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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

A esses saráos campestres, conhecidos por sambas, não faltam as moças mais desembaraçadas das vizinhanças, - fadas da roça, que com suas chinelas de marroquim, seus vestidos de chita ou de cassa de florões, nos lábios, que estão a verter sangue e frescura, o riso vergonhoso e a promessa duvidosa, os cabelos enastrados de jasmins, manjericões e malmequeres, dão alma a pastoris episódios, a curiosos melodramas e muitas vezes a tragédias medonhas e fatais. Algumas delas mais desgarradas trazem os seios mal cobertos por vistosos cabeções de que pendem, não sem acertadas combinações e fantasias, bicos e rendas bem feitas e elegantes.

Tais festas têm o seu lado bom e providencial, - fazem esquecer as magoas passadas e as privações presentes.

O primeiro e o mais proveitoso resultado delas é o seguinte: diminuem a estatística dos crimes graves e infamantes.

Pobres matutos!

Quantas vezes, ao ver-vos descalços, mal vestidos e mal passados, não senti apertar-se-me o coração com pena de vós?! Esta pena redobrava sempre que, passando pela frente dos vossos casebres, eu descobria ai por mobília um banco tosco, uma caixa grosseira, um pote de água suspenso entre os braços de uma forquilha enterrada no canto da salinha, e por leito de dormida para vós e vossos filhinhos uma esteira ou um giráo de varas!

Então eu compreendia a razão por que em nossos encontros nos caminhos éreis vós os primeiros que tiráveis o vosso chapéu e me salváveis com mostras de profunda humildade, sem saberdes sequer quem eu era. É que vós tínheis sempre presente no entendimento a consciência da vossa pobreza e consequentemente vossa fraqueza. Esta consciência, este aguilhão intimo, que nunca se embota, vos dava uma falsa idéia de superioridade de minha parte sobre vós. Pobres criaturas sois vós, ó matutos, mais dignos de compaixão e amparo do que do riso mofador de que vos fazem alvo os que na ignorância, na simplicidade e na miséria alheia acham assumpto para desenfado e divertimento próprio! Pobres sois vós dobradamente: porque recebestes de vossos pais por herança esta lamentável condição, e porque não podeis deixar em dote a vossos filhos condição diferente desta!

Francisco pertencia – é verdade – á classe dos almocreves; mas tinha seu cavalo, que não era qualquer, antes pelo contrario, era passeiro, carregava baixo e esquipava tão maciamente que quem nele ia, levava a ilusão de que era conduzido e embalado em uma rede.

Entremeava o oficio de almocreve com o de trabalhador de campo. Tinha mesmo plantações, posto que fracas. Por felicidade sua casará com Marcelina, cabocla ainda nova das proximidades da Alhandra, trabalhadeira poupona e ajuntadeira, que com as escassas economias de suas industrias ajudava o marido a achar a felicidade no seio da pobreza, e guardava a idéia de libertar-se deste estado ás custas do seu esforço.

Tempos depois de mudado de Cruangi, onde ao principio morou, para o seu sitio do Cajueiro, nome que ficou pertencendo não só ao sitio mas ao lugar de que Francisco foi o fundador, teve ele umas maleitas tremedeiras na força de rigoroso inverno. A moléstia pegou-o desprevenido, sem vintém nem dez réis, como diz o povo – ilustre saibo que versa a ciência da linguagem com autoridade e propriedade que lhe invejam os sábios de maior conta.

Mas durante ela nunca lhe faltaram remédios nem dietas: Marcelina supria as faltas e a casa com admirável prontidão.

- Donde lhe veio dinheiro para tudo isto? Perguntou uma vez Francisco á sua mulher.

E os cestos que laço não haviam de dar dinheiro? Respondeu-lhe ela com graciosa e móvel expressão. Veja estas rodilhas de cipó que comprei ontem. Chegam para uma dúzia de cestos. Logo que estiverem prontos, não há de faltar quem os queira. Os outros, que pendurei da banda de fora, não levaram uma semana a ser vendidos.

- Ora, Marcelina, disse o marido com manifesto pesar. Para que se cansa tanto? Eu quero muito bem a meu cavalo, mas vai um cavalo hoje, virá outro amanhã. Por isso sou de parecer que, em lugar de estar a trabalhar tanto para a casa, veja antes se alguém quer comprar o pedrez. Ele está em boas carnes e pôde achar bom dinheiro.

- Quem? O seu cavalo pedrez? Vende-lo? Não, senhor, que você precisia dele para quando ficar bom. Você mesmo bem sabe que um cavalo não vem assim tão depressa camo está dizendo. Não estamos ainda em ponto de vender o nosso único bem para remir as nossas necessidades, Deus louvado.

- Deus mesmo havia sempre de ajudar-me a comprar outro.

Mas que necessidade temos nós de nos desfazermos do animalzinho? Só se eu estivesse doida o venderia. Deus me livre.

Não tinha medidas o amor que Francisco votava a Marcelina, exclusiva possuidora do seu coração.

(continua...)

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