Por José de Alencar (1853)
Foi pois já sem effusão e com o passo moroso que saltou na praia, onde Duarte de Moraes abria-lhe os braços. Depois de receber as boas vindas de Ursula, voltou-se Ayres para Maria da Gloria que desviou os olhos, retrahindo o talhe talvez na intenção de esquivar-se ás caricias que sempre lhe fazia o corsario á chegada.
— Não me abraça, Maria da Gloria? perguntou o commandante com um tom de magua.
Córou a menina, e correu a esconder o rosto no seio de Ursula.
— Olhem só! Que vergonhas!... disse a dona a rir.
No emtanto Duarte de Moraes, pondo a mão na espadua do mancebo, dizia a Ayres;
— Este é Antonio de Caminha, filho da mana Engracia, o qual vai agora para tres semanas nos chegou do reino, onde muito se fala de vossas proezas; nem são ellas para menos.
Dito o que, voltou-se para o mancebo.
— Aqui tens tu, sobrinho, o nosso homem; e bem o vêdes que foi talhado para as grandes cousas que tem obrado.
Saudou Ayres cortezmente ao mancebo, mas sem aquella affabilidade que a todos dispensava. Esse casquilho de Lisboa, que de improviso e a titulo de primo se introduzira na intimidade de Maria da Gloria, o corsarion ão o via de boa sombra.
Quando á noite se recolheu a casa, levou Ayres a alma cheia da imagem da moça. Até aquelle dia não vira n'ella mais do que a menina graciosa e gentil, com quem se habituára a folgar. N'aquella tarde, em vez da menina, achou uma donzella de peregrina formosura, que elle contemplára enlevado nas breves horas passadas a seu lado.
IX
PECADO
Ia agora Ayres de Lucena todos os dias á casa de Duarte de Moraes, quando de outras vezes apenas lá apparecia de longe em longe.
Havia ahi um encanto que o attrahia, e este, pensava o corsario não ser outro sinão o affecto de irmão que votava a Maria da Gloria, e crescera agora com as graças e prendas da formosa menina.
Mui frequente era encontral-a Ayres a folgar em companhia do primo Caminha, mas á sua chegada ficava ella toda confusa e atada, sem animo de erguer os olhos do chão ou proferir palavra.
Uma vez, em que mais notou essa mudança, hão se poude conter Ayres que não observasse :
— Estou vendo, Maria da Gloria, que lhe metto medo?
— A mim, senhor Ayres? balbuciou a menina.
— A quem mais?
— Não me dirá porque?
— Está sempre alegre, mas é ver-me e fecharse como agora n'esse modo triste e...
— Eu sou sempre assim.
— Não; com os outros não é; tornou Ayres fitando os olhos em Caminha.
Mas logo tomando um tom galhofeiro continuou :
— Sem duvida lhe disseram que os corsarios são uns demonios!...
— O que elles são, não sei, acudiu Antonio de Caminha; mas aqui estou eu, que no mar não lhes quero ver nem a sombra.
— No mar tem seu risco; mas em secco não fazem mal; são como os tubarões, replicou Ayres.
N'esse dia, deixando a casa de Duarte de Moraes, conheceu Ayres de Lucena que amava a Maria da Gloria e com amor que não era de irmão.
A dôr que sentira pensando que ella pudesse querer a outrem, que não elle, e elle sómente, lhe revelou a vehemencia d'essa paixão que se tinha embuiido em seu coração e ahi crescêra até que de todo o absorveu.
Um mez não era passado, que appareceram francezes na costa e com tamanha audacia que por vezes investiram a barra, chegando até a ilhota da Lage, apezar do forte de S. João na Praia Vermelha.
Ayres de Lucena, que em outra occasião fôra dos primeiros a sahir contra o inimigo, d'esta vez mostrou-se tibi e indifferente.
Emquanto outros navios se aprestavam para o combate, a escuna Maria da Gloria se embalava tranquillamente nas aguas da bahia, desamparada pelo commandante, que a maruja inquieta esperava debalde, desde o primeiro rebate.
Uma cadeia occulta prendia Ayres á terra, mas sobretudo á casa onde morava Maria da Gloria, a quem elle ia ver todos os dias, pesando-lhe que o não pudesse a cada instante.
Para calar a voz da patria que ás vezes bradava-lhe na consciencia, comsigo encarecia a necessidade de ficar para a defensão da cidade, no caso de algum assalto, sobretudo quando sahia a perseguir os corsarios o melhor de sua gente de armas
Succedeu porém que Antonio de Caminha.
mancebo de muitos brios, teve o commando de um navio de corso, armado por alguns mercadores de S. Sebastião ; mal que o soube, Ayres, sem mais detença foi-se a bordo da escuna, que desfraldou as velas fazendo-se ao mar.
Não tardou que se não avistassem os tres navios francezes, pairando ao largo. Galharda e ligeira, com as velas apojadas pela briza e sua bateria pronta, correu a Maria da Gloria o bordo sobre o inimigo.
Desde que fôra baptisado o navio, nenhuma empreza arriscada se tentava, nenhum lance de perigo se affrontava, sem que a maruja com o commandante á frente, invocasse a protecção de Nossa Senhora da Gloria.
Para isso desciam todos á camara da prôa, já preparada como
uma capella. A imagem que olhava o horizonte como a rainha dos mares, girando
na peanha voltava-se para dentro, afim de receber a oração.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.