Por José de Alencar (1872)
O moço abraçou Linda e partiu soluçando. A menina escondeu o pranto no seio da mãe, que a furto enxugava os olhos.
XXVIII
O congo
A cidade da Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta nas rampas de uma colina que se enleva à margem do rio.
No centro, e sobre a esplanada, fica a praça da matriz, cercada por bons edifícios, entre os quais a veneração do povo aponta, como relíquia histórica, a vasta casa que foi de Costa Carvalho, o ilustre marquês de Monte-Alegre.
Fronteira à matriz, modesta igreja de uma torre, está a casa da câmara, construída ao uso antigo, com seu campanário no meio e as enxovias ao rés do chão, inteiramente isolada dos outros edifícios.
Era domingo; e havia na vila reboliço de festa.
Pelas ruas, de ordinário soturnas e ermas, passavam ranchos de gente a pé e grupos de cavaleiros que acudiam à função. Às vezes era algum carro de bois, coberto com esteiras e atopetado de moças, crias e mucamas, que atroava os ares com o chio estridente.
Pouco mais de nove horas havia de ser. Uma canoa acabava de abicar à ribeira junto à ponte, e dela saltavam nhá Tudinha, Berta e Miguel, que também vinham atraídos pela festa.
O rancho subiu ladeira que vai ter ao largo da matriz. Miguel, triste e abatido, investigava com um olhar de desânimo as janelas das casas. Berta a furto observava-o com uma expressão de terno ressentimento.
No trato dos dois moços entre si havia agora um certo constrangimento. Miguel acusado severamente pela própria consciência de ter mentido a seu primeiro amor e talvez que ligado ainda por esse elo que de todo não se rompera, fugia de conversar com Berta.
Na melancolia da menina e nos quebros de seus olhos negros, parecia-lhe sentir um ressumbro de meiga exprobração, que infiltrava-se dentro d’alma e somente exalava nalgum momento de cisma ou descuido.
Por isso, Berta evitava também a companhia do moço, receosa de trair a mágoa de seu coração. Bem desejava ela consolar Miguel, a quem D. Ermelinda cortara em flor a esperança de sua vida; mas temia que lhe escapasse nessa efusão o segredo de sua melancolia.
Nhá Tudinha, sempre contente e prazenteira, não desmentia a sua habitual agilidade. Caminhava adiante, garrulando sem cessar e voltando-se a cada instante para chamar a atenção dos dois moços a propósito de suas observações.
Atravessando o largo da matriz, os olhos de Berta, volvendo a esmo, caíram sobre a fisionomia de Jão Fera. Sobressaltou-se a menina, e seu primeiro movimento foi acenar ligeiramente com a mão, chamando o capanga.
Depois do castigo que em um ímpeto de indignação lhe infligira, nunca mais Berta vira o Bugre, que desaparecera de Santa Bárbara. Passados alguns dias e desvanecida a impressão da cena medonha a que assistira, sua alma embebeu-se dos eflúvios da piedade; e ela tinha dó quando lembrava-se da humildade com que Jão Fera sofrera uma punição tão cruel para seus brios.
Vendo ao capanga depois de tantos dias, cedeu, no primeiro assomo, a um impulso de bondade chamou-o. Porém logo apercebeu-se de seu equívoco. O rosto de Jão Fera lhe aparecera, mas por entre os varões de ferro da enxovia, em que a princípio não reparou.
Acabrunhado pelo desprezo da menina, sentindo que se tornara para ela objeto de asco e horror, o facínora veio a Piracicaba e entregou-se à prisão. Desde o dia da morte do Ribeiro, estava ele encarcerado na cadeia da vila.
Compenetrando-se da realidade e reconhecendo a impossibilidade em que estava Jão Fera de acudir a seu chamado, e o perigo que o ameaçava, curvou a menina a fronte com um gesto de mágoa e resignação.
Foi rápido este incidente e ocorreu durante o trajeto da família pela face lateral da cadeia até a próxima rua cuja esquina dobrou.
Nas horas mais quentes do dia amainou o rumor da festa para recrudescer ao cair da tarde, quando todas as janelas se atufaram de moças e a massa do povo se apinhou pelos cantos das ruas.
Ao repique de sinos e estrondo dos rojões, desfilava pelo largo da matriz a luzida cavalgada do Congo, precedida por um terno de rabecas e flautas, que compunham a banda de música.
Adiante vinham o rei e a rainha do Congo, montando soberbos cavalos ricamente ajaezados e trajando custosas roupas de veludos e sedas. Seguiam-se os cavaleiros e damas da corte, que não ficavam somenos aos soberanos do imaginário reino africano.
Fazia de rainha Florência, que nesse dia triunfava sobre a rival, a mucama Rosa. O rei era o pajem de um ricaço da vizinhança; e todos os outros personagens, cativos das fazendas próximas.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.