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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

A tropa que Francisco tinha guiado não era senão uma parte das forças comandadas pelo ajudante-de-tenente. Tinha este planejado, antes de entrar na vila, formar um como cerco que avançasse das ruas de fora para as de dentro, a fim de apertar e sufocar a insurreição, de modo que ela não tivesse por onde escapar.

Obedecendo a este intuito, Gil Ribeiro dividiu as forças em duas colunas, e, ficando com a mais forte, entregou o comando da outra ao ajudante Filipe Bandeira com o alferes Carlos Teixeira. Ele fez a sua entrada pelo lado do ocidente, e um quarto de hora depois entrava no Pátio-do-Carmo pelo lado do rio. Ao mesmo tempo a coluna comandada pelo ajudante Filipe Bandeira, e habilmente encaminhada por Francisco, desembocava ai pelo Beco-dolimoeiro. As forças inimigas estavam ainda no Pátio-do-Carmo, tendo à sua frente Luiz Soares, Gonçalo Ferreira, e os mais importantes mascates, seus parciais.

João da Cunha, Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti, eram conduzidos à cadeia por Jeronimo Paes no momento em que as duas colunas desembocaram no pátio. Eles deviam ficar ali ocupando o lugar dos criminosos que a multidão ainda não tinha podido soltar, em conseqüência da tenaz resistência de Antonio Rabelo. A demais nobreza, menos Cosme Bezerra, Jorge Cavalcanti e Manoel de Lacerda que já se achavam de volta novamente à vila para bater os invasores, tinha fugido para o mato. Todavia Gil encontrou já uma nova reação principiada contra os amotinados. Grande numero de cidadãos pacíficos, indignados com a cena do saque, tinham-se armado, e começavam a bater os que continuavam a praticá-lo. De sorte que alguns pontos, por onde passaram as duas colunas, as receberam com vivas demonstrações de contentamento.

Enfim, seriam dez horas da manhã quando o ajudante-de-tenente atacou os revoltosos. O povo é vário como as ondas. Não foi preciso muito para que, operando-se o quase fatal reviramento, logo se declarasse pelos vencidos.

Rompeu vivíssimo fogo de uma parte sobre a outra. Mas os matutos bisonhos, cansados e quase famintos que constituíam as forças de Luiz Soares, não podiam resistir por muito tempo às forças frescas, adestradas no manejo das armas e impacientes por darem tremenda lição, que trazia Gil.

Luiz Soares, em pouco tempo convencendo-se de que a sua estrela atingia o ocaso, tratou da retirada. Esta operou-se por dentro do próprio convento do Carmo. Os frades, ainda desta vez com as armas nas mãos, protegeram a causa dos estrangeiros.

Mas não foi pequeno o numero dos mortos e feridos que deixavam os que fugiam com medo de sua própria sombra.

No mais aceso do combate, Francisco correra a soltar os três fidalgos que eram conduzidos por um troço dirigido por Jeronimo Paes e seus três filhos.

- Eu nunca matei ninguém, meus senhores – disse Francisco ao bando. Mas para salvar esses homens, mato e morro; faço tudo, contanto que lhes de a liberdade.

Miguel, ouvindo estas palavras decisivas, partiu contra ele com o facão, e Victor imitou-o. A esse momento estavam já com o matuto algumas pessoas de Goiana, que descarregaram terríveis golpes sobre os agressores. Aproveitando a confusão, Francisco consegue chegar-se aos prisioneiros e cortar-lhes as cordas que lhes prendiam os pulsos. A um dá o facão, a outro a arma de fogo. Então eles investem terrivelmente. Pareciam feras soltas das jaulas. Em poucos instantes Jeronimo cai como morto; tinha sido alvo de golpes tremendos a que não pode resistir. Os filhos, porém, ainda que feridos, levantam o procurador do povo (Jeronimo Paes dava-se esta denominação) e fogem com ele. João da Cunha quer persegui-los, mas de repente para, como se o mundo lhe desabara aos pés, tanto que ouviu estas vozes de Francisco:

- Seu sargento-mór, os mascates estão vencidos. Mas o principal para nós está ainda por fazer. Sinhá d. Damiana.

- E que é feito da senhora d. Damiana?

- Que é feito? Está no poder do principal dos mascates. Quem? Antonio Coelho?

- Sim, senhor.

- Oh! não me digas isto, Francisco. E eu ainda aqui. vamos, corramos. Mas aonde iremos? Para onde correremos?!

Para a casa do mascate. Correram os fidalgos e o matuto como loucos pela rua afora. João da Cunha levava o inferno no coração. Aquela triste nova dava-lhe a esgotar as fezes do cálix de amargura que bebia desde a véspera. Em toda a sua vida nunca sentira tão profunda, tão desumana dor penetrar-lhe a alma.

Todas as portas, tanto as inferiores como as superiores, estavam hermeticamente fechadas. Do lado de dentro o silencio era profundo. Tudo indicava que na casa não havia viva alma.

A João da Cunha, perdido em cogitações e incertezas, só faltava desesperar.

- Meu Deus, meu Deus, que hei de fazer? Onde irei descobrir o infame? Onde irei achar minha infeliz mulher? Estiveram um momento curtindo silenciosos, de pé, a modo de privados do exercício da razão, aquela angustia sem nome.

Súbito uma detonação, que parecia partir do interior do sobrado, veio ressoar do lado de fora.

- Estão ai, estão dentro. Matou-a o malvado, exclamou o sargento-mór. Adivinho tudo. Quis violentá-la, ela resistiu e ele matou-a. Mas eu o matarei também. Matarei o vilão.

(continua...)

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