Por Martins Pena (1845)
LUÍS – Assim é que me pagas! (Fugindo sempre.)
CLEMENTINA – Fogo nele, para não ser bandoleiro! (Ritinha segue mais de perto Luís, que foge e refugiase em cima da carroça.) Assim, assim, Ritinha, ensina-o.
RITINHA – Desce cá para baixo!
LUÍS – Assim era eu asno!
CLEMENTINA – Ritinha, vá buscar lá dentro duas pistolas de lágrimas.
LUÍS – Nem pistola, nem espingarda, nem peças não me farão gostar de vocês. Agora não me caso nem à bala.
CLEMENTINA – E também, quem é que quer casar com você?
RITINHA – Eu não!
CLEMENTINA – Quem é que acredita nas palavras de um namora-paredes?
LUÍS – Muita gente!
CLEMENTINA – Estás desacreditado!
LUÍS – Na praça?
CLEMENTINA – Não, com todas as moças.
LUÍS – Melhor, mais gostarão de mim.
RITINHA – Isto não se pode aturar! Vamo-nos embora.
CLEMENTINA – Presunçoso! (Vai a sair pelo fundo.)
LUÍS – Adeus! Viva S. João! (Dentro respondem a gritos.)
CENA XVI
Luís, só, de cima da carroça.
LUÍS – Fi-la bonita! Agora nem uma nem outra. Ainda bem! Mas o diabo é ficar o maroto do Júlio muito ufano com eu ter cedido. Histórias! Não cedo em outras coisas, que namorada pouco se me dá; acho cem por uma que deixo. Contudo estou zangado. Maldita noite de S. João!
CENA XVII
Maria vem do fundo da cena e vai a entrar na casinha.
LUÍS, saltando da carroça – Psiu, psiu!
MARIA, parando – Quem é?
LUÍS, chegando-se para ela – Escuta uma coisa.
MARIA – Ai! O senhor que quer comigo?
LUÍS – Desde o dia que principiaram a chegar a esta terra carregamentos de colonos, como antigamente chegavam carregamentos de cebolas, ainda cá não apareceu uma ilhoazinha com esses olhos matadores, com esses beicinhos rosados.
MARIA – Ai, o senhor está a mangar comigo.
LUÍS – As mais que eu por aí vejo são feias como uma lacraia e vermelhas como a crista do galo; mas tu és a nata das ilhoas. (Quer abraçá-la.)
MARIA – Chegue-se para lá, que vou contar a meu marido. (Quer sair, Luís a retém.)
LUÍS – Espera.
É pena que estejas casada com teu marido.
MARIA – Ai, pois eu podia estar casada com um homem que não fosse meu marido?
LUÍS – Pois não.
MARIA – Está zombando? (Neste tempo a fogueira está de todo acesa e todas as pessoas que estão na casa saem e ficam ao redor da fogueira, ad libitum.)
LUÍS – Sentemo-nos neste banco, que te explicarei como pode isto ser. Aqui nos podem ver lá de cima com o clarão da fogueira.
MARIA – Estou com curiosidade.
LUÍS, à parte – Isto sei eu. (Assentam-se no banco.) Supõe que nunca tenhas visto teu marido... Que mãozinhas! (Pega-lhes nas mãos.)
MARIA – Largue minha mão!
LUÍS – Nem encontrado com ele... Que olhinhos!
MARIA – Deixe meus olhos!
LUÍS – Ora, se nunca o tivesse visto nem encontrado, está claro que agora não estarias casada com o teu marido.
MARIA – Ora vejam! E é verdade!
LUÍS – Não terias dado essa mão, (pega-lhe na mão) que tanto estimo... (Aqui atravessa a cena Manuel, vestido de mulher, e entra no seu quarto.)
MANUEL, atravessando a cena – Custou-me o arranjar-me...
MARIA – O senhor tem um modo de explicar as coisas que entram pelos olhos... De sorte que se eu não tivesse encontrado a Manuel, não estava hoje casada?
LUÍS – Decerto.
MARIA – Sabe o senhor quando eu o vi? Foi numa festa que se deu no Funchal. (Manuel, depois de entrar no quarto, fecha a porta e fica dentro do quarto, defronte da janela. Chega-se para ele, como vindo do interior, João, que supondo ser a Maria, o abraça.)
JOÃO – Minha ilhoazinha, minha Mariquinha! (Dá abraços e beijos, que Manuel corresponde.)
MARIA – Hem?
LUÍS – Não disse nada. Continua. (Continua a ter a mão dela na sua.)
MARIA – Eu ia para a festa. Ai, agora é que me lembro que se não fosse a festa também não estava casada!
LUÍS, dando-lhe um abraço – Maldita festa!
MARIA – Fique quieto! Veja o diabo as arma.
LUÍS – É verdade! (Manuel e João, que ouvem as vozes dos dois, chegam-se para a janela, e dando com os dois no banco abaixo, ficam observando, dando sinais de grande surpresa.)
MARIA – Estive quase não indo à festa, e se não fosse o meu vestido novo... Ai, senhor, e se não fosse o vestido novo, eu também não estava casada.
LUÍS, abraçando – Maldito vestido!
MARIA – Foi minha tia que mo deu. Ai, que se eu também não tivesse tia, não era agora mulher de meu marido. (Manuel debruça-se pela janela e a agarra no pescoço.)
MANUEL – Maldita mulher! (Maria dá um grito e levanta-se; o mesmo faz Luís. Maria, conhecendo o
marido, deita a correr, atravessando a cena. Manuel salta pela janela e a persegue, gritando. Saem ambos da cena.)
LUÍS, vendo Manuel saltar – Que diabo é isto? (Reconhecendo João, que fica à janela:) O tio João!
JOÃO – Cala-te! (Esconde-se.)
LUÍS, rindo-se – No quarto da ilhoa! (Acodem todos, isto é, Clara, Clementina, Ritinha, Júlio e os convidados.)
CENA XVIII
CLARA – O que é? Que gritos são estes?
CLEMENTINA, ao mesmo tempo – O que aconteceu?
RITINHA, ao mesmo tempo – O que foi? (Luís ri-se.)
CLARA – O que é isto, Luís? Fala. (Luís continua a rir-se.)
CLEMENTINA
– De que se ri tanto o primo?
CLARA – Não falarás?
(continua...)
PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.