Por Franklin Távora (1878)
E dizer-lhe estas palavras foi o mesmo que tomar pela mão a senhora-de-engenho, atravessar com ela por entre o seu próprio séquito, acomodando os mais exaltados e exigentes, com a promessa de que ela pagaria a sua culpa às justiças, e desaparecer por onde havia entrado na casa do sargento-mór.
Irritados pelo pouco caso e mofa que mostravam os invasores, os fidalgos precipitam-se contra eles, resolutos a abrir caminho por cima de cadáveres. Seus golpes não conseguem mais do que ferir alguns mascates. Acende-se logo pronta e terrível represália. Tomam-nos às mãos, arrebatam-lhes as armas, descarregam sobre eles pancadas e cutiladas, assacam-lhes mil impropérios.
Então já as duas multidões, pondo-se em comunicação pela escada, formavam um só corpo, uma como serpente imensa, irrequieta, assanhada, que se esfregava pelas paredes, sacudia-se pelas salas, sumia-se pelos quartos a dentro, penetrando nos pontos mais secretos da casa do fidalgo, enquanto este desarmado, ferido, coberto de baldões, via-se com seus próprios escravos entre os primeiros cabos da força de Luiz Soares, e era apontado por ele, que não ocultava a sua satisfação, como o seu primeiro troféu.
De todas as que estavam na casa de João da Cunha, só uma pessoa pode escapar-se com sua liberdade. Foi Marcelina, que correra, não por fugir, senão por acompanhar d. Damiana, no momento em que com ela rompia Antonio Coelho por entre os seus partidários.
- Hei de ir com ela até ao infinito! Dizia a cabocla correndo após a senhora-de-engenho. Não hei de perder de vista a pobre senhora. Meu Deus! Como tudo se mudou!
Mas a Coelho não fazia conta ser acompanhado por essa terrível testemunha, e cedo achou um meio de afastála de suas pisadas, por mais que a senhora-de-engenho pedisse depois que a deixasse passar. Para penetrar no quintal do sobrado, tinha Coelho feito caminho por um dos casebres que abriam sobre a Rua-do-meio. O mascate estugou os passos, atravessou o casebre, e, quando se achou com sua presa na rua, trancou pelo lado de fora a porta. Marcelina não era mulher a quem semelhante obstáculo cortasse a carreira em que ia. Mas quando, desimpedida a saída a poder de esforço e violência, ela passou da outra banda, Coelho e d. Damiana tinham desaparecido.
- Pobre senhora! exclamou a cabocla em lagrimas. Que não fará com ela o bárbaro?
Seriam então oito horas da manhã. O dia, risonho e esplendido, apareceu aos olhos da cabocla como a carranca de um malvado. A viração, que brincava com as folhas dos mamoeiros dos quintais, soou a seus ouvidos como a ameaça de um assassino, o riso infernal de um demônio.
Marcelina tinha até certo ponto razão deixando formar-se em seu espirito esta ilusão mentirosa.
Era geral o destroço, lúgubre o espetáculo que seus olhos descobriram na rua. Homens de feia catadura passavam carregados dos despojos da noite. Outros agora é que iam a colher os frutos que sabe a pilhagem descobrir no meio do desamparo, e por entre as lagrimas dos aflitos. Dos armazéns, onde alguns senhores-de-engenho tinham recolhidos seus açucares, saiam sujeitos maltrapilhos arrastando sacos e caixas, que deixavam pelas calçadas rastilhos brancos ou amarelados. Vários troços da força de Luiz Soares, tanto que fora conhecida a vitoria, espalhavam-se derrubando as portas de novos armazéns, invadindo as casas de famílias afeiçoadas à nobreza que tinham fugido para pontos desconhecidos, e daí tirando tudo o que tentava sua cobiça e podia aprazer à sua voracidade. Essas hordas passavam impunemente, sem que ninguém se atrevesse a ir ao seu encontro; porque os próprios grupos que na véspera se tinham organizado em favor dos nobres e durante a noite haviam sido em muitos pontos obstáculo ao saque, desfizera-os a noticia de que o sobrado do sargento-mór, que era como a praça-forte dos nobres, fora tomado pelo partido contrario. A plebe tomara conta da vila e levava por diante a sua obra de destruição e rapina. Enfim, o que Marcelina tinha diante dos olhos era o saque em toda sua hediondez – o saque, serpente de vasta guela e insondável estômago, que tudo engole, viveres, jóias, moveis, roupas, e o que não lhe apraz ingerir, despedaça, destróe, inutiliza, como faz a enchente de um grande rio quando inunda um ponto habitado.
Marcelina vagou sem norte, tendo o juízo em quase completa confusão, pelas ruas cheias de figuras sinistras, e de vozes e ruídos ingratos. Lembrou-se de Lourenço e de Cosme Bezerra. ‘Que será feito de meu filho?! Quem sabe o que não lhe terá acontecido? E seu Cosme que foi buscar gente e nunca mais apareceu?’
Estas interrogações tinham resposta fácil. Cosme, quando vinha com os poucos trabalhadores e escravos de Jorge Cavalcanti, encontrou-se com o bando de Tunda-Cumbe – aquele mesmo que saqueara o engenho Bujari, e foi batido. Voltou então, com Jorge Cavalcanti, derrotado e ferido. Mas ainda assim dirigira-se ao engenho Jacaré, a fim de ver se decidia o respectivo proprietário, até então indeciso, a tomar o partido da nobreza e a vir em auxilio da vila com sua fabrica e agregados. Quanto a Lourenço, tendo preenchido a comissão que o levará ao Tanquinho, lembrou-se de correr ao engenho Bujari, a fim de chamar a gente que ai ficara. Mal sabia ele o negro drama de que tinha sido teatro a risonha propriedade de sargento-mór.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.