Por Franklin Távora (1876)
E o pardo, com o semblante desfigurado por uma dor profunda, apontou o rio que suavemente discorria por entre o deserto, mobilizando as águas azuladas em que se refletia o belo céu pernambucano que disputa a primazia ao céu de Itália.
— O dinheiro que tirei das gavetas do armazém lá se foi no camarote da canoa!—disse o Teodósio, fulo de pesar que se não descreve.
— E que fim levou ela? — interrogou José.
— Fugiu, desapareceu ! Lá se foi tudo pela água abaixo.
Não acabava quando, ei-la que aponta movida por dois meninos que, tendo ido encher os potes no rio, se haviam apoderado dela para brincarem como costumavam sempre que davam com alguma canoa sem dono. Pobres crianças !
Tanto que os viu, Teodósio empalideceu. Cabeleira porém correu a encontrálos aceso em ira, gritando e ralhando como louco. Amedrontados saltaram na margem os pobrezinhos e fugiram, ao passo que a canoa, ficando solta, desaparecia novamente impelida pela enchente da maré.
Fazendo conta José que os meninos se haviam assenhoreado do dinheiro, continuou a correr no encalço deles sem ter outra idéia que apanhá-los para arrancar lhes das mãos o que considerava propriedade sua. Mas como sua cólera aumentou com a fugitiva resistência dos pequenos, atirou ele sobre o primeiro que lhe ficou ao alcance o facão com tanta certeza, que o pobrezinho, cravado pelas costas, caiu banhado em seu próprio sangue.
Não parou aí então a fereza inaudita. José, achando limpas as mãos da vítima, lançou-se com encarniçada fúria atrás do camarada, o qual, tendo já ganho grande distancia, e sentindo que era perseguido tenazmente, se lembrou de trepar no primeiro coqueiro que descobriu com os olhos pávidos, crendo escapar por este modo ao terrível assassino. Reconheceu, porém, que se havia enganado, quando deu com as vistas em José que do chão diligenciava feri-lo com o facão.
— Acuda, mamãe, que o homem me quer matar — gritou o menino das alturas aonde havia subido.
— Ah, tu pões a boca no mundo, caiporinha ? — observou José. — Pois vou tirar te a fala em um instante.
Um tiro cobarde, cruel, assassino, atroou os ares. Sangue copioso e quente gotejou como granizo sobre a areia e no mesmo instante o corpo do inocentinho, crivado de bala e chumbo, caindo aos pés de Cabeleira, veio dar lhe novo testemunho de sua perícia na arte de atirar contra seu semelhante.
Quem estivesse com os olhos em Teodósio no momento em que Cabeleira correra atrás dos meninos, teria visto atirar dentro em uma moita de muçambés e manjeriobas, que ficava perto da ribanceira, um pesado pacote que tirara do bolso. Neste pacote achava se o dinheiro roubado ao lojista pelo astucioso ladrão que agora o furtava novamente aos próprios companheiros de rapinas, depois de haver concorrido, por sua trapaça, para a morte das inocentes criaturas.
Quando se soube que Cabeleira estava na terra e tinha sido o autor do latrocínio, a povoação horrorizada tratou unicamente de escapar a sua ferocidade.
Grande parte dos moradores fugiu para os matos e praias circunvizinhas. Outros, dos mais corajosos, fortificaram se nas próprias habitações, contando que seriam assaltados pelos matadores.
Felizmente estes demoraram se no lugar unicamente o tempo que lhes foi preciso para porém em boa espécie os objetos roubados segundo usavam depois de suas depredações.
CAPÍTULO III
Como nunca um mal vem desacompanhado, segundo mui bem diziam nossos maiores com aquela autoridade que, entre outros graves ofícios, não se lhes pode recusar na ciência da vida, ao grande contágio das bexigas, que todo o ano de 1775 e uma parte do seguinte levou assolando a província de Pernambuco, sucedeu uma seca abrasadora, mal não menos penoso senão mais funesto que o primeiro em seus resultados.
Se por ocasião do referido contágio subiu o número das vítimas a tanto, que os cemitérios e as igrejas já não tinham espaço para lhes oferecer sepulturas, que diremos nós para darmos a conhecer, não unicamente os efeitos da peste, comum a todos os climas e a todas as regiões, mas juntamente com estes efeitos os da seca, flagelo especial de algumas de nossas províncias do Norte ?
Excetuada a febre amarela por ocasião de sua primeira invasão, a qual se verificou em Pernambuco em 168G, não consta que alguma outra calamidade de poste haja sido mais fatal àqueles povos do que a sobredita calamidade. Do mesmo modo a seca, chamada em Ceará "seca grande", que arrasou Pernambuco desde 1791 até 1793, com ser mais intensa e duradoura do que a de 1776, ficou-lhe aquém nos estragos produzidos nesta última província onde esta seca foi precedida do terrível contágio que levou milhares de almas como já dissemos. Dois flagelos, um imediatamente depois do outro, para não dizermos dois flagelos reunidos, dos quais o primeiro disputava ao segundo a primazia no abater e o destruir, traziam pois a província em contínuo pranto e luto, pranto nunca chorado e luto nunca visto em tamanho extensão, ao tempo em que se passaram os acontecimentos que diremos neste capítulo.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.