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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Em sua consciência mais de uma vez protestou contra certas manifestações do desdém de João da Cunha para com o negociante; e, conquanto, melhor do que ninguém, ajuizasse da profundeza do abismo que entre eles cavara a fatalidade, nem por isso negava a Coelho certas atenções, aquelas que, pela própria fidalguia dos seus sentimentos, entendia que devia ter para o antigo amigo da casa. Nunca deixou sem retribuição os cumprimentos e as saudações do mercador, nem lhe recusou falas respeitosas, por ocasião de se encontrarem. Seu natural espirito de justiça levava-a até a justificar os profundos ressentimentos de Coelho, quando compreendeu a verdadeira causa deles. ‘ Ele cuidava – dizia d. Damiana consigo mesma – ele cuidava que poderia casar comigo. Julgava que, tendo entrada em nossas relações, estava habilitado para prender-se à família por laços que só o parentesco e a igualdade de condição podem criar. ‘

Tais eram as idéias e os sentimentos de d. Damiana. Por isso, sentindo a gravidade do momento, ela não escrupulisou acompanhar o negociante, única tábua de salvação que nos cruzados mares da súbita adversidade lhe aparecia como instrumento do céu.

E antes de passarmos adiante, justo é que deixemos bem claro este ponto essencial da presente narrativa: Coelho não era indigno da confiança que, por força das circunstancias atuais, ou por influencia irresistível de circunstancias anteriores e remotas, depositou nele a jovem fidalga. O amor que ele lhe consagrava, era sublime e puro; tinha origem imediata no sentimento, não nos sentidos. O português estava na flor dos anos, e seu caráter não se tinha poluído ainda no trato das relações sociais. Nessa época da vida e com esta circunstancia, o amor é mais do que um sentimento, é uma virtude. Tende sempre a elevar-se, e nunca a rebaixar-se. O negociante amava em d. Damiana um ente, uma criatura, um composto de qualidades corporais e imateriais, não unicamente uma feitura plástica, uma forma física, não obstante se acharem coligidas nessa forma todas as perfeições que ele sonhava para o seu ideal. Sua aspiração não se limitava à posse do olhar, do sorriso, do carinho dessa criatura; ele aspirava, não menos do que a isto, ás suas perfeições morais, à parte imaterial da pessoa humana, a essa porção do ser que não é a figura corporal, o arredondado dos contornos, o donaire do talhe, o aveludado da face e da mão, o colorido da cútis, a vibração da voz, mas, mostrando-se intimamente ligada com todas estas prendas não se confunde com elas, e sem se deixar ver, porque não é visível, deixa-se adivinhar, conhecer, sentir na bondade, na dedicação, na conformidade com o sentir da pessoa que lhe é idêntica nas inclinações, nos gostos, no estado espiritual que lhes é comum.

Certamente ele imaginava ser feliz ao lado dessa existência seleta, dessa alma que constituía a essência dos seus desejos, das suas vaidades, do seu nobre orgulho; mas essa felicidade ele nunca a imaginou de outra forma. Por isso, tanto que viu entre suas mãos o tesouro longamente apetecido, a única idéia que lhe passou pela mente foi a de que cessara enfim o seu tormento e começara, pelo gozo dos bens sonhados, o resgate dos males curtidos; a idéia de, prevalecendo-se das circunstancias, sujeitar o ente querido e alcançado ao papel de instrumento de paixões menos dignas, essa ele não a teve então, porque não a tivera nunca. No coração do jovem português havia o afeto generoso do amante, não os ardores animais do barregão.

Cortando pelas ruas exteriores, dando rodeios, atravessando becos desertos, Coelho chegou com a senhora-deengenho ao embarcadouro. A Borboleta era a única embarcação surta no rio.

Como a revolta se concentrara, deste lado a vila aparecia quase deserta. O dia estava em seu começo, mas assim as casas de morada como as de negocio mostravam-se fechadas; e só por intervalos passavam pela frente delas os magotes que andavam exercitando o ignóbil oficio da rapina. Vamos embarcar, senhora – disse Coelho, descendo a margem, onde então se viam grandes mangues de basta e estendida folhagem.

- Embarcar? inquiriu a senhora-de-engenho, não sem surpresa. Embarcar para onde, Sr. Coelho?

- Senhora, o momento é grave, e não me dá lugar a refletir sobre a escolha do porto de salvamento. Correremos á mercê das águas e dos ventos, e, uma vez longe dos perigos que vos ameaçam, pensaremos então com serenidade sobre esse objeto.

- Que estais dizendo? tornou d. Damiana, mais pálida, e porventura mais abalada do que estava antes.

Talvez só nesse momento a sua desgraça se lhe desenhou tal qual era na imaginação, até então tolhida e obscurecida pelo terror que, por mais próximo da morte, devera ser maior e mais intenso.

- Tencionais então levar-me para fora de Goiana? perguntou ela, com tremula e quase chorosa voz.

- Certamente, minha senhora, certamente. Goiana neste momento tem para vós sentimentos de madrasta, não de mãe. Não ouvis aqueles tiros, aqueles ruídos sinistros, aquele vozear confuso e medonho? Eles indicam que o povo é o triunfador, que os mascates estão senhores da vila...

- Já sei, já sei tudo isto – interrompeu ela freneticamente.

(continua...)

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