Por Franklin Távora (1878)
Lívidos, como cadáveres, atiraram-se à porta que lhes pareceu menos resistente. A coices de arcabuz, conseguem metê-la dentro. Voam de escadas acima como quatro sombras, quatro espectros fantásticos. A claridade do dia chegava ao interior da casa como luz crepuscular; mas aos olhos deles o que se apresentava eram trevas profundas. Francisco foi o primeiro que abriu uma das portas, e João da Cunha o que se atirou para o interior da casa, que não conhecia. O cheiro da pólvora e a nuvem de fuma ainda ondulante indicaram a direção que eles deviam tomar. Chegam enfim ao dormitório do negociante. Uma voz enfraquecida fez ouvir então estas palavras:
- Não me matem, não me matem.
Aos pés do leito havia um vulto sentado e outro estendido.
- Por Nosso-Senhor-Jesus-Cristo, não acabem comigo.
- Quem és tu, miserável? Perguntou o sargento-mór.
- Era Bartolomeu, o barcaceiro. Contou tudo. Tinha estado na véspera com o negociante. Tinha concertado esperar por ele na Borboleta; mas tendo visto os dobrões que o negociante inadvertidamente lhe mostrara, projetou logo apossar-se deles furtivamente. Esteve na barcaça até a hora em que a sorte pareceu ser pelas armas dos mascates; mas tanto que soube da entrada da tropa do governo, correu ao sobrado, calculando que Coelho seria morto, ou ao menos preso. Chegando ai, fechou-se por dentro para afastar qualquer suspeita, e forçou a burra. Quando a tampa cedeu à violência, um tiro partiu de dentro, e o feriu acima do ventre. Era o tiro que eles tinham ouvido. Em vão procurou o dinheiro que o tinha tentado. O que encontrou foi uma pistola presa ao cofre por oculto aparelho, ali posto intencionalmente para a fazer disparar sobre quem o violasse. E a Borboleta?
Deve de estar ainda no porto à minha espera. Os quatro amigos atiraram-se imediatamente fora do aposento e ganharam a rua em violenta carreira para o porto.
XXVIII
A enormidade e a iminência do perigo abateram o grande animo da senhora-de-engenho, a qual, percebendo levantar-se diante de seus olhos o vulto horripilante da morte, não escolheu meios de fugir a esta fúnebre visão, e deixou-se arrastar sem resistência e como sem consciência pelo mercador.
De feito, ela ouvira centenas de vozes pedir do lado de fora a sua cabeça em resgate do crime que fora aliás praticado por seu marido; vira a casa tomada pelos amotinados, resolutos a não terem para ninguém, e muito menos para ela, se não fosse o negociante, a menor contemplação; conhecera enfim que sua vida, posto que à sombra da proteção dele, não se podia considerar ainda de todo segura. Então não hesitou, não refletiu. Pegou da mão que se lhe estendia. O instinto da própria conservação impõe-se como uma fatalidade. D. Damiana não podia mostrar-se superior a essa lei absoluta e impreterível.
Para Coelho a crise tinha chegado à solução natural e única. João da Cunha, uma vez nas mãos dos inimigos, não haveria sair delas com vida. E o homicídio, previsto pelo mercador, não esteve longe de ser cometido nos primeiros momentos depois da prisão do senhor-de-engenho; mas interpôs-se uma circunstancia, menos filha do acaso do que da clemência com que o céu quis vir a seu socorro. Os filhos de Jeronimo Paes assentaram não lhe tirar a vida senão depois de perdida a esperança de um resgate em dinheiro, por então muito em voga.
Coelho não pensou mais senão em efetuar a sua viagem para o Recife. Ai esperaria a ultima palavra dos acontecimentos, que para ele não era duvidosa. Ai realizaria o seu sonho. Mas para que este resultado não estivesse sujeito ao mínimo contraste, urgia deixar Goiana. Demais, as turbas achavam-se exacerbadas e podiam ter o capricho feroz de preencher a sua vingança derramando o sangue de infeliz senhora. enfim, apresentando-se todas estas idéias ao espirito do negociante, correu ele à casa, meteu em se todo o ouro que tinha em segredo no cofre, e dizendo a d. Damiana que a ia recolher em lugar onde o povo não pudesse suspeitar seu homizio, encaminhou-se com ela em direitura para a Rua-do-rio.
D. Damiana não votava desafeição a Coelho. Ele tinha sido, por assim escrevermos, seu companheiro de infância, e tanto bastava para que a seus olhos o jovem europeu não aparecesse senão como um amigo, ou um irmão. É verdade que, mais tarde, distancia maior se estendera entre eles dois, filha da desigualdade de condição que naqueles tempos tanto predominava nas relações sociais e de família. Mas as tradições da primeira idade, que, como os hieróglifos dos egípcios e os caracteres cuneiformes dos persas, que tem atravessado as eras e dizem idéias tão duradouras como as pedras em que existem entalhados, não se apagam, senão com a morte, da imaginação ou, melhor, do coração onde se gravaram e donde dizem a todo tempo a sua muda e eloqüente linguagem, essas tradições extintas e sempre vivas prendiam irresistivelmente a gentil senhora-de-engenho, pelo passado, ao jovem português, como na escritura comum, o traço de união liga o verbo com o pronome, e de duas vozes diferentes faz uma só.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.