Por Bernardo Guimarães (1872)
Eduardo, – assim se chamava o caçador ferido – era um moço natural da Vila Franca na província de S. Paulo, alto, bem feito, e de fisionomia agradável e simpática, onde transluziam os dotes de sua alma nobre e bem formada. Era muladeiro; ia todos os anos à feira de Sorocaba ou Curitiba, a comprar bestas, que vendia pelas províncias de S. Paulo, Minas e Goiás. Andava então no giro de seu negócio, e tinha invernado a sua mulada na fazenda vizinha, pertencente a um primo do pai de Paulina, a quem já aludimos no capítulo antecedente. Durante esse tempo divertiu-se em caçadas, a que era muitíssimo afeiçoado, o que deu ocasião ao lamentável incidente, que teve lugar na roça de Joaquim Ribeiro.
O fazendeiro vizinho e um filho seu por nome Roberto eram também da partida. Aquele depois de ter acompanhado o ferido a casa do seu parente, despediu-se e retirou-se para a sua fazenda com os outros caçadores, recomendando-lhe toda a paciência e cuidado com o ferido, por ser muito seu amigo, e digno de toda a estima e apreço. Roberto, porém, a pretexto de fazer companhia a Eduardo, deixou-se ficar; mas não fazia mais do que aproveitar-se com avidez da ocasião que se lhe oferecia de passar alguns dias junto de sua prima Paulina, por quem desde criança tinha uma paixão louca. Havia mesmo já como um ajuste tácito entre os pais para o casamento dos dois primos, e já desde a infância os entretinham em ar de brinco com essa idéia; – mau costume que há nas nossas famílias, e que às vezes produz funestos resultados. Disse – ajuste entre os pais, porque Paulina por sua parte ouvia sempre falar nisso com a maior indiferença, e entendia que aquilo não passava de um brinquedo entre crianças. Roberto, porém, moço que teria vinte anos de idade, sentia por sua prima uma verdadeira e ardente paixão, alimentada constantemente desde a infância com os mais lisonjeiros sonhos de esperança e de futuro. Além disso encantava-o a perspectiva de uma rica herança que teria de vir-lhe às mãos inteirinha sem outro trabalho mais que esperar que seu futuro sogro cerrasse para sempre os olhos no leito da morte.
Roberto era um sertanejo de grosseira educação, de gênio áspero, e asselvajado na superfície, posto que no fundo não tivesse má índole. Com tais predicados bem se vê, que era impossível ser agradável aos olhos da delicada e sensível Paulina.
Posto que bem apessoado e mesmo bonito, a crosta de rudeza que o revestia, tornava impossível qualquer simpatia entre dois caracteres talhados por moldes tão diferentes.
No dia seguinte ao do desastre pela manhã, Paulina, seu pai e o primo achavam-se no quarto de Eduardo, a quem a extrema fraqueza a que o reduzira a grande perda de sangue, não permitia levantar-se da cama. Paulina acabava de trazer um caldo ao doente, que lho agradeceu com um olhar cheio do mais terno reconhecimento.
– Coitadinha da prima! dizia Roberto, – que susto não rapou ontem!
por Deus, que eu tinha bem vontade de ver a carinha, com que ficou, quando a bicha embarafustou pelo rancho adentro.
– Com efeito, primo! que fraco gosto! que graça podia achar em ver uma cara de defunta?... eu fiquei sem pinga de sangue, e caí logo sem acordo.
– Ah! maldita bicha! mil vidas que lhe tirassem, ainda era pouco para pagar o susto, que lhe pregou, prima.
– Ora!... o susto nada foi, já se passou; mas o golpe, que deu no senhor Eduardo?... para esse sim, é que toda a vingança seria ainda pouca. Admira que o primo, sendo tão valente, não acompanhasse de perto o sr. Eduardo para ajudá-lo a matar a onça; talvez tivesse evitado semelhante desastre.
– Isso é que é verdade; acudiu o velho; – se algum dos outros companheiros chegasse junto aqui com o senhor, e a bicha em vez de um recebesse dois tiros a um tempo, e que pegassem em bom lugar, talvez não tivesse tido tempo de fazer o que fez. Mas o que querem? a rapaziada pateteou...
– Ora essa é que é boa!... pateteou não, meu tio; como é que eu havia de chegar a tempo, se o meu cavalo caiu engastalhado no meio das malditas coivaras que me atravancavam a passagem, e eu levei uma embarroada nesta perna, que me fez chiar, e que até agora está-me doendo, e quase que eu não podia dar um passo. Não fosse isso, eu era o primeiro a chegar, e diabos me carreguem nesta hora, se eu só não tivesse dado cabo da bicha, sem levar um arranhão que fosse...
– Oh! pois não!... exclamou Eduardo sorrindo-se: não havia nada mais fácil... de dizer-se. Meu amigo, eu também levei encontroadas horríveis no meio daquelas diabólicas coivaras e tenho o corpo todo pisado e magoado; o meu cavalo também caiu; mas naquela ocasião eu nada sentia; já de longe eu tinha percebido que havia mulheres dentro do rancho, e ainda que se me tivesse quebrado uma perna havia de me arrastar, custasse o que custasse, até o lugar do perigo. Mas se não fosse essa circunstância, não seria eu bobo de me ir atirar assim, sem quê nem para quê, nas garras do terrível animal.
– Ah! dessa ainda nós não sabíamos, sr. Eduardo,– disse o fazendeiro; mais um motivo, que vem aumentar a meus olhos a imensa obrigação em que lhe estamos. Assim o senhor não praticou apenas um ato de estouvada valentia de caçador, e não foi sem o saber que salvou duas criaturas?
– Não, decerto; tão louco não seria eu...
– E praticou um ato de nobre e generosa dedicação por pessoas que nunca conheceu. Ah, sr. Eduardo! em que dívida lhe estamos, e quando e como poderemos nunca pagá-la.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.