Por Franklin Távora (1878)
Andando sempre sem destino, ora para um lado, ora para o outro, por fugir das turbas revoltas que não cessava, em seu frenesi, de botar abaixo portas, roubar o que lhe aprazia, despedaçar o que não falava à sua ambição, quando Marcelina deu acordo de se estava no oitão de uma igreja. Era a da Misericórdia. Seriam nove horas. No lugar, como se deserto, passavam com intervalos, maltas de homens, vociferando, gritando, muitos deles já nos braços da embriaguez. De repente, ela viu vir correndo a marche-marche, pela Rua-das-porteiras, em procura do oitão da igreja, onde ela se sentara, uma longa fileira de soldados, os pés nus, as calças arregaçadas. Capitaneavam-nos dois cavaleiros. - Virgem Maria! exclamou ela, tomada de novo horror. Aonde irá isso parar! Goiana hoje arrasa-se, acaba-se de uma vez.
Supondo que era novo reforço de bandidos, correu a meter-se dentro de um fechado de arbustos que havia a um lado do oitão. A pobre mulher estava possuída de terror. Em todos via inimigos.
Abaixou-se quanto pode, e nesta posição ficou imóvel, quieta, rezando baixinho a Magnificat.
Quando estava nisso, passou por junto da moita o bando sempre a correr. Não falavam. Parecia mudos. Todos corriam apressados. Adiante ia um oficial e atrás outro, acompanhado de um paisano. Estes três vinham a cavalo.
Súbito uma voz soou aos ouvidos da cabocla.
- Veja, seu ajudante. Olhe como corre o povo solto lá embaixo.
- Estas palavras tinham sido ditas pelo paisano ao militar, apontando o que as dissera para o largo das Portas-de-Roma.
- Elas produziram em Marcelina o efeito de um choque elétrico. Tinha reconhecido a voz de Francisco.
- Marcelina não se pode Ter mais oculta um só instante. Correu de dentro dos arbustos, gritando: Francisco, Francisco, foi Nossa-Senhora que te botou por aqui.
Não se pode descrever o prazer que tomou o matuto. Saltar do cavalo abaixo e correr, louco, delirante ao encontro de sua mulher foram atos que ele praticou a modo de impelido por uma mola magica. Apertou-a entre os braços extasiado. Por cima de suas barbas que iam pintando, mas ainda negras, desceram-lhe duas lagrimas nitentes. Sobre seus lábios crestados perpassou sorriso de inefável contentamento.
- Marcelina, meu amor, que andas fazendo por aqui só, escondida? Estás com medo dos mascates, já sei. Ah! Marcelina, Deus se lembrou de mim. Vim fugindo dos facinorosos. Os mascates estão senhores de toda a vila. Seu sargento-mór, tenho que já o mataram. As forças de Luiz Soares atacaram o sobrado e levaram tudo a ferro e a fogo. Nós resistimos, mas por fim não pudemos mais, e demos os braços.
- Já sei de tudo, Marcelina. Lá embaixo soubemos logo do que havia. Esta tropa, que estás vendo, vem de Itamaracá por ordem do governo de Olinda para acabar com os mascates. Eu vinha fora de mim, minha mulher. Nem tu sabes o que fizeram os ladrões, ao passarem pelo Cajueiro. Que fizeram eles?
- Queimaram a nossa casa, mulher, a nossa casinha, que nunca lhes fez mal.
A nossa casinha! Que dizes tu, Francisco? Pois esses endemoniados chegaram a queimar a nossa moradinha de casa? Oh meu Deus! Cada um havia de Ter sua parte nessa desgraça geral?! Até o nosso suor havia de pagar pelos males dos outros?! Mas isso não há de ficar assim. Deus há de castigar esses malvados, essas feras malfazejas!
- E que novas me dás tu de Lourenço?
- Anda ai mesmo pela vila com seu Cosme, lutando com os mascates. Mas a minha casa, a minha casinha tão bonitinha! Tudo queimado e destruído! Ah! malvados do inferno! A luz há de faltar a vocês na hora da morte.
- E as lagrimas arrasaram os olhos de Marcelina, que tinha nas faces palidez mortal, nos olhos a expressão de profunda e entranhável dor. Não chores, mulher. Foi-se uma, faz-se outra casa. E a minha caixa teria ardido também?
- Qual caixa?
- A nossa caixa, aquela onde tu guardavas o dinheiro. Se não a tiraste antes, ardeu também. Tudo lá estava em cinzas.
- Ah Lourenço, lá se foi a tua fortuna. Era na caixa que eu tinha guardado o papel que me deu seu padre Antonio no momento da despedida. Que papel era esse?
Vamos ao Cajueiro, Francisco. Talvez ainda se possa salvar alguma coisa. Tem paciência. Agora não é possível o que queres. Vou aqui servindo de guia à tropa. Mas se queres ir, vai. Aqui te deixo o cavalo, coitado! que já não pode andar de enfadado. Vê como vais, Marcelina. Se vires alguém que te possa ofender, mete-te no mato. Eu hei de dar contigo onde estiveres. Vou direitinho à minha casa. Mas antes que me esqueça, quero dizer-te uma coisa: vê se podes descobrir sinhá d. Damiana que seu Antonio Coelho prendeu e levou consigo para entregar à justiça. Pobre senhora!
Francisco alcançou logo adiante a tropa, enquanto Marcelina, tendo arregaçado as saias, saltara sobre a cangalha e pusera o cavalo para trás.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.