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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Pois bem. O povo é exigente, e vinga-se neste momento dos nobres. Vosso marido, senhora minha, deve já ter acabado às mãos dos populares. Pois se ele acabou, acabarei tantém eu – disse a senhor-de-engenho soluçando.

- Não, isso nunca. Já não pertenceis nem a vós, nem a ele, observou Coelho.

- E a quem pertenço então? perguntou ela com altivez.

- O destino confiou a mim a vossa guarda, e hei de salvar-vos, ainda que a troco do meu sangue.

Sem meu marido, senhor, não quero a vida. Senhora d. Damiana! exclamou Coelho com entranhável amargura que lhe estalara nos lábios como se fora vesícula de fel.

É o que vos digo, Sr. Coelho – repetiu a gentil senhora com a firmeza que indica as profundas convicções. Só agora, continuou ela, só agora compreendo todo o horror da minha situação. Porque fugi eu? Porque não me deixei matar pelo povo, ao lado de meu marido?

- Porque a sorte tinha já assentado que vós devíeis sobreviver a ele, talvez para completar uma existência que vegeta entre as luzes e as sombras do mundo, sem experimentar outras impressões que não sejam as que as sombras, não as luzes, despertam – respondeu o jovem negociante em tom sentido. Mas para que falais ainda – continuou logo, como quem se reanimava ao calor de uma inspiração súbita – para que falais ainda em – uma existência que já deve pertencer ao passado? A esta hora, senhora minha, deveis estar viuva, isto é, livre.

- Sois cruel, Sr. Coelho! – retorquiu com voz amargurada a mulher do sargento-mór. Porque trazeis ao meu espirito este fúnebre pensamento? Houve um momento na minha vida em que cheguei a supor que em vosso coração existia um sentimento fidalgo.

- Que quereis dizer, Sra. d. Damiana? interrogou o negociante.

Que pensei que, não obstante o rancor que tendes ao Sr. João da Cunha, e que vós explicais atribuindo-o à contrariedade de certo afeto que vos inspirei, não hesitaríeis um só momento em salvardes do acabamento o objeto desse rancor, se a salvação dependesse de vós e eu vo-la lembrasse com as lagrimas nos olhos, como agora faço. Vejo, porém, Sr. Coelho, que o vosso ódio é maior do que o vosso amor, e que só a minha desgraça, esta sim não tem medida nem limite na terra.

- Pensáveis então, senhora... – retrucou o português – Que pensáveis vós? Dizei francamente a vossa idéia. - Ah! Quereis ouvir-me? Pois bem, senhor, escutai. O que eu pensava era muito natural, e não era impróprio de vós nem de mim. Pensava que, em vez dos sentimentos ferozes que tendes mais de uma vez manifestado, deveríeis ter para meu marido antes benevolência e atenções respeitosas.

- Esqueceis, Sra. d. Damiana, que nenhum homem que se prezasse dignamente, beijaria jamais a mão do algoz que lhe houvesse afogado as mais caras esperanças, que lhe tivesse destruído uma felicidade irreparável.

- Vós é que esqueceis, Sr. Coelho, o passado que devíeis ter bem presente na memória. A meu marido deveis, não a desgraça, mas a posição de que soubestes fazer-vos digno. Sua mão generosa e amiga indicou-vos o caminho para a vossa independência. Por muito tempo não tivestes nesta vila outra proteção, outro amparo, outro pai além de João da Cunha. A vossa entrada nas primeiras casas, a estima que para vós tiveram os mais ricos e os mais nobres de Goiana, a quem as devestes principalmente, Sr. Coelho, quando éreis sem relações, sem nome, e sem haveres? Não vos lembro estas causas por magoar-vos, mas por ver se desperto em vosso coração o nobre sentimento que sempre conheci em vós antes do fatal desastre que levantou uma muralha entre vós e meu marido – o sentimento da gratidão.

- Sra. d. Damiana, vossas palavras trazem-me terror e confusão, disse o jovem europeu, a modo de atordoado.

Seu espirito nadava em um mar de hesitações.

- Que esse sentimento acorde enfim, senhor. É talvez tempo ainda de produzir sua ação consoladora. Não vos importeis comigo, importai-vos com o homem que um dia vos tratou como se fosseis seu filho. Correi e livrai-o do furor dos vossos parciais. Porque tanto ódio? Porque tanta vingança?

Não pode continuar este singular dialogo, que prometia chegar a um desenlace talvez patético e imprevisto. Bem perto dos dois interlocutores soaram vozes confusas e retintim de armas. O chão estremeceu, batido por um semnúmero de pés que precipitada carreira movia em direitura ao rio.

Afigurou-se então aos fugitivos uma visão sinistra, um desfecho medonho.

- É o povo que vem em vossa procura, Sra. d. Damiana. não percamos um só momento. Salvai-vos, senhora, salvai-vos enquanto é tempo.

(continua...)

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