Por José de Alencar (1872)
- Quando recebi a carta, que deu o golpe à minha vida, a princípio não pude entender. Pensei estar louco. Li e reli; aquilo excedia minha compreensão. Enfim a certeza penetrou-me como um raio, e senti-me como arremessado do alto de um rochedo, que me dilacerara a alma. Reneguei tudo quanto respeitava; descri das coisas mais santas; cheguei a duvidar de minha mãe!... Era a vertigem; a dor veio depois, e atroz. Carecia de um coração amigo, com quem desabafasse. Aqui só tinha Fábio; mas com ele era profanar a minha desgraça. Lembrei-me da senhora. Talvez não devesse; mas acreditei que me havia de compreender.
- Não se enagnou.
- E, não sei por quê, tinha um pressentimento de que isso me havia de fazer bem: e fez. Estas poucas palavras que trocamos restituíram a calma a meu espírito. Sentia vacilar-me a razão a modo de ébrio; parecia-me que a consciência faltava-me, como a terra embaixo dos pés; e agora estou outra vez seguro de mim; perdi as ilusões e as crenças, mas conservo a possessão do eu; já não receio que uma paixão ou um vício me arrebate na correnteza como às alforrecas, que o mar lança à praia.
- Mostre-me a carta! murmurou Guida.
- Aqui a tem; eu a trouxe pensando que desejasse vê-la.
Recebeu Guida o papel com a mão trêmula, e procurou o abrigo de uma mangueira, cujo grosso tronco a escondia, para ler sem despertar a curiosidade da mestra. Ricardo voltou-se para não vexá-la.
Estava a moça comovida e palpitante. Aquele momento ia decidir de seu destino; e era preciso que ela tivesse ainda uma vez a energia de curvar a fortuna a seu império, e vencer ela mesma, de iniciativa própria, os obstáculos. Sua alma superior compreendia agora o assomo confuso, obscuro, travado de hesitações e arrojos, que desde a véspera impelia Ricardo para ela, sôfrego de abrir-lhe o coração. O fenômeno que o mancebo não podia bem discernir em sua própria consciência, ela o penetrava com a luz pura de seu nobre coração.
Com as mãos apertadas ao seio para recalcar a efusão de seu júbilo, murmurou consigo:
- Ele me ama, sem o pensar. Quando viu-se livre, lembrou-se que nada o separava de mim. Mas eu sou rica e o mundo não acredita que se possa amar uma mísera criatura de carne, de preferência a uma barra de ouro!... Ricardo duvidou de si, ele mo disse há pouco; julgou-se arrastado para mim, não pelo afeto mas pelo interesse. Então, revoltando-se contra si mesmo, em vex de me dizer:
- “Sou livre, aceito” – ao contrário, procura cavar um abismo que o separe para sempre de mim, a fim de não sucumbir à tentação. Não pode mais amar? Pertence à outra para sempre? Pois bem! Assim é que eu o quero, para afastá-lo tanto desse pesadelo vivido sem mim, que não se lembre de ter jamais amado a outra mulher.
Estes pensamentos não os alinhou Guida em palavras na mente, mas desenhavam-se como figuras de painel iluminadas de repente por um jato de luz. Também não duraram senão o tempo de abrir a carta de Bela, que a moça amarrotara entre as mãos, quando comprimira a arfagem do seio.
Leu Guida uma e duas vezes. Na Segunda, sua mão caiu-lhe desfalecida. Compreendera tudo: divisara naquele papel mudo o pensamento de Bela como perscrutara pouco antes o segredo do advogado através de suas palavras confusas.
Dobrou a moça a carta enquanto se dominava e aproximou-se de Ricardo:
- Bela o ama, como eu pressinto que havia de amar, se Deus não me houvesse retirado sua graça.
- E esta carta?
- É uma sublime abnegação. Bela acreditou que era ela quem a condenava à pobreza e à obscuridade. Enganaram-na certo, asseverando que o senhor tinha outra afeição; fez o que devia: renunciou à sua felicidade para não sacrificar aquele a quem ama.
Ricardo abriu a carta que a moça lhe restituíra, e leu-a de novo. Ali estava a alma de Bela, a santidade daquele coração em todo esplendor. Fora preciso que a palavra pura e nobre de Guida lhe dissipasse a névoa dos olhos para que ele visse.
Erguendo os olhos, pousou-os brandamente no rosto de Guida.
- A senhora que lê no coração de Bela, inspire-me! Que devo fazer?
Guida voltou-se e colheu uma folha de avenca, nas fendas de um velho muro. Era um disfarce para ocultar o soluço que rompia-lhe o seio.
- O seu dever. Bela espera a resposta; é ela que vai decidir de sua sorte. Vá, vá a São Paulo e...
Pareceu que a voz de Guida afogava-se num soluço. Ricardo olhou, e viu-a sorrindo acabar a frase:
- E seja feliz!
A moça foi ter com Mrs. Trowshy e instantes depois, terminado o passeio, retirava-se Ricardo.
- Ela não pode amar-me!... pensou o moço em caminho para a cidade. E eu... eu tenho medo de amá-la!
Dois dias depois partia o vapor de Santos. Ir a São Paulo, como lhe dissera Guida, foi idéia em que não se demorou o ânimo do advogado; não o permitia o escritório, nem o estado de seu espírito. Resolveu porém escrever a Bela em termos que a demovessem da suspeita de não ser amada, como o fora sempre.
- Serei eu quem me sacrifique à sua felicidade.
No momento de pôr a pena no papel corou: nunca poderia escrever o que não sentisse; não falou a linguagem do coração, mas a da razão.
“Bela
A vida é uma coisa bem séria, que não se deve fazer tema de caprichos e arrufos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.