, ele bebia aquele ar frio às golfadas; com os lábios descerrados, os braços abertos, parecia receber um amigo a quem estreitava ao peito. 
— O pampeiro!… exclamou. 
O filho do deserto, assomando no horizonte, soltou seu primeiro bramido, que sibilou no espaço e fendeu como uma seta o ronco do trovão. Imediatamente as tempestades que trotavam no firmamento fugiram pávidas para os confins da esfera, como um bando de capivaras ouvindo o berro da jibóia. 
O pampeiro é a maior cólera da natureza; o raio, a tromba, o incêndio, a inundação, todas essas terríveis convulsões dos elementos não passam de pequenas iras comparadas com a sanha ingente do ciclone que surge das regiões plutônicas como o gigante para escalar o céu.  
Ei-lo, o imenso atleta que se perfila. Seu passo estremece a terra até as entranhas; a floresta secular verga-lhe sob a planta como a fina relva sob a pata do tapir; seu braço titânico arranca os penhascos, as nuvens, as tempestades, e arremessa todos esses projéteis contra o firmamento. 
Luta pavorosa que lembra as revoltas pujantes do arcanjo das trevas precipitado pela mão do Onipotente nas profundezas do báratro. O maldito, prostrado no seio das chamas eternas, ressurge possesso levantando-se para ascender ao céu; nada lhe resiste; a abóbada do firmamento treme abalada por seu ímpeto violento. Mas que Deus incline a fronte, e Satã cairá fulminado pelo olhar supremo. 
O ímpeto do tufão toma todas as formas da ferocidade; sua voz é a gama de todos os furores indômitos. Ao vê-lo, o terrível fenômeno afigura-se uma tremenda explosão da braveza, do rancor e da sanha que povoam a terra. 
Aqui o pampeiro surge e arremete como cem touros selvagens escarvando o chão; ali sente-se o convólvulo de mil serpentes que estringem as árvores colossais e as estilhaçam silvando; além uiva a matilha a morder o penhasco donde arranca lascas da rocha, como lanhos da carne palpitante das vítimas; agora são os tigres que tombam de salto sobre a presa com um rugido espantoso. Finalmente ouve-se o ronco medonho da sucuri brandindo nos ares a cauda enorme, e o frêmito das asas do condor que rui com hórrido estrídulo. 
E tudo isto, sob um aspecto descomunal e imenso, não é senão a voz e o gesto do gigante dos pampas, concitado das profundezas da terra, para subverter o orbe. 
Manuel recobrara o alento respirando o ressolho do tufão, e vendo-se envolto por essa grande alma do deserto. O fracasso dos rochedos arremessados às nuvens e chocando-se no espaço; o estrépito das florestas convulsas que estalavam entre as garras do ciclone; o ruído das casas arrancadas ao chão que se desfaziam no ar trituradas como um torrão de argila; todos esses ecos de ruína e devastação deleitavam aquele coração enganado. 
O espírito de Manuel sentia naquele momento a necessidade de cavalgar o tufão como a um corcel bravio, e precipitar-se com ele pelo espaço, arrasando tudo em sua passagem e matando em sua alma a sede horrível que sentia de mortes, desastres e catástrofes. 
Quando ia montar na baia, outra vez o prendeu a mão de Catita que se precipitara com veemência e esforçava para retê-lo. Mas repelindo-a com rudeza, saltou ele no lombo da Morena que desapareceu como a folha arrebatada pelo sopro do pampeiro. 
Levado pela corrida veloz, Manuel sentiu no peito uma constrição que em seu desvario lhe pareceu de uma tenaz ardente. Catita se lançara na garupa da Morena no momento de partir; era sua mão delicada que lhe esmagava o coração. 
Sem forças para desprender-se daquela cadeia, queimando-se ao tépido contato do talhe voluptuoso da moça que estreitava-se com ele, o gaúcho soltou um bramido, como se chamasse em socorro seu o pampeiro, e precipitou-se numa corrida louca e esvairada, cuidando fugir assim ao tormento. 
Mas abriu-se diante a fauce escâncara do abismo. O pálido clarão da lua, surgindo dentre as brumas da procela, iluminou o alcantil que sumia-se pelo antro profundo. Agarrado a uma ponta de rochedo, à borda do despenhadeiro, via-se o busto de Félix com a faca nos dentes, lutando com o tufão e devorando com os olhos a distância que ainda o separava do gaúcho. A Morena ia estacar; Manuel, reclinando-se ao pescoço, gritou-lhe: 
— Upa! 
Ouviu-se um anseio, um estridor de ramos partidos, o baque de um corpo no fundo do algar, o estrupido de um galope ao longe; e a voz formidável do ciclone cobriu todos esses pequenos rumores. Súbito, porém, como se o filho do pampa só houvesse deixado as estepes nativas para buscar o gaúcho e levá-lo ao deserto, a natureza quedou-se. Cadáver depois da tremenda agonia. 
O sol despontava. 
A manhã límpida e serena esparziu a doce luz por aquela terra convulsa. No meio dos sobejos da borrasca, entre as estilhas dos troncos seculares, as farpas de rochedo e o solo revolto, o tenro grelo da semente rompia o seio da terra; e a flor azul de uma trepadeira estrelava suas pétalas aveludadas. 

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