Por Bernardo Guimarães (1872)
Seguiu-se a embaixada. Um parlamentar, montado em um formoso e bem doutrinado ginete, saiu caracolando, dançando, pinoteando para o meio da arena, e em um discurso bombástico no estilo do Carlos Magno, intimou por parte do rei dos cristãos ao chefe dos infiéis que se rendesse à discrição, etc. Mas o turco descrido não está por isso, e com a mais despejada arrogância jura por Mafoma que se não renderá e desafia a cólera do cristão vencedor. Então há a corrida desordenada. Os cavaleiros cristãos em massa investem sobre os turcos, os quais não podendo sustentar o choque, correm atropeladamente pelo circo, uns para aqui, outros para acolá, sempre perseguidos pelos cristãos. Enfim os mouros, vendo-se apanhados, põem rapidamente o pé em terra e, largando seus cavalos, correm a procurar refúgio e padrinho cada qual em um palanque de sua escolha, e assim aqueles perros infiéis, abrigados cada um aos pés de uma beleza cristã, de cujas mãos querem receber o batismo, ficam inteiramente a salvo da sanha dos perseguidores.
Elias, que era mouro, atracou-se logo ao palanque do Major, e foi apadrinhar-se com Lúcia. Esta com alegre alvoroço e quase pensando, em sua imaginação infantil, que aquilo era uma realidade, adiantou-se sorrindo a dar a mão ao cavaleiro, como é costume nessas ocasiões, este foi convidado a jantar em casa de sua madrinha.
Assim passou-se alegremente o primeiro dia de festa. Os outros dois, que se seguiram, correram igualmente animados e folgaram sem incidente algum, cabendo sempre a Elias as honras do dia nas cavalhadas.
III - NA ROÇA
Festas acabadas, músicos a pé. Por vir muito a pêlo, cai-me agora do bico da pena este anexim popular.
Acabada a festa, tudo caiu na tristeza e monotonia, não direi ordinária, porém muito pior ainda, pois contrastava horrivelmente com a alegria e festivo alvoroço dos dias que acabavam de escoar-se, e dos quais somente restavam as saudades.
Elias, de garboso e brilhante cavaleiro que era, passou a não ser mais que mero peão, isto é, voltou à sua condição de moço pobre e sem posição.
O Major teve de demorar-se alguns dias ainda na vila. Elias durante esse tempo não deixou passar um dia sem ir à sua casa; era, porém, muito maior a freqüência de seu rival, cuja importuna assiduidade já escandalizava os olhos do público. Lúcia raras vezes lhe aparecia, e só quando era chamada por seu pai. Outro tanto não praticava com Elias, a quem vinha sempre cumprimentar com ar modesto, mas com as faces incendiadas em certo rubor, que significava muito. Este procedimento enchia de despeito e feria dolorosamente o amor- próprio do negociante:
-sempre é da roça! - dizia ele com seus botões para desabafar seu desgosto. - Estas matutas são assim mesmo; parece que têm medo dos homens de certa classe e de certa educação mais elevada, e só se ligam com os da sua ralé. Quando lhes aparece em casa alguma pessoa mais bem trajada e de maneiras mais polidas apenas animam-se a espiar por trás das portas. . . Mas esta moça. . . julguei que tivesse um bocadito mais de espírito. . . qual! É como as outras, ou pior. Lá se avenha ela com o palerma do seu cavaleiro andante. Lê com lê, crê com crê. Admira que o bobo do Major não perceba certas coisas e não veja que aquele lorpa lhe anda fazendo corte à filha. Queira Deus que dali não saia alguma alhada! Muito me hei de divertir com isso.
Falando assim, porém, o nosso negociante nem por isso estava desanimado, nem abandonava o campo. Sabia que o rapaz não era do lugar, e tinha de ir-se embora. Mesmo que não fosse, estava firmemente convencido de que o Major, homem de fortuna, jamais se resolveria a dar sua filha a um pobre diabo, que não tinha onde cair morto, só porque sabia correr cavalhadas. Assim pensava, e guardava-se para melhores tempos.
Elias, que viera de Uberaba expressamente para tomar parte nas cavalhadas, - pois tinha bem merecida nomeada de bom cavaleiro por todos aqueles sertões – Elias viera recomendado ao Major por pessoas importantes daquela localidade, e portanto a sua assiduidade em casa deste tinha explicação muito natural, e o Major estava longe de presumir que o moço tivesse a veleidade de pôr os olhos apaixonados em sua filha. Estulto e cego, que pensava que o amor calcula as dificuldades e mede as distâncias das posições, e que não via que aquelas duas criaturas eram próprias para se inspirarem mútuo e ardente amor!
Mas, ai deles! aproximava-se o tempo de se separarem, e esta lembrança os enchia de angústia e melancolia. Viramse, amaram-se e sabiam que eram amados; mas nunca, por uma palavra que fosse, tinham confessado um ao outro aquele sentimento, e agora iam separar-se sem um adeus, um aperto de mão, um protesto, que os confortasse naquela longa, e quem sabe se eterna separação.
Elias andava excogitando um meio de despedir-se de Lúcia e protestar-lhe seu eterno amor, quando o Major o veio tirar desse embaraço e encher da mais viva alegria. O Major tomara simpatia e afeição pelo jovem uberabense, e, como lhe era recomendado por pessoas a quem não podia deixar de servir, o convidou para sua fazenda, onde, dizia o Major, teria muito em que emprega-lo, até que pudesse procurar melhor arranjo.
Faça-se idéia do prazer e ufania com que Elias partiu, atravessando a vila ao lado da sua amada, montado no próprio rosilho em que tantas brilhaturas fizera nas cavalhadas.
Instalado na fazenda do Major, Elias foi ali tratado com afetuosa bondade, como se fora um membro da família. Era o escriturário, ou antes secretário particular do Major, e posto que a escrituração de um fazendeiro do sertão seja quase que nenhuma, todavia o pai de Lúcia, na sua qualidade de Major de estado-maior e ocupando um cargo de polícia, que raras vezes exercia, tinha vários ofícios a fazer e a responder, e não deixava de tirar proveito da boa letra e das luzes de Elias.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.