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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 De seu lado, Luís Galvão não vivia menos contrariado e aborrecido. A causa da tristeza de D. Ermelinda não era para ele um mistério; embora a senhora se recusasse a declarala, tinha ele perscrutado o segredo da súbita mudança. 

 Combinando certos pormenores, como os remoques dos camaradas junto à janela, na noite de São João; e lembrando-se que vira D. Ermelinda aproximar-se naquele instante, suspeitou do que havia acontecido; e as alusões que às vezes escapavam à senhora não deixavam a menor dúvida. 

 Imagine-se quanto não sofreu Luís Galvão, humilhado assim na estima da mulher, ele que sentia-se rebaixado ante a própria consciência, quando recordava aquela vergonha de sua mocidade! 

 Outrora, se lhe passara pela mente que sua mulher viria a conhecer aquele segredo, havia em sua alma um acerbo confrangimento. Por vezes, quis arredar para longe a Berta, cuja intimidade na casa pelas relações com nhá Tudinha, lhe avivava a cada instante a lembrança de Besita. 

 Mas Luís Galvão era desses homens que vivem muito à superfície d’alma, onde o contentamento do mundo, os prazeres efêmeros e as impressões do momento formam uma camada que sopita alguma reminiscência mais profunda. 

 Ao cabo de algum tempo, a presença de Berta já não lhe despertava nenhuma triste recordação; ao contrário, produzia nele uma doce emoção. O aspecto dessa gentil menina, retrato vivo de sua mãe, refloria para ele as rosas da sua mocidade. 

 Toda a tristeza de seu amor por Besita ficava no fundo d’alma como um sentimento, e só flutuava a suave fragrância daquele afeto da juventude. 

 Às vezes, contudo, pensando no futuro daquela menina, um remorso o pungia; bradavalhe a consciência que um meio ainda lhe restava, um único, de expiar seu crime: era resgatar o abandono da mãe pelo amor da filha. 

 Em véspera de partir para Campinas, impressionado um momento com os pressentimentos de D. Ermelinda a propósito de tocaias, escreveu ele seu testamento reconhecendo Berta. Fora esse o papel esquecido, à cata do qual voltou a pretexto de amostrar, levando-o consigo para faze-lo aprovar por um tabelião. 

 Essa resolução serenara de todo seu ânimo; e o remordimento que às vezes o confrangia de todo aplacar-se quando sobreveio a ocorrência da noite de São João perturbar, não somente o sossego de seu espírito, como a calma felicidade de sua mulher. 

 Nestas circunstâncias reconhecia Luís Galvão que só havia um meio de resolver a crise: 

era confessar o fato à sua mulher, franca e lealmente; mostrar-se a ela qual fora, e reconquistar a sua estima pela sinceridade dessa confissão, que exprimia o seu arrependimento. 

 Mas também ele hesitava no momento de provocar a declaração; e retraía-se vivamente, receoso de que essa revelação cavasse entre a mulher e ele o abismo da separação eterna. 

 Assim ansiavam por uma explicação, que os aterrava a ambos; e por isso evitavam-se, temendo que uma palavra escapa os arrastasse ao precipício onde podia se despenhar a paz e a ventura de sua mútua existência. 

 A estes motivos de mágoa e desgostos acrescia a lúgubre impressão, que tinham deixado o incêndio do canavial e as atrocidades de Jão Fera. 

 Todos o acusavam, exceto Luís Galvão, que lhe devia a existência; mas calava-se a respeito dos sucessos da noite fatal. 

 Nestas circunstâncias lembrara-se Luís Galvão de propor à mulher uma viagem à corte; e ela aceitara com fervor a idéia. Deixar as Palmas era um meio de escapar à tirania das pungentes recordações, e de afastar Linda de Miguel. 

 Ouvindo na véspera à noite o anúncio da viagem, a moça, cujo coração pressentia a oposição da mãe à sua escolha, compreendeu toda a extensão de seu infortúnio. 

 Ansiosa, pois, esperava Miguel, que havia uma semana, depois de São João, furtivamente vinha todas as manhãs até à cerca da horta para vê-la por entre as árvores. 

 Nessa manhã, avistando-o de longe, Linda correu ao quintal, e trêmula aproximou-se da cerca, além da qual se ocultava o moço. Ali, defronte, um do outro, os dois amantes não se animavam a quebrar o silêncio, nem mesmo a se olhar. 

 - Linda!... murmurou o moço afinal. 

 - O senhor não sabe? interrompeu a voz trêmula da menina. Vamos para o Rio de Janeiro. 

 - A senhora?... exclamou o rapaz sucumbido. 

 Linda soltou uma exclamação de susto. D. Ermelinda, vendo a filha passar, a acompanhara e surpreendera os dois amantes. 

 Não se irritou a senhora, que viu a aflição pintada no rosto da filha. 

 Ao contrário, abraçando-a com ternura, chamou a Miguel, o qual procurava esconder-se à sua vista. Aproximou-se o moço, pálido e confuso, para ouvir estas palavras pronunciadas com um tom de meiga severidade: 

 - Diga adeus a Linda, Miguel; mas para sempre! Ela não pode pertencer-lhe!... 

(continua...)

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