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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

A efusão de alegria que tivera na véspera a ver Ricardo, quando já o sabia desobrigado da promessa que o separava dela, essa primeira expansão de sua alma desvanecera-se mais tarde, durante a vigília. 

Como uma gota de fel, caiu-lhe do espírito no coração uma idéia, que a amargurou. O afã com que Ricardo aproximava-se dela, logo depois da decepção, e sem dar tempo à alma não já de esquecer, mas de acalmar-se, não estava revelando o plano de uma vingança ou de um cálculo sôfrego? 

Esteve a não ir ao Andaraí; mas pensou que o melhor era não demorar essa crise de sua vida. 

Viera; não com a alma cheia de enlevos e ternuras como a tinha na véspera quando tocava Romeu, porém no desencantamento de um coração que sente fanar-se morno bafo do aquilão, a primeira bonina, que apenas começava a florir. 

Desculpou-se o advogado na demora da restituição dos papéis; elogiou a aquarela de Guida, o que levou a conversa para os desenhos de Ricardo e as recordações do verão passado na Tijuca. Falou-se da beleza das pitorescas montanhas, dos encantos de sítios tão aprazíveis; e uma doce tinta de saudade ressumbrava nessa conversa de passatempo. 

Depois de um quarto de hora ou mais, vendo Ricardo que não havia mutação de cena, e perdendo a esperança de uma longa e íntima efusão, como ali tivera Guida com ele vinte dias antes, ergueu-se com intenção de sair. 

- O senhor ainda não viu a chácara da avozinha? É muito bonita. 

- Qual! disse a velha. Já foi, agora está maltratada. 

- Quer dar um passeio? perguntou a moça. 

- Com muito gosto! respondeu Ricardo. 

- Vamos, Mrs. Trowshy. 

A mestra estava pronta sempre para passear. 

Querendo facilitar a Ricardo a entrevista, que ele desejava, e sentindo ao mesmo tempo vexame de achar-se de todo a sós com o mancebo, Guida escolhera o passeio, que lhe deixava toda a liberdade de movimentos para dissimular as emoções e interromper a conversa a propósito. 

O bando de moleques disparou adiante, como um rebanho de cabritos, quando o soltam do redil pela manhã, e espalhou-se pela chácara, a pretexto de apanhar frutas para nhanhã Guida, mas realmente para as comerem eles e fazerem mil diabruras. 

Mrs. Trowshy, que despedira da cancela pela rua afora, como bala de canhão, e lá se fora em passo de carabineiro inglês assaltando um reduto, depois de três voltas sentara-se esbaforida à sombra de uma jaqueira, a debulhar um cacho de uva para refrescar-se. 

Em frente da jaqueira passava uma rua de mangueiras, por onde vinham Guida e Ricardo a par, em um silêncio que os embaraçava a ambos; mas nenhum queria rompê-lo com banalidades, receando afastar o momento da confidência e talvez impedi-lo. 

Animou-se Ricardo afinal: 

- Lembra-se do que me disse aqui nesta casa, há quase um mês, quando nos despedimos? Que seu romance acabava alegre. 

- É verdade! respondeu Guida. Eu disse e... 

A moça conteve-se, receando lhe escapasse o segredo das lágrimas que tinham orvalhado seu amor ao nascer. Ricardo esperou um instante, mas vendo que o silêncio ia outra vez envolvê-los, continuou:

- Pois o meu acabou triste, bem triste. 

- Conte-me, disse Guida com bondade. 

- Não vale a pena. Uma afeição de infância, que lutou anos contra a adversidade para ser traída e ludibriada no momento em que lhe sorria a esperança! Quem dá valor a estas futilidades do coração? concluiu o mancebo em tom amargo. 

- Compreendo quanto deve doer a perda de uma ilusão, observou a moça. 

- Não é a perda de uma ilusão, mas a ruína de minha vida inteira. O coração está morto; é uma terra sáfara onde não brotará nunca mais a flor de uma afeição. E é esta a maior felicidade que Deus me pode conceder ainda neste mundo! Volveu Guida um olhar tímido e queixoso. 

- Por quê? 

- Amar outra vez? Seria martírio incessante. Não me animaria jamais a oferecer àquela a quem eu amasse os destroços de uma vida despedaçada pela traição, os bocejos de uma alma devorada pela dúvida. Oh! não! Se isso acontecesse por minha desgraça, eu havia de adorá-la em silêncio, no mais recôndito de minha consciência, quando não conseguisse arrancar do coração esse espinho doloroso. 

Com a fronte inclinada e o seio palpitante, escutava Guida  as palavras de Ricardo, que as proferia com o olhar vago, receando pousá-lo no semblante da moça. Timidamente observou: 

- Não conheço os mistérios do coração. Mas penso que não pode haver maior júbilo do que seja esse de reviver um coração morto, de apagar um passado triste, e criar para aquele a quem se... estima, uma nova existência!

- Quantos encontraram no mundo um anjo como esse? perguntou Ricardo. 

Guida não respondeu. 

(continua...)

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