Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Os obstaculos accendião ainda mais a paixão que me devorava; era-me indispensavel tornar a encontrar-me com a bella. mysteriosa, com essa mulher singular, cujo véo eu quizera queimar com o fogo dos meus olhos, com essa mulher poética, romanesca, vaporosa que se fazia amar sem mostrar o rosto! De subito parei, e reflecti.
— Quem sabe?... disse comigo mesmo: quem sabe se as despedidas feitas á velha não são tão mentirosas como as do bilhetinho que me poz no bolso?... quem sabe se não é ainda o mesmo systema empregado para me arredar d'aquella casa?
« Voltei para traz e então mais cauteloso, escolhendo as ruas c os beccos menos freqüentados, e por onde eu nunca passava, tornei a dirigir-me á casada família pobre.
« Quando me achei perto, approximei-me nas pontas dos pés... cheguei-me á rotula, que por signal abria-se para dentro, conforme o disposto nas posturas da camara municipal. »
— Ora, Constancio!... que posturas tão sem pés nem cabeça!... esfriaste a narração com ellas.
— Tens razão : deita fora as posturas.
— Pois sim; mio façamos caso d'ellas... também ninguém faz. Vamos á historia : tinhas chegado á rotula.
__ Cheguei... olhei para dentro... e vi...oh!
— O que ?
— Era ella !...
— Quem ?... a bella mysteriosa ?...
— Sim; não contava mais comigo, e tinha esquecido todas as precauções que costumava tomar. O seu véo estava deposto sobre uma cadeira ao pé da porta; e ella conversava com a velha, sentada com as costas voltadas para a rua.
— E tu?...
— Eu?... que pergunta! eu estava olhando, e por consequencia estava com a cara voltada para dentro.
— Não é isso : que fizeste ?...
— Primeiro tomei uma larga respiração... depois empurrei a porta de repente, lancei-me para dentro, e apoderei-me do véo, bradando :
— emfim!...
—E ella?...
— Soltou um grito de espanto... Voltou-se
para ver quem era... esbarrou-se comigo... e...
— E... o que?...
— E desatou uma risada.
— Uma risada... então?...
— Sou um tolo !... sou um pedaço d'asno!
— Mas emfim ella... quem era !...
— Era... sou um pateta!... confesso que sou um bobo!...
— Mas ella... ella...
— Era minha irmã.
O FIM DO MUNDO
INTRODUCCAO
O Fim do Mundo em 1856 não é certamente um romance ; faltão-lhe todas as condições para merecer esse titulo : foi um simples artigo de occasião que appareceu publicado no folhetim do Jornal do Commercio de 13 de Junho de 1856, que então por ventura chegou a agradar, e agora não terá merecimento algum ; contemploo porém n'esta collecção, nem mesmo saberei dizer porque... talvez para avolumar com algumas paginas mais o meu pequeno livro.
Como se hão de lembrar muitos ainda, estava annunciado um cometa, para o anno de 1856, e não poucos terroristas, improvisando-se prophetas, determinavão o dia 13 de Junho de 1856, como o prazo fatal de um horroso cataclysmo, cujo resultado seria nada menos que o fim do mundo.
O famoso conego de Liège celebrisou-se por esse agouro sinistro.
Muita gente acreditou nos agoureiros, e no Brazil não faltarão credulos, que virão com indizivel terror aproximar-se o dia 13 de Junho.
Foi esse o motivo do artigo que então escrevi, e que agora reproduzo n'esta pobre collecção.
Fiz representar como protogonista, ou como narrador, n'esse artigo o senhor Martinho Corrêa Vasques, que é um actor muito conhecido e estimado no Rio de Janeiro. Foi uma liberdade que tomei, e de que elle me fez o favor de não se offender.
Hoje, relendo essas breves e risonhas paginas que em 1856 escrevi, sinto verdadeira tristeza, porque n'ellas encontro de mistura com innocentes gracejos os nomes de pessoas, algumas das quaes a morte já arrancou do mundo, e entre elles o do meu amigo o commendador Manoel Moreira de Castro, de quem sempre recebi provas de estima e confiança extrema.
O que então nos fez rir, fez-me entristecer agora.
Não importa : ahi vai.
O FIM DO MUNDO
EM 1857
I
Estava reservada ao Martinho a triste obrigação de escrever a lugubre historia do cataclysmo por que passou a cidade do Rio de Janeiro, e por que muito provavelmente ha de ter passado o mundo inteiro no fatal dia 13 de Junho.
Eu sou o novo Noé que sobreviveu ao novo diluvio! e sou ao mesmo tempo o Moysés do seculo das luzes que deve referir o infausto caso do fim do mundo no anno de 1857.
Não fui d'aquelles estouvados incredulos que zombarão da prophecia do conego de Liège ; tive sempre a maior veneração pelos conegos, e não havia de ser em uma questão de cometa que o Martinho duvidasse da palavra de um conego.
Também não me contei no numero dos terroristas e dos aterrados, que, esperando, pelo fim do mundo no dia 13 de Junho, não pensarão em escapar ao dilúvio, e resolvêrão-se a morrer immoveis e caladinhos como carneiros.
A idéa de acabar como capão, peru, ou leitoa em dia de
banquete me revoltava deveras. « Que! disse eu a mim mesmo, conversando com os
meus botões; que! o Martinho, que tinha direito a considerar-se immortalisado
pela fama, ha de assim sem mais nem menos perder a sua immortalidade, reduzido
a torresmo pelo fogo da cauda de um cometa? »
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.