Por José de Alencar (1872)
Quando se tratou de escolher o arrabalde, Guida pediu a Tijuca; não que ela esperasse tirar proveito para a saúde. Bem longe disso; era um desejo recôndito de rever aqueles sítios, e saciar-se das reminiscências que eles guardavam.
Matassem embora essas árvores, como a mancenilha; queria embriagar-se de seus perfumes.
Lembrava-se da Africana que vira representar ultimamente; e invejava aquela morte, ela que dois anos antes, naquelas mesmas montanhas, zombava de Safo, a mais ilustre entre as mártires do amor.
Guida trajava naquela tarde um vestido cinzento e, sobre ele, um casaco preto guarnecido de marta. A alvura imaculada de seu rosto destacava-se nesse trajo escuro, entre os negros cabelos, com uma lividez que assustava:
parecia o perfil de uma estátua em alabastro.
Reconhecendo Ricardo, teve a moça uma violenta comoção, e tomou para suster-se o braço da mestra, que atribuiu o choque a susto e debilidade da moléstia.
- Não sabia que estava na Tijuca, disse Ricardo.
- Viemos há oito dias.
- Ela tem andado doente; o doutor mandou tomar ares, disse Mrs. Trowshy em português arrevesado.
- Há de fazer-lhe bem a Tijuca, tornou Ricardo.
- À saúde?... perguntou Guida.
E abanou a cabeça desfolhando um triste sorriso. Foi então que Ricardo reparou o estado de abatimento da moça. O talhe, tão esbelto e grácil, retraía-se como o cálix do lírio do vale quando fana-se, e os olhos de embaciados, só intercadentes, como o trepidar da estrela, rutilavam para desferir lampejo febril.
Não se concebe a comiseração que sentiu Ricardo notando aquele deperecimento lento de uma beleza, que ele vira tão esplêndida. Lágrimas umedeceram-lhe os olhos; e teve impulso de ajoelhar-se aos pés da mártir, sacrificada ao paganismo social.
Lembrou-se da conversa que tivera com a moças dois anos antes, pouco distante daquele sítio. Guida era uma das vítimas desse martirológio da família, que poucos sabem e ninguém compreende. Nascera rica; educaram-na para a opulência; e a grandeza sufocava.
Havia um meio de salvar-se; era esfarfalhar sua alma pelas salas em afeições efêmeras; tornar-se a moça da moda, faceira, namorada, perseguida e disputada por um enxame de adoradores. A dignidade inata fechou-lhe essa válvula do coração.
Guida o guardara virgem e intacto para o seu primeiro amor; porém este não o encontrara no mundo. Por quê? Não havia um homem que a merecesse? Guida estimava o homem, mais do que ele valia, porém na pureza do ideal; por isso os indivíduos da espécie lhe pareciam escorços, senão caricaturas.
- Por que não sou eu o homem que ela sonha, disse Ricardo; por que não me deu o criador um raio do fogo sagrado para reanimar esta vida que se extingue, para reter na terra esta bela mulher que se está transformando em anjo? Guida sentara-se à beira do caminho, numa leiva coberta de relva, e acompanhava o recorte das nuvens com o olhar mórbido, que às vezes eclipsava sob os longos cílios e volvia rápida e sutilmente ao rosto de Ricardo.
- Deve passear! disse Ricardo para romper o silêncio.
- Ela não gosta mais de sair como dantes, observou Mrs. Trowshy.
- Fatiga-me tanto! tornou Guida. Já três vezes viemos para este lado; e ainda não pude chegar até a outra volta.
- Quando estiver mais forte.
- Tenho tanta vontade! Mas hoje hei de ir; já descansei. Venha conosco! disse pousando o olhar súplice no semblante do moço.
Não era longe a volta a que a moça desejava chegar.
- Lembra-se? perguntou a Ricardo. Aqui nos encontramos pela primeira vez.
- Não esqueceu?
- E a nossa flor... Ainda estará no mesmo lugar?
Ricardo rompeu o arvoredo, e procurou:
- Aqui está ela!
Guida aproximou-se.
O arbusto, reverdecido com as águas do inverno, começava a florescência. Nas pontas dos renovos germinavam já os lindos cálices de nácar, com os pjngos d’ouro.
Roçou Guida as mãos pelas folhas glabras do arbusto como para sentir-se acariciada pelo doce frolido:
- Sonhos d’ouro! murmurou.
- É verdade! exclamou Ricardo sorrindo.
- Nem se lembrava! disse Guida com leve exprobração.
- Não culpe a pobre florinha, se o vento da tempestade a mirrou e cobriu de pó, tornou Ricardo apanhando os secos despojos da passada floração.
- Estes morreram, murmurou Guida olhando as flores murchas, mas vão nascer. E os meus?
A voz da moça expirou nos lábios, e exalou-se em um suspiro:
- Os meus nasceram aqui também, porém morreram para sempre!
Ergueu Ricardo surpreso os olhos, e viu o semblante da moça banhado em lágrimas.
- Guida! exclamou ele.
E cingiu-lhe a cintura com o braço para ampará-la, porque a via desfalecer.
- Eu queria morrer aqui! balbuciou ela descaindo-lhe a fronte ao ombro de Ricardo, e reclinando o talhe ao peito onde conchegou-se hirta, sem movimento.
Mudo e estático, Ricardo não sabia o que fizesse; não tinha forças para separa de si o corpo desfalecido, nem ousava observar-lhe o semblante, temendo nele ver a máscara da morte.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.