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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

O lindo par arrojou-se, deixando a trotar classicamente os outros que não podiam acompanhar aquela torrente impetuosa. Obscurecia-se a vista que buscava acompanhá-lo; ele passava nublado por aquela espécie de atmosfera oscilante, que a velocidade da rotação estabelecia em torno de si. 

Aurélia cerrara a meio as pálpebras; seus longos cílios franjados, que roçavam o cetim das faces, sombrearam o fogo intenso do olhar, que escapava-se agora em chispas sutis, e feriam o semblante de Seixas com os rútilos de uma estrela. 

A valsa é filha das brumas da Alemanha, e irmã das louras valquírias do norte. Talvez sobre essas regiões do gelo, com os doces esplendores da neve, o céu derrame alguma da serenidade e inocência que fruem os bem-aventurados; talvez que os povos da fecunda Germânia, quando vão ao baile, mudem o temperamento com que marcham à guerra, e façam correr nas veias cerveja em vez de sangue. 

A ser assim, pode a valsa ter naqueles países as honras de uma dança de sala. Em outra latitude, deve ser desterrada para os bailes públicos, onde os homens gastos vão buscar sensações fortes, que o ébrio pede ao álcool. 

Há nessa dança impetuosa alguma coisa que lembra os mistérios consagrados a Vênus pela Grécia pagã, ou o delírio das bacantes quando agitavam o tirso. "É, na frase do grande poeta, a valsa imoura e lasciva, desfolhando as mulheres e as flores". 

Nunca a linguagem, que esse rei da palavra, chamado Vitor Hugo, subjuga e maneja como um brioso corcel, prestou-se à mais eloqüente expressão do pensamento. É realmente a desfolha da mulher, a despolpa de sua beleza e de sua pessoa, o que a valsa impudica faz no meio da sala, em plena luz, aos olhos da turba ávida e curiosa. 

As senhoras não gostam da valsa, senão pelo prazer de sentirem-se arrebatadas no turbilhão. Há uma delícia, uma voluptuosidade pura e inocente, nessa embriaguez da velocidade. Aos volteios rápidos, a mulher sente nascer-lhe as asas, e pensa que voa; rompe-se o casulo de seda, desfralda-se a borboleta. 

Mas é justamente aí que está o perigo. Esse enlevo inocente da dança, entrega a mulher palpitante, inebriada, às tentações do cavalheiro, delicado embora, mas homem, que ela sem querer está provocando com o casto requebro de seu talhe e traspassando com as tépidas emanações de seu corpo. 

O que é a valsa, mostrava-o aquele formoso par que girava na sala; e ao qual entretanto defendia os olhos maliciosos da casta e santa auréola da graça conjugal, com que Deus os abençoara. 

Fernando arrependia-se de ter cedido ao desejo da mulher e começava, ele um dos impertérritos valsistas da corte, a recear a vertigem. 

Seu olhar alucinado pelas fascinações de que se coroava naquele instante a beleza de Aurélia, tentou desviar-se e vagou pela sala. Voltou porém atraído por força poderosa e embebeu-se no êxtase da adoração. 

Quando a mão de Aurélia calcava-lhe no ombro, transmitindo-lhe com a branda e macia pressão o seu doce calor, era como se todo seu organismo estivesse ali, naquele ponto em que um fluido magnético o punha em comunicação com a moça. 

Depois essa estranha sensação tornou-se ainda mais intensa. Já não tinha consciência de si para perceber distintamente a pressão dos dedos em seu ombro. O que se passava nele era uma verdadeira intruscepção da forma peregrina dessa mulher, que ele via em face, mas sentia dentro de si. 

Aurélia não consente, como outras, que seu cavalheiro a aconchegue ao peito. Entre os bustos de ambos mantém-se a distância necessária para que não se unam com o volver da dança; e tanto que deixam passagem à claridade do gás. 

Entretanto a sensação viva que Fernando experimenta neste momento é a do contato estreito, íntimo, do talhe palpitante da moça, como se o tivesse fechado em seus braços; sua alma, semelhante ao molde que concebe a cera branda, vazava em si formosa estátua e recebia o seu toque mavioso. 

Se o colo de Aurélia pulsava rápido no ofêgo da valsa, embora os rofos do decote nem de leve roçassem o colete, ele, fechando os olhos e recolhendo-se, palpava em seu peito a rija galba do seio voluptuoso. 

Se um retraimento lascivo, peculiar à raça felina, imprimia ao dorso de Aurélia uma flexão ondulosa, que dilatando-se no abalo nervoso, brandia o corpo esbelto, essa vibração elétrica repercutia em todo o organismo de Seixas. 

Era uma verdadeira transfusão operada pelo toque da mão deste na cintura dela; mas sobretudo pelos olhos que se imergiam, e pelas respirações que se trocavam. 

Não há flor de aroma delicado, como a boca pura e fresca de uma moça. 

Outros perfumes conheço mais vivos, alguns fortes e excitantes: nenhum tem a maga suavidade de um hálito de rosas, fragrância de sua alma, que Aurélia infundia nos lábios do cavalheiro. 

(continua...)

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