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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Bravo! Já de pé? 

- E pronta para dançar! respondeu Aurélia rindo-se. 

Aproximou-se do psiché, compôs as ligeiras perturbações de seu traje, anelou um cacho dos cabelos, consertou os fofos da saia, e tomou o braço do marido para entrar na sala. 

- Não faça imprudências, Aurélia! disse D. Firmina. 

- Não tenha susto! Agora estou preservada. 

A viúva não entendeu. Aurélia afastou-se, atirou em voz rápida esta advertência ao marido, cuja fisionomia conservava os traços das comoções por que passara: 

- Sejamos desgraçados, mas não ridículos. Tudo, menos dar minha vida em espetáculo a este mundo escarninho. 

Todos estes incidentes foram curtos e sucederam-se tão breves, que um quarto de hora depois do desmaio, Aurélia entrava no salão pelo braço do marido, tão fresca e viçosa como no princípio do baile, e ainda mais deslumbrante de beleza. 

Seus convidados, ao vê-la, caminharam ao seu encontro, mas não puderam apresentar-lhe suas felicitações, porque a orquestra despejava o mesmo turbilhão de valsa de Strauss, e Aurélia volteava a sala com o marido. 

- Que loucura! 

Foi a voz que se ouviu de todos os cantos. Seixas quisera demovê-la, mas ela o emudecera com uma palavra: 

- É a reparação que o senhor me deve. 

Valsaram tanto tempo quanto da primeira vez, e o mínimo alvoroço não agitou esses dois corações, que ainda há pouco se confundiam na mesma pulsação, e agora batiam isolados e cadentes, apenas agitados pelo movimento, como ponteiros de um relógio. 

Havia entre ambos um oceano de gelo. 

Acabada a valsa, Aurélia recebeu risonha as felicitações das amigas e convidados; Seixas, censuras e exprobações por ter consentido em dançar a Segunda vez com a mulher. 

- Podia ser-lhe fatal! 

- Era preciso curar-me da vertigem, acudiu Aurélia rindo. Ele tinha obrigação.

- E agora está curada? perguntou o general. 

- Oh! Para sempre! 

O baile continuou cada vez mais animado. 

 

VI 

 

Tinha saído o último dos convidados. Seixas voltava de conduzir o carro de D. Margarida Ferreira. Aurélia que o esperava, deu-lhe boa noite e ia retirar-se. Fernando a atalhou: 

- Desejo dar-lhe uma última explicação! 

- É inútil. 

- Não tive a intenção de ofendê-la. 

- De certo; um cavalheiro tão delicado não podia injuriar uma senhora. 

- Uma coisa desagradável que ouvi que me afligiu profundamente, tirou-me do meu natural. Não estava calmo; em todo o caso referi-me unicamente à minha posição, sem desígnio de qualquer alusão... 

- É uma história de ontem, que o senhor me está contando! Exclamou Aurélia e 

apontou para o mostrador de pêndula que marcava duas horas. Tratemos de amanhã. 

Vamos dormir. 

Fazendo ao marido uma risonha mesura, a moça deixou-o na sala e recolheu-se a seus aposentos, onde a esperava a mucama para despi-la. 

- Podes ir; não preciso de ti. 

Aurélia conservava de sua pobreza o costume de bastar-se para o serviço de sua pessoa; como não gostava de entregar seu corpo a mãos alheias, nem consentia que outros olhos que não os seus lhe devassassem o natural recato, poupava sempre que podia a mucama, a quel já não estranhava esse modo. 

Fechada a porta por dentro, a moça em um instante operou a sua metamorfose. O traje de baile ficou sobre o tapete, defronte do espelho, como as asas da borboleta que finou-se no seio da flor; surgiu dali, daquele desmoronamento de sedas, a casta menina envolta em seu alvo roupão de cambraia. 

Sentou-se no sofá onde estivera poucas horas antes com Seixas, e ficou pensativa. 

Até que levantou-se para ir correr a cortina ao quadro e acender a arandela próxima. 

Esteve contemplando o retrato e falou-lhe, como se estivesse diante de si o homem, de que via a imagem. 

- Tu me amas!... exclamou cheia de júbilo. Negues embora, eu o conheço; eu o vejo em ti, e sinto-o em mim! Um homem de fina educação, como és, só insulta a mulher quando a ama e com paixão! Tu me insultaste, porque meu amor era mais forte que tu, porque aniquilava a tua natureza, e fez do cavalheiro que és, um déspota feroz! Não te desculpes, não! Não foste tu, foi o ciúme, que é um sentimento grosseiro e brutal. Eu bem o conheço!... Tu me amas!...  Ainda podemos ser felizes! Oh! Então havemos de viver o dobro, para descontar esses dias que desvivemos! 

A gentil senhora apoiou-se à moldura do quadro, e outra vez ficou pensativa. 

- E por que não podemos ser felizes desde este momento? Ele está ali, pensando em mim; talvez em espera! Basta-me abrir aquela porta. Virá suplicar-me seu perdão, eu o receberei em meus braços; e estaremos para sempre unidos! 

Um sorriso divino iluminou a formosa mulher. Ela desceu do estrado e atravessou a câmara de dormir, com o passo trêmulo, mas afouto, e as faces a arderem. 

(continua...)

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