Por Martins Pena (1845)
Carlos — Este vestido, senhor meu tio... Ah, ah!
Ambrósio — Maroto!
Carlos — Tenha-se lá! Olhe que eu chamo por ela.
Ambrósio — Ela quem, brejeiro?
Carlos — Sua primeira mulher.
Ambrósio — Minha primeira mulher. É falso...
Carlos —É falso?
Ambrósio — É.
Carlos — E será também falsa esta certidão do vigário da freguesia de ... (olhando para a certidão:) Maranguape, no Ceará, em que se prova que o senhor meu tio recebeu-se... (lendo:) em santo matrimônio, à face da Igreja, com D. Rosa
Escolástica, filha de Antônio Lemos, etc., etc.? Sendo testemunhas, etc.
Ambrósio — Dá-me esse papel!
Carlos — Devagar...
Ambrósio — Dá-me esse papel!
Carlos — Ah, o senhor meu tio encrespa-se. Olhe que a tia não está em casa, e eu sou capaz de lhe fazer o mesmo que fiz ao D. Abade.
Ambrósio — Onde está ela?
Carlos — Em lugar que aparecerá quando eu ordenar.
Ambrósio — Ainda está naquele quarto; não teve tempo de sair.
Carlos — Pois vá ver. (AMBRÓSIO sai apressado)
CENA IV
Carlos, só — Procure bem. Deixa estar, meu espertalhão, que agora te hei de eu apertar a corda na garganta. Estais em meu poder; querer roubar-nos... (Gritando:) Procure bem; talvez esteja dentro das gavetinhas do espelho. Então? Não acha?
CENA V
O mesmo e Ambrósio
Ambrósio, entrando — Estou perdido!
Carlos — Não achou?
Ambrósio — O que será de mim?
Carlos — Talvez se escondesse em algum buraquinho de rato.
Ambrósio, caindo sentado — Estou perdido, perdido! Em um momento tudo se transtornou. Perdido para sempre!
Carlos — Ainda não, porque eu posso salvá-lo.
Ambrósio — Tu?
Carlos — Eu, sim
Ambrósio — Carlinho!
Carlos — Já?
Ambrósio — Carlinho!
Carlos — Ora vejam como está terno!
Ambrósio — Por tua vida, salvai-me!
Carlos — Eu salvarei, mas debaixo de certas condições...
Ambrósio — E quais são elas?
Carlos — Nem eu nem o primo Juca queremos ser frades...
Ambrósio— Não serão.
Carlos — Quero casar-me com minha prima...
Ambrósio — Casarás.
Carlos — Quero a minha legítima...
Ambrósio — Terás a tua legitima.
Carlos — Muito bem.
Ambrósio — E tu me prometes que nada dirás a tua tia do que sabes?
Carlos — Quanto a isso pode estar certo. (À parte:) Veremos...
Ambrósio — Agora dize-me, onde ela está?
Carlos — Não posso, o segredo não é meu.
Ambrósio — Mas dá-me sua palavra de honra que ela saiu desta casa?
Carlos — Já saiu, palavra de mulher honrada.
Ambrósio — E que nunca mais voltará?
Carlos — Nunca mais. (À parte:) Isto é, se quiserem ficar com ela lá no convento, em meu lugar.
Ambrósio — Agora dá-me esse papel.
Carlos — Espera lá, o negócio não vai assim. Primeiro hão de cumprir-se as condições.
Ambrósio — Carlinho, dá-me esse papel!
Carlos — Não pode ser.
Ambrósio — Dá-mo, por quem és!
Carlos — Pior é a seca.
Ambrósio — Eis-me a teus pés. (Ajoelha-se; neste mesmo tempo aparece à porta Florência e Emília, as quais caminham para ele pé ante pé.) Carlos — Isso é teima; levante-se!
Ambrósio — Não me levantarei enquanto não mo deres. Para que o queres tu? Farei tudo quanto quiseres, nada me custará para servir-te. Minha mulher fará tudo quanto ordenares; dispõe dela.
Florência — A senhora pode dispor de mim, pois não...
Ambrósio — Ah! (Levanta-se espavorido.)
Carlos, à parte — Temo-la!...
Florência, para Ambrósio — Que patifaria é essa? Em minha casa e às minhas barbas, aos pés de uma mulher! Muito bem!
Ambrósio — Florência!
Florência — Um dardo que te parta! (Voltando-se para CARLOS:) E quem é a senhora?
Carlos , com a cara baixa — Sou uma desgraçada!
Florência — Ah, é uma desgraçada... Seduzindo um homem casado! Não sabe que... (CARLOS que encara com ela, que rapidamente tem suspendido a palavra e, como assombrada, principia a olhar para ele, que ri-se.) Carlos! Meu sobrinho!
Emília — O primo.
Carlos — Sim, tiazinha, sim, priminha.
Florência — Que mascarada é essa?
Carlos — É uma comédia que ensaiávamos para sábado de Aleluia.
Florência — Uma comédia?
Ambrósio — Sim, era uma comédia, um divertimento, uma surpresa. Eu e o sobrinho arranjávamos isso... Bagatela, não é assim, Carlinho? Mas então vocês não ouviram o ofício até o fim? Quem pregou?
Florência, à parte — Isto não é natural... Aqui há coisa.
Ambrósio — A nossa comédia era mesmo sobre isso.
Florência — O que está o senhor a dizer?
Carlos, à parte — Perdeu a cabeça ( Para FLORÊNCIA:) Tia, basta que saiba que era uma comédia. E antes de principiar o ensaio o tio deu-me a sua palavra que eu não seria frade. Não é verdade, tio?
Ambrósio — É verdade. O rapaz não tem inclinação, e para que obrigá-lo? Seria crueldade.
Florência — Ah!
Carlos — E que a prima não seria também freira, e que se casaria comigo.
Florência — É verdade, Sr. Ambrósio?
Ambrósio — Sim, para que constranger estas duas almas? Nasceram um para o outro; amam-se. É tão bonito ver um tão lindo par!
Florência
— Mas, Sr. Ambrósio, e o mundo que o senhor dizia que era um pélago, um
sorvedouro e não sei o que mais?
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.