Por José de Alencar (1875)
Neste deleito em que se engolfava, teve Seixas um momento de recobro, e pressentiu o perigo. Quis então parar e por termo a essa prova terrível que a mulher o submetera, certamente no propósito de o render a seu império, como já uma vez o fizera, naquela noite do divã, noite cruel que ainda conservava a pungente recordação.
Para reparar a parada, conteve a velocidade do passo. Percebeu Aurélia o leve movimento, se não teve a repercussão do pensamento do marido, antes que este o realizasse. Os lábios murmuraram uma palavra súplice:
- Não!
As pálpebras ergueram-se; os grandes olhos, cheios de luz e de amor, inundaram o semblante de Seixas, e cerraram-se logo levando-lhe toda a vontade e consciência, como uma onda que depois de espraiar-se, reflue, trazendo no seio quanto encontrou em sua passagem.
Seixas abdicou de si, e arrojou-se novamente no turbilhão.
Tudo isto se passara em breves momentos, durante o espaço que o par valsante levara para descrever pelo vasto salão duas ou três elipses.
Nos quatro cantos da casa, havia para ornato altas jardineiras de bronze verdadeiro e de trabalho artístico, lembrança de Aurélia que as encomendara da Europa.
Eram grupos agrestes, onde se tinham disposto os lugares dos vasos; mas estes em vez de flores, recebiam plantas vivas, que formavam assim um bosque a casa ângulo da sala, concorrendo para dar-lhe o aspecto campestre, que tanto se aprecia agora e com razão.
Há nada mais encantador do que trazer o campo para dentro da cidade e até da casa; do que entrelaçar com as magnificências do luxo as galas inimitáveis da natureza?
No enlace da valsa, o lindo par, ansioso de espaço, e sentindo-se apertado na sala, alongara a elipse até a extremidade, voltando por detrás de uma das jardineiras, onde não estava ninguém naquela ocasião.
Houve um ápice, rápido como o pensamento, em que o par achou-se oculto pelas longas palmas de uma musácea, que se arqueavam graciosamente em umbela. Nesse momento um relâmpago cegou-os a ambos.
Duas rosas se embalam cada uma em sua haste à aragem da tarde; inclinam de leve o cálix e frisam-se roçando as pétalas. Assim tocaram-se as frontes de Aurélia e Fernando, e os lábios de ambos afloraram-se no sutil perpasse.
Foi um relance. O elegante par sumira-se atrás da folhagem, e já emergia da sombra e nadava na claridade deslumbrante da sala que ia de novo atravessar na elipse fugaz.
Mas Fernando sentiu na face um sopro gelado. Olhou: Aurélia estava desmaiada em seus braços. A gentil cabeça ao desfalecer não vergara para o peito. Como se a prendesse o imã dos olhos que a enlevara, inclinou à espádua do cavalheiro, com o rosto voltado para ele.
Os lábios descorados moviam-se brandamente, como se sua alma, que ali ficara, estivesse conversando com a outra alma que ali passara.
Seixas ergueu a mulher nos braços e levou-a da sala.
V
No meio do alvoroço causado pelo incidente, enquanto acudiam os médicos, vinham os sais, e corriam as amigas, umas inquietas, e outras curiosas, choviam os comentos.
- Que imprudência!
- Aquele desespero!... Eu logo vi!
- E ela que não tem o costume de valsar.
- Quis fazer-se de forte!
- Não é, senhora; aquilo foi o vestido. Não vê como acocha a cintura.
- Ora! Remantismos!... dizia Lísia com um muchocho; e acrescentou para Adelaide:
- Acredita no desmaio?
- Pensa que foi fingimento?
- Requebros com o marido. Queria que ele a carregasse no meio da sala e à vista de todos. Gosta de mostrar que o Seixas a adora e derrete-se por ela! Pudera não! Uma boneca de um milhão de cruzeiros!...
Nesse tema continuou a menina, que tinha a balda muito comum de falar como um realejo, pensando que assim abismava os outrso com um espírito gasoso, quando ao contrário aguava o que a natureza lhe dera.
Entretanto Seixas tinha conduzido a mulher ao toucador e deitara o belo corpo desmaiado em um sofá. Estava inquieto, mas não aflito. No transportar a moça havia sentido o calor de sua epiderme e o pulsar de seu coração. Não passava o acidente de ligeira síncope.
Com efeito, antes que a inundassem de éter ou álcali, e que lhe desatacassem a cintura, Aurélia abriu os olhos e arredou com um gesto as pessoas que se apinhavam junto ao sofá.
- Não é nada: uma tonteira, já passou.
O médico que tomava-lhe o pulso, confirmou, limitando-se a recomendar além do repouso, o desafogo do vestido para respirar melhor.
Não é preciso; basta que me deixem espaço, respondeu Aurélia.
Retiram-se todas as senhoras, e voltaram à sala. D. Firmina demorou-se com intenção de não deixar a moça; mas esta pediu-lhe que a substituísse nas funções de dona da casa.
- Fernando fica. Vá para a sala; e faça continuar a dança. Estou boa; não tenho nada.
Se constrangerem-se, é que me incomodam; cismarei que estou doente!
D. Firmina riu-se, inclinou-se para beijar a moça na testa e voltou à sala. Ao aproximar-se da porta, viu alguns curiosos que espiavam para dentro, e cerrou as duas bandas, fechando-as com a aldraba.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.