Por José de Alencar (1872)
Só a convite, e de longe em longe, viera à casa do Soares; nunca tinha freqüentado as reuniões de todas as noites, nem mesmo as partidas semanais do banqueiro. Que explicação tinha pois essa visita avulsa e sem causa?
O resultado da reflexão foi sair apressadamente, receoso de que o vissem. Não tinha porém dado cem passos, que já se arrependera de não haver realizado o primeiro intento, e moderou o andar, pensando em retroceder.
Avistou Fábio que saía nessa ocasião; foi-lhe ao encontro. Aí estava o pretexto da visita.
- Vi-te passar. Estava em casa do Soares, no jardim; vem comigo; passaremos lá a noite.
- Tens razão, respondeu Ricardo apertando-lhe a mão. Neste momento preciso muito daquele gramo de loucura, com que o poeta manda temperar o juízo; e que realmente é o melhor sal da razão, pois a preserva de corromper-se. Começava o crepúsculo.
Apesar da sombra que já havia no jardim, sobretudo onde copava o arvoredo, perceberam as duas moças a profunda alteração da fisionomia de Ricardo, não que estivessem descompostas suas feições, mas havia nelas a impressão digna e fria da dor vencida após uma luta heróica.
Guida envolveu em seu olhar compassivo o rosto do mancebo e murmurou dentro d’alma:
- Como ele a amava!
Entretanto, D. Guilhermina procurava reanimar a conversa:
- É um milagre, vê-lo, já não digo em nossa casa, porque a não ser uma visita de cartão, não lhe merece mais; mas aqui! Nem passando lembrou-se de entrar.
- Tenho desculpa, minha senhora. Falta-me o tempo.
- Agora não a tem!
- Agora, por quê? perguntou Ricardo volvendo um olhar suspeitoso para Fábio, que se eclipsou.
Guida estremeceu; e D. Guilhermina mordendo o beiço com um riso malicioso, afastou-se do lado que tomara Fábio, tanto para evitar um novo lapso, como para deixar os dois em liberdade.
Apoderou-se de Guida um enleio invencível, quando se viu a sós com Ricardo, no jardim; e mais crescia sua perturbação com o silêncio do moço, que de seu lado também parecia tomado de súbito constrangimento. Nesse momento, as salas iluminadas derramaram sobre o jardim o clarão das janelas; e um murmúrio de vozes na entrada anunciou a chegada das visitas habituais, que vinham passar a noite em casa do Soares. - É melhor entrarmos, disse Guida; e correu ao encontro de Clarinha, que passava com o barão de Saí.
Ricardo a acompanhou de longe, e instantes depois procurava nas conversas e burburinhos da sala, aquele grão de sal de que ele carecia para serenar a sua tristeza.
Mais de uma vez chegou-se para a filha do banqueiro com intenção de lhe dirigir a palavra; mas alguma força oculta o tolhia, que afastava-se, disfarçando o primeiro movimento.
Não escapou a Guida esta perplexidade. Convencida de que Ricardo lhe desejava falar, mas retraía-se na presença das pessoas que a cercavam, afastou-se um instante da roda das moças e cavalheiros a pretexto de ir ao interior; na volta chegou-se ao piano, e demorou-se em escolher uma peça para tocar.
Ricardo, recostado nesse momento ao vão de uma janela, foi talvez a única pessoa que seguiu os movimentos da moça, enquanto ela folheava o álbum, e não chamava a atenção ferindo as teclas do instrumento.
Guida colocou o livro na estante, e afastando o banco com a ponta do pé, volveu os olhos para Ricardo. Encontrando os dele, sentiu expandir-se a alma, que veio abrir-se em flor num sorriso fagueiro.
Esperou ainda um momento e sentou-se. Debaixo de seus dedos mimosos cantaram as teclas a súplica maviosa do dueto final de Romeu, escrito por Vaccai:
“Vieni, ah! vieni,
Mio bene, mia speme; Fugiamo insiemi,
Amor ci condurra”.
Ricardo não ouviu as notas, como não vira o sorriso.
Vexado de que lhe surpreendesse a moça o olhar ansioso, dissimulara, com intenção de aproximar-se logo depois, como atraído pela música.
Com efeito assim fez, mas ao mesmo tempo que ele, chegava Clarinha, o Guimarães, e todo o enxame de adoradores cercava o piano, levando o advogado a arredar-se, o que aliás fez de bom grado.
Pouco depois era meia-noite. As famílias se retiravam; D. Paulina com a filha as foram acompanhar até o portão, como de costume, por fineza aos hóspedes e por passeio.
Guida, de braço com Mrs. Trowshy, aproximou-se de Ricardo:
- Como está a noite serena! disse a moça. Havemos de Ter uma bonita manhã para ir a Andaraí, Mrs. Trowshy.
- E a lição de harpa?
- Que tem isso?
Voltou-se para Ricardo:
- É verdade! Quando leva aqueles papéis à avozinha? Creio que ela precisa deles.
- Já devia ter ido... Talvez amanhã.
- Eu a prevenirei para esperá-lo.
Este curto diálogo passou desapercebido no meio do gorjeio das moças que se despediam.
XXXI
No dia seguinte, às onze horas e meia, chegou Ricardo no Andaraí.
Achou na sala de visitas D. Leonarda recostada no sofá; Guida sentada a seus pés na almofada desenhava à aquarela sobre uma mesinha de charão para divertir a avó; e Mrs. Trowshy fazia “frivolidade” ( frivolité).
Guida estava triste.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.